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Quem são e como foram preparadas as três herdeiras de Pedro Queiroz Pereira

Economia

Inácio Ludgero / Arquivo VISÃO

Elas vão gerir o império empresarial, que se estende dos cimentos ao papel, que o pai reconstruiu ao longo de 25 anos, tornando-o o sétimo homem mais rico do País

O destino tem destas ironias. O homem que, durante vários anos, arriscou a vida a pilotar automóveis acabou por ser traído pelo coração, a bordo de um iate.

Tal como nas pistas, Pedro Queiroz Pereira, o PêQuêPê, como era conhecido na competição, enfrentou governos, políticos, empresários poderosos e até a própria família. Saiu quase sempre por cima e, em 25 anos, reconstruiu o império empresarial que, outrora, fora de seu pai, desmantelado após a Revolução de Abril de 1974.

Com a sua morte em Ibiza, no passado dia 19 de agosto, Pedro Queiroz Pereira deixa uma fortuna avaliada em 779 milhões de euros, segundo a última edição da revista Exame, às suas três filhas, Filipa, Mafalda e Lua.

Filipa (esquerda) A irmã mais velha é a mulher das Matemáticas Aplicadas. Seguiu uma carreira ligada à informática, mais propriamente o software para desenvolvimento de sites. Agora está na gestão do Hotel Ritz. Lua (centro) Está mais ligada ao dia a dia da Semapa. Gere ainda a empresa que está a apostar nos negócios da chamada economia de rápido crescimento, criando uma aceleradora de startups. Mafalda (direita) Atleta olímpica na Coreia do Sul, em 1998, formou-se em Arquitetura de Interiores. Está mais virada para a gestão do vasto património imobiliário do grupo
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Filipa (esquerda) A irmã mais velha é a mulher das Matemáticas Aplicadas. Seguiu uma carreira ligada à informática, mais propriamente o software para desenvolvimento de sites. Agora está na gestão do Hotel Ritz. Lua (centro) Está mais ligada ao dia a dia da Semapa. Gere ainda a empresa que está a apostar nos negócios da chamada economia de rápido crescimento, criando uma aceleradora de startups. Mafalda (direita) Atleta olímpica na Coreia do Sul, em 1998, formou-se em Arquitetura de Interiores. Está mais virada para a gestão do vasto património imobiliário do grupo

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Nunca deixou nada ao acaso e gostava de se preparar ao máximo para qualquer disputa. Nas corridas, afinava os carros até ao último minuto. “Uma noite, ficámos a trabalhar no carro até às três da manhã, quando os outros pilotos já dormiam para enfrentar a prova do dia seguinte. Depois de afinado, fomos testá-lo para a pista. Como o carro não tinha luzes, obrigou-nos a acender os faróis de veículos ligeiros para ele poder ver o circuito”, relembrou à VISÃO, em 2004, Duarte Cancela de Abreu, o seu manager na década de 80. O piloto PêQuêPê rodeava-se de pessoas entendidas e exigia esforço e dedicação para atingir os objetivos. Seguiu-lhe o exemplo o empresário Pedro Queiroz Pereira.

Estava a preparar a sua saída das empresas. Passou os últimos três anos a reestruturar o modelo societário e a gestão das suas empresas, deixando assegurado que o Grupo Semapa, com interesses nos cimentos, no papel, no imobiliário, na agricultura, pecuária e na hotelaria, entre outros, se mantivesse indivisível no futuro.

A estrutura de topo está dividida em várias holdings, entre as quais estão a Vértice, a Sodim, a Cimigest e a Cimipar, numa teia de participações difícil de desfiar. Porém, acima de todas estas, está a Herdeiros de Pedro Mendonça de Queiroz Pereira, que controla uma boa parte destas sociedades.

Nas empresas propriamente ditas, como a Navigator, a Semapa e a Secil, colocou gestores profissionais de topo. Não tendo formação académica (sempre corrigiu quem lhe chamava doutor), soube rodear-se de gente competente em cada uma das áreas a quem dava carta-branca para administrar as empresas. Como ele próprio afirmou, por várias vezes, “eu não sou gestor. Sou um empresário”.

