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Aumentam as críticas à Zara por salários em atraso na Turquia

Economia

Arnd Wiegmann

No mês passado, os clientes de uma loja em Istambul encontraram etiquetas na roupa com mensagens como "Eu fiz esta peça que está prestes a comprar, mas não me pagaram por isso". A história da fábrica que fechou de um dia para o outro, e cujo dono desapareceu, está a causar danos na imagem da marca espanhola

Cátia Leitão

Em julho de 2016, vários trabalhadores de uma fábrica de roupa na Turquia souberam da pior maneira que o patrão tinha desaparecido e deixara as instalações vazias: só descobriram ao chegarem ao local para aquilo que, pensavam eles, seria mais um dia normal de trabalho. Sem qualquer aviso prévio, o que perceberam nesse momento foi que tinham acabado de ficar sem emprego. Como iriam receber os três meses de salários em atraso era outro problema por solucionar.

A história só veio a público mais de um ano depois, em novembro passado, na sequência de uma ação de protesto radical dos trabalhadores, que continuam sem receber os salários em falta, numa loja da Zara em Istambul. Desde que o caso chegou aos jornais, sabe-se agora, as críticas à marca de roupa espanhola têm vindo a escalar nas redes sociais, indica um estudo da agência Digimind divulgado esta semana.

Hikmet Cingöz, um dos trabalhadores da fábrica turca, descreveu à Euronews como tudo aconteceu. O homem de 47 anos conta que, ao chegar local de trabalho, encontrou "as portas abertas e tudo o que havia lá dentro tinha desaparecido". Do dono ninguém soube mais nada. Do dinheiro de três meses de salários em atraso, idem. "Quando perguntávamos pelos nossos pagamentos eles diziam que a fábrica estava a passar um mau bocado, mas que nós devíamos ser mais pacientes e que ia ficar tudo bem dentro de pouco tempo". O facto de a Bravo Tekstil, como se chamava a fábrica, produzir roupa para a Zara e também para a Mango, levou os trabalhadores a pensaram que tudo se poderia resolver.

Não foi bem assim. E, depois de ano e meio de espera, Hikmet e os colegas decidiram agir. Entraram numa loja da Zara em Instambul e, em várias peças de roupa, colaram etiquetas com mensagens que diziam "Eu fiz esta peça que está prestes a comprar, mas não me pagarem por isso". Também constava o link de uma petição online para os ajudar, que já conta com 300 mil assinaturas.

Hikmet trabalhou na fábrica durante mais de quatro anos e ganhava 348 euros por mês. "Eu trabalhei todos os dias! E ainda tinha de fazer horas extra para conseguir sustentar a minha família porque o salário era muito baixo", sublinha à Euronews este pai de dois filhos. Depois de quatro meses no desemprego, conseguiu encontrar um novo trabalho para poder pagar a renda de casa e a educação da filha.

Um representante do Inditex, grupo que detém a Zara, disse à estação televisiva europeia que a marca "pagou todas as obrigações contratuais à fábrica Bravo Tekstil" e responsabiliza do dono pelos salários em atraso. Acrescenta, no entanto, que está decidida a "encontrar uma rápida solução para todos os trabalhadores", o que até ao momento não aconteceu. Os cerca de 150 trabalhadores reclamam à Zara um total 2,7 milhões de liras, a moeda turca (cerca de 600 mil euros). Este valor representa 0.01% das vendas que a Inditex fez no primeiro trimestre de 2017.

Com as notícias vindas a público e o arrastar da situação, a imagem que os consumidores tinham da Zara está a ser afetada. A agência Digimind, que analisa dados das redes sociais, registou as reações dos internautas à marca entre outubro e novembro deste ano. No Twitter, 21% dos comentários feitos sobre a marca eram negativos e 79% positivos ou neutros, antes da história ter vindo a lume. No entanto, este cenário começou a mudar em novembro, já com as notícias sobre a fábrica na imprensa. Desde então, os comentários negativos dispararam para os 35% "semana atrás de semana", segundo dados da Digimind divulgados pela revista Fast Magazine.