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“O meu pai foi meu professor e temos a mesma estrutura de pensamento”

Economia

Luí­lia Monteiro

Na semana em que a Sonae lançou uma OPA hostil sobre a Portugal Telecom, Paulo Azevedo, filho e, mais tarde, sucessor de Belmiro de Azevedo, dava uma entrevista de vida à VISÃO onde, pela primeira vez, falava da relação com o pai. Eis alguns extratos dessa entrevista, publicada na edição de 9 de fevereiro de 2006, onde Paulo confessava como aprendera a raciocinar como o progenitor.

VISÃO: Como é ser filho do homem mais rico de Portugal?

PAULO AZEVEDO: Não tem impacto nenhum porque ele não vive como o homem mais rico de Portugal. Agora, teve grande importância ser filho do maior empresário de Portugal. Tenho muitas dúvidas de que tivesse acabado gestor se não fosse filho dele, porque via a importância e o impacto das coisas que ele fazia.

Que valor dá ao dinheiro?

Sempre fui muito direitinho nesse aspecto. Gostava de ter muito, porque estou sempre a pensar em projectos para os quais não tenho dinheiro. Onde mais gasto dinheiro é a viajar. Com dinheiro consegue-se fazer muito mais em pouco tempo. Mas tenho algum pudor em gastar muito dinheiro. Ou em ostentá-lo. Faz parte da minha educação. Tenho muito respeito pelo dinheiro. O meu pai sempre defendeu a frugalidade como um valor. Não sinto as coisas da mesma forma que ele, porque não tive o percurso difícil dele. Mas também não tenho aquela ideia puritana de que gastar dinheiro é quase um pecado. O dinheiro na economia circula e, desde que seja gasto em coisas que têm valor, não é desperdiçado.

(…)

Está preparado para ser o sucessor de Belmiro de Azevedo no grupo Sonae?

Uuuhhhmmm. Não sei se sou a pessoa que está mais bem preparada.


Dentro do grupo ou da família?

Dentro do grupo. e da família. A visão da família é que deverão estar à frente da Sonae as pessoas mais competentes, sendo da família ou não. Não somos uma empresa familiar e a sua extrema profissionalização é uma grande luta do meu pai.

(…)

Foi o seu pai que lhe transmitiu o gosto pela Química [Como o pai, Paulo é formado em engenharia química]?

O meu pai é uma pessoa que guarda muito das suas origens. Quando discutimos química, ele sabe muito mais do que eu. Tem gosto pela técnica. Eu era mais pela ciência. Hesitei muito, tive dúvidas sobre o que queria. Acabei por decidir mais pelo sítio do que pelo curso. Gostei de Lausanne [Suíça], parecia-me uma boa universidade, achei que se calhar nem iria acabar ali, havia a possibilidade de trocar para Zurique. Não, não soube sempre o que iria fazer. Foi aos 28 ou 29 anos que fiz uma opção clara por uma carreira de gestão na Sonae.

(…)

Diz o mesmo que o seu pai, só que de uma forma muito mais comedida. É isso que o distingue?

O engenheiro Belmiro queixa--se de que o filho Paulo o mandou suavizar o discurso. [Risos]. Bem, em termos de raciocínio estratégico somos muito próximos, muito parecidos. Ele foi meu professor e temos a mesma estrutura de pensamento. É muito fácil discutir com ele e chegarmos a consenso. Ele tem uma coisa que conquistou, da qual nos orgulhamos muito, e que tem muito valor para a Sonae: pode realmente dizer o que quer, o que pensa, pela independência que a empresa tem e porque as pessoas estão habituadas a que ele o diga com grande frontalidade. Agora, é verdade que eu, às vezes, lhe digo que a mensagem podia ser mais eficaz dita de maneira ligeiramente diferente.


E ele dá-lhe ouvidos?

Às vezes [risos]. Depois diz que os discursos dele estão a ficar água destilada.
Dizem que alia muito bem a racionalidade à intuição, para avaliar o perfil psicológico daqueles com quem tem de negociar.

(…)


Foi sem querer que se tornou no protótipo do homem Sonae?

Não sou muito o protótipo do homem Sonae. Mas ganhei gosto por algumas coisas importantes para a Sonae. Quis fazer coisas diferentes no mundo real. Tinha mais uma vontade pessoal de fazer coisas que me davam prazer no plano intelectual. Era muito, muito introvertido. Gostava de estar com pessoas que também eram introvertidas, só falavam quando houvesse realmente alguma coisa importante a dizer e o resto do tempo pensávamos em coisas que não interessavam a ninguém nos próximos dez a vinte anos. mas que eram muito giras. Hoje sou muito diferente. Fico nervoso se durante duas semanas não me ocorrer nada que tenha um impacto real, que mexa com muitas pessoas, com muitos recursos, que possa ter um efeito positivo. Começo mesmo a ficar nervoso.


Mas isso é o que o seu pai quer do homem Sonae, que esteja sempre a 'pôr pressão sobre os rapazes'.

Não sei o que é o homem Sonae. Acho que o meu pai valoriza muito esta inquietude e ambição. Mas não sei. Já houve várias definições do homem Sonae. Não sou muito a favor de organizações do tipo militar, monoculturais. Gosto de gerir com grande diversidade de back-grounds, de pessoas com opiniões e estilos diferentes. A Sonae tem mudado nesse sentido e até o meu pai é cada vez mais assim.

(Entrevista publicada na VISÃO a 9 de fevereiro de 2006, na semana em que a Sonae lançou uma OPA sobre a Portugal Telecom)