Caberá agora às filhas a última palavra nas decisões dentro do grupo. E nem essa componente foi descurada. Logo após ter conseguido ficar com o controlo da Semapa, depois de uma guerra com Ricardo Salgado, com a sua irmã Maude e com os primos da família Carrelhas, Pedro Queiroz Pereira assumiu que o passo seguinte seria assegurar que o império que construiu durante 25 anos ficaria indissolúvel nas mãos das filhas.

E elas foram preparadas para esse fim. Em 2014, rumam as três para a famosa escola de gestão Insead, onde fizeram um curso de Gestão Global. Logo a seguir, frequentam a London Business School, na formação de A Sustentabilidade dos Negócios Familiares, e, no ano seguinte, entram para a Universidade de Harvard, para o Programa Tornar os Conselhos de Administração mais Eficientes. Só depois começaram a integrar os conselhos de administração das empresas.

Lua Queiroz Pereira foi ainda mais longe e, durante o tempo no Insead, fez mais cinco módulos: Dinâmica de Negociação, Programa Internacional para Gestores, Criação de Valor, Desafios das Empresas Familiares e o Programa Avira (liderança).

Lua é a mais nova das três irmãs. Nasceu em 1981, no tempo em que os pais estavam no exílio no Brasil. Regressou a Portugal quando já tinha seis anos. Dedica uma enorme paixão pela arte equestre. É uma exímia cavaleira com vários troféus conquistados. A sua primeira experiência empresarial foi a criação de uma empresa de atividades desportivas ligadas à equitação.
Atualmente, é das três filhas a que mais está presente na gestão diária da Semapa. Está ainda muito envolvida num dos projetos mais recentes do grupo, a Semapa Next. Trata-se de um braço do Grupo Semapa para novos negócios da chamada economia de crescimento rápido.

Novos negócios

Fez recentemente uma associação com os norte-americanos da Techstars, uma das maiores aceleradoras mundiais de startups, fundada em 2006, na cidade de Boulder, no Colorado. Através deste programa, irão candidatar-se 500 startups, das quais serão escolhidas dez. A Semapa Next garante um investimento inicial de 120 mil euros em cada um destes dez novos negócios. O programa é ainda apoiado pela Singularity University, de Silicon Valley, focada no progresso científico e nas tecnologias exponenciais.

Para se integrar melhor na gestão deste projeto, Lua Queiroz Pereira frequentou, no ano passado, o Programa para Executivos desta universidade.

Filipa, a mais velha, é a mulher das Matemáticas Aplicadas, curso que concluiu em 1997. Ainda como estudante universitária, entrou para a Microsoft, onde trabalhou durante dois anos no desenvolvimento de software para páginas na internet. Mais tarde, foi responsável pela informática do fundo First Portuguese e, em 2002, fundou a sua empresa de criação de sites, a Bestweb. Fez ainda uma pós-graduação em Sistemas de Informação, na Universidade de Harvard.

Atualmente, está mais dedicada à hotelaria. Integrou o conselho de administração do Hotel Ritz, um dos ex-líbris da família, que é mais do que um ativo nas contas do grupo – é também um património sentimental. “Foi feito pelo meu pai. Ele passou muitas noites a trabalhar com arquitetos, engenheiros e decoradores, para o conceber”, confessou, em 2004, Pedro Queiroz Pereira, em entrevista à VISÃO.

Porém, a atividade turística do grupo não se esgota neste símbolo da hotelaria de Lisboa. Em 2008, Pedro Queiroz Pereira comprou a herdade da Costa Terra, em Melides, que compreende uma área de mais de 850 hectares, ao suíço Andreas Reinhart, após o seu projeto para aquele espaço ter sido bastante contestado pelas associações ambientalistas. Classificado em 2005 como projeto de potencial interesse nacional (PIN), o empresário suíço queria investir um total de 600 milhões de euros em quatro fases de desenvolvimento. No projeto inicial, estava prevista a construção de três hotéis, quatro aparthotéis, quatro aldeamentos turísticos, uma estalagem, 204 moradias de turismo residencial, um campo de golfe, um centro equestre de cavalo lusitano, uma clínica de medicina desportiva, com talassoterapia e geriatria, dois clubes de ténis, um fórum comercial e um centro ecuménico. Ao comprar a herdade, Queiroz Pereira admitiu que iria fazer alterações ao projeto que fossem ao encontro das exigências das organizações ambientalistas. O projeto foi desbloqueado pelo tribunal, em julho de 2009.

