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Ministério Público abre inquérito ao caso Premier FX

Economia

Fecho da empresa de transferência de dinheiro, que deixou expatriados britânicos no Algarve sem acesso a centenas de milhares de euros em poupanças, chegou à justiça portuguesa.

O Ministério Público está a investigar a situação gerada pelo fecho da Premier FX, a empresa de transferência de dinheiro que deixou dezenas de clientes britânicos a viver no Algarve sem acesso a centenas de milhares de euros em poupanças depois de ter entrado em liquidação em meados de agosto a partir do Reino Unido.

Fonte da Procuradoria-Geral da República confirmou à VISÃO ter recebido uma denúncia relacionada com este caso, que por sua vez deu origem a um inquérito dirigido pelo Ministério Público do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Faro. “Encontra-se em investigação,” acrescenta a mesma fonte.

Como a VISÃO deu conta na sua última edição impressa (30 de agosto), a morte do fundador da empresa (Peter Rexstrew, falecido na sequência de uma cirurgia a 16 de junho em Lisboa), levou os filhos Katy e Charles a assumirem a administração da empresa dois dias depois. Mas, menos de mês e meio volvido, a empresa com escritórios em Almancil, Loulé, às portas da Quinta do Lago, suspendia a atividade com uma mensagem no seu site, aludindo à morte de Rexstrew e sem dar mais pormenores.

A partir dessa data – 27 de julho - os clientes ficaram impedidos de aceder ao dinheiro que tinham em contas da empresa, criadas no Barclays Bank em Londres, com quem a Premier FX trabalhava. Outros referem que, mesmo após essa data e até serem nomeados os administradores de liquidação, o banco terá continuado a receber dinheiro encaminhado pelos clientes que diziam desconhecer, à data, a situação da empresa.

Apesar de vários clientes alegarem que a Premier FX garantiu que os valores eram depositados em contas próprias e separadas das da empresa (o que foi possível comprovar pela VISÃO numa consulta a uma página do site datada de janeiro de 2017), além de protegidas pela garantia do Financial Services Compensation Scheme (FSCS), não foi isso que os administradores de liquidação encontraram. “Descobrimos que a Premier FX não mantinha o dinheiro dos clientes em contas individuais,” refere Peter Hart, um dos administradores da PKF Geoffrey Martin & Co, designada para acompanhar a liquidação, em respostas à VISÃO. Por outro lado, também o Barclays assegurou que não tinha instruções da empresa para fazer essa separação das contas.

Adicionalmente, o FSCS veio clarificar que a empresa podia apenas prestar serviços de pagamentos e remessas de dinheiro e não estava autorizada pela Financial Conduct Authority (FCA) a reter verbas dos clientes, pelo que quaisquer falhas nestes valores não estavam cobertas por aquele esquema de compensação. Uma página do site da empresa que foi possível consultar, datada de janeiro de 2017, faz referência ao registo da companhia junto da FCA como “instituição de serviços de pagamento” e ao registo junto da HM Revenues and Customs, através do qual se via obrigada a comprovar a identidade dos intervenientes nas transações bem como a origem e destino dos fundos.

Depósitos insuficientes para compensar clientes

Uma carta da administração de liquidação aos clientes, dada a conhecer pelo Algarve Daily News no final de agosto, refere que há mais 150 alegados lesados do que os clientes que estão nos registos da Premier FX e que os valores encontrados nas contas são insuficientes para compensar todos os clientes, sendo incerta a recuperação do dinheiro. No total, a empresa tinha 66 contas em várias denominações junto do banco britânico, cada uma com 50 a 100 transações por dia, o que deverá arrastar a análise dos fluxos financeiros. A administração garante ainda que nenhum pagamento parece ter sido feito nas contas da empresa entre 27 de julho (data da suspensão das operações) e 8 de agosto, quando o Barclays recebeu ordem formal de congelamento das contas.

Do lado dos dois administradores nomeados depois da morte de Peter Rexstrew, os seus filhos, só se conhece uma reação – uma carta enviada por um escritório de advogados de Derby, Reino Unido, ao jornal Algarve Resident. Nela, o escritório refere que Katy e Charles foram indicados como administradores “a conselho dos contabilistas da empresa e na crença de que esta estava a operar normalmente” e que só mais tarde, quando contactaram o Barclays, “não conseguiram fazer a reconciliação das contas da empresa,” o que conduziu à suspensão das operações.

A mesma carta dá ainda conta de que os seus clientes foram “ameaçados com violência física”, “alimentada, em grande parte, por artigos de imprensa enganosos,” e que quaisquer novas tentativas de contacto com Katy e Charles ou membros das suas famílias por parte de credores ou clientes da empresa será interpretada como “assédio” e reportada às autoridades.

Doze anos de atividade

A Premier FX, criada por Rexstrew em 2006 no Reino Unido, oferecia serviços de transferência de dinheiro a expatriados britânicos em Portugal e em Espanha (Palma de Maiorca), anunciando taxas de câmbio competitivas face às da banca e que permitia poupar “tempo, dinheiro e stress.” Além de se prestar como intermediário para o pagamento de contas em libras e para a conversão de pensões de reforma para euros, a empresa propunha ainda aos clientes poupar dinheiro em taxas de câmbio na transferência de verbas para quem estivesse a pensar em emigrar ou comprar casa no estrangeiro.

Este último foi o caso de David Pratley, o chefe de cozinha de Oxfordshire que, no ano passado, se mudou para o Algarve com a mulher, uma cidadã portuguesa. Pratley alega ter transferido para a Premier FX todas as poupanças e o produto da venda de uma casa no Reino Unido, além da sua pensão mensal, de 900 libras. Quando a empresa fechou, ficou com mais de 56 mil libras retidas na Premier FX. Diz ter sido aconselhado a manter ali o dinheiro pois o câmbio estava muito baixo e que sempre que precisava de verbas pedia à gestora de conta, Cathryn Evans, que lhas transferia. Estava a duas semanas de concluir a construção da sua nova casa em São Bartolomeu de Messines (concelho de Silves) e de passar todo o dinheiro que ainda estava na conta da Premier FX para o seu banco em Portugal.

Peter Rexstrew era também, desde dezembro de 2016, CEO da britânica Global Currency Service, empresa que foi comprada em junho do ano passado pela Premier FX e que deixou de funcionar em simultâneo com a casa-mãe. Tal como no caso da Premier FX, uma mensagem no site desta empresa refere que se decidiu suspender as negociações devido à morte do dono e que entrará em contacto com os interessados “quando os assuntos se clarificarem”.