Mafalda, a irmã do meio, é mais ligada às artes, como a mãe. Fez um curso técnico de Arquitetura de Interiores e formação específica na Fundação Ricardo Espírito Santo. Está mais envolvida com os projetos de investimento e de gestão imobiliária do grupo. E são muitos. Além da Costa Terra, onde existe ainda um longo trabalho de planeamento pela frente, a família tem também a Herdade dos Fidalgos, que poderá ter um processo de loteamento em curso.

Tal como Lua, Mafalda herdou do pai o espírito competitivo. Foi muito dedicada ao desporto, chegando mesmo a participar nos Jogos Olímpicos de Inverno de Nagano, na Coreia do Sul, em 1998, numa modalidade um pouco estranha para uma portuguesa: o esqui acrobático. Começou a praticar com 16 anos em Évian, na Suíça, e em poucos anos conseguiu ficar em quinto lugar no Campeonato do Mundo que se realizou no Canadá, o que lhe deu pontos suficientes para ir aos Jogos Olímpicos. Ficou em 21º lugar.

Pela frente, as irmãs terão agora um maior desafio: manter e solidificar o império empresarial que o pai reconstruiu. Depois de ter vindo do Brasil, onde esteve entre 1975 e 1987, Pedro Queiroz Pereira teve como primeiro objetivo a compra da Secil e das cimenteiras de Maceira e de Pataias. A privatização foi polémica, e o empresário travou várias guerras com os responsáveis do governo de Cavaco Silva, que estavam a preparar a operação, nomeadamente o secretário de Estado das Finanças da altura, Elias da Costa. Como concorrente tinha o empresário macaense Stanley Ho. Não se intimidou com o poder do adversário e acabou por comprar a Secil por 80 milhões de contos (cerca de 400 milhões de euros), em 19 de abril de 1994.

Dez anos depois, entrou na corrida à privatização do Grupo Portucel/Soporcel, hoje Navigator. Pôs como condição não ir à privatização se Belmiro de Azevedo se mostrasse interessado em concorrer, pois a Sonae já tinha 25% do capital da empresa e Pedro Queiroz Pereira não queria uma guerra entre grupos portugueses. Belmiro desistiu, e a Semapa, holding da família onde são arrumadas as participações empresariais, comprou os 30% da Soporcel que o Estado estava a vender e mais os 25% da Sonae. Nesse mesmo ano, garantia 67,1% do capital da empresa.

A última batalha

Com todas estas aquisições e com o investimento numa máquina de papel completamente nova, o endividamento do grupo subiu consideravelmente. Foi obrigado a vender a empresa de energia Enersis aos australianos da Babcock & Brown, por 420 milhões de euros. Quatro anos depois, a empresa entrou em insolvência.

No entanto, a luta mais fratricida teve-a há poucos anos, quando entrou em rutura com a sua irmã, Maude, os seus primos Carrelhas e os aliados da família desde 1937: os Espírito Santo. Com as holdings financeiras do Grupo Espírito Santo perto do colapso, Ricardo Salgado quis tomar o controlo do Grupo Semapa, ficando assim dono da Secil e da Soporcel. Comprou a participação das irmãs de Queiroz Pereira, Margarida e Maude, e conseguiu ainda arregimentar para o seu lado a família Carrelhas, que tinha uma posição importante no grupo.

Quando descobriu o que se estava a passar, Pedro Queiroz Pereira reuniu uma equipa de advogados e de contabilistas para passarem as contas das holdings do BES no Luxemburgo a pente fino. O que descobriram foi suficiente para que o empresário ameaçasse Ricardo Salgado de que iria denunciá-lo ao Banco de Portugal. Perante esta pressão, Ricardo Salgado acabou por chegar a acordo com Pedro Queiroz Pereira. Os Espírito Santo deixaram de ter qualquer participação em empresas da família de Pedro Queiroz Pereira, e este vendeu as participações que tinha em empresas do GES. Maude Queiroz Pereira recebeu um chorudo cheque. Ainda assim, o ataque do industrial foi certeiro e ajudou à descoberta das irregularidades no GES.
Tal como nas corridas, PêQuêPê não temeu um adversário mais forte e enfrentou-o, olhos nos olhos. Foi assim que pautou a sua vida. Irão as filhas seguir-lhe o exemplo?