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Belmiro de Azevedo: "Sou um desafiador"

Economia

Lucília Monteiro

Recorde a última entrevista de BElmiro de Azevedo à VISÃO, em janeiro de 2010: Retirou-se de funções executivas da Sonae mas não parou de pensar o País. Assertivo, como sempre, Belmiro de Azevedo conserva a liberdade de dizer o que pensa. Às vezes, com humor

"Aqui tenho tudo debaixo de olho." E é verdade. Aos fins-de-semana, Belmiro de Azevedo, acompanhado de sua mulher, Margarida, agarra o volante do seu BMW e ruma ao Marco de Canaveses. Na Casa de Ambrães, onde cresceu com os pais, pode reunir os três filhos, os sete netos, os antigos colegas do basquetebol e do curso, um grupo de caçadores ou de pescadores. Ou artistas, como Siza Vieira, médicos, como João Lobo Antunes, e outras personalidades, como Teresa Patrício Gouveia ou Álvaro Barreto.

Pode acabar tudo à volta de uma caldeirada, daquelas que se comem com gosto. Por certo, não será «o Engenheiro» a cozinhá-la, porque só sabe «fazer café e grelhar um bom bife». Mas será certamente sobre ele que as atenções se concentrarão.

Despido o fato e a gravata, o fundador da Sonae foi seguido pelos seus cães quando guiou a VISÃO num tour pelo seu pequeno paraíso. E pelo seu centro de processamento de kiwis, bem ali ao lado, onde mata saudades da indústria e veste a pele de produtor. Foi a segunda parte de uma entrevista que começou dias antes, no seu escritório da Maia.

Em breve, um dos empresários mais ouvidos do País fará 72 anos, mas continua a levar trabalho para casa. «Gosto muito de estar aqui. Está-se muito bem.» No escritório improvisado, pode sentar-se na poltrona azul, bem perto da lareira a ler as memórias de Adriano Moreira. «Um livro muito interessante.» Amado por uns, temido por outros, Belmiro de Azevedo também connosco partilhou memórias. Com o seu olhar crítico, apontou caminhos. Quer políticos mais «competentes», um povo «mais exigente» e um país «mais criativo»

Não lhe está a custar transferir o poder?

Nãaaao. Tenho de deixar de «estar» antes de deixar de «ser». Mas é muito importante que a pessoa se mantenha activa, até cair e morrer, nesse dia. Uma empresa bem gerida e com um plano de sucessão não tem de morrer, pode ser eterna. O meu maior prazer é partilhar conhecimento e poder.

Mas ainda gosta de decidir.

Deixo decidir e desafio depois. Às vezes, arrisco uma opinião, já sem cuidar muito do rigor. Sou um desafiador. Já tenho esse direito. À medida que fico menos competente nas áreas técnicas, melhoro como chefe de orquestra. Para estimular o aparecimento de futuros líderes.

Já contestou alguma decisão do seu filho?

Claro. Ele já contestava decisões minhas, quando trabalhava para mim.

Quem sai vitorioso?

É um processo dialéctico, até se chegar ao consenso.

Depois de falhada a OPA sobre a PT, vai ou não haver fusão da Sonaecom com a Zon?

Ainda não posso falar sobre isso.

A Sonae quer levar negócios para Angola?

Estamos a negociar e há empatia. Só vamos para onde formos bem-vindos. Houve uns desaguisados por causa do discurso desapropriado do Bob Geldof, em Portugal. O Governo angolano sentiuse insultado. O Jornal de Angola reagiu e fui citado. Apanhei uma cacetada e nem estava a jogar! Sou cidadão português e, por cá, tenho direito a emitir em público a minha opinião, embora haja ministros que me mandam calar. Mas em Angola sou estrangeiro.

Angola tem um regime democrático?

Não há democracias perfeitas. Não podemos ser superpuristas, nem fazer tudo de uma vez. A China é uma boa comparação.

Diz que não pode haver democracia e controla tudo, até o Google enquanto não for economicamente rica.

Mas Angola não é um país rico?

É. Mas cada país escolhe o ritmo da passagem da democracia económica à democracia política. É preciso, primeiro, criar condições económicas e matar a fome ao povo. A China foi pragmática. Ultrapassou a Alemanha e tornou-se o maior exportador do mundo. Mas a maioria do povo ainda vive na Idade da Pedra, com problemas de circulação, alimentação e liberdade de pensamento. O poder político define o ritmo. Quem não se quer sujeitar não vai para lá.

Ir para Angola é compatível com o quadro ético que sempre defendeu?

A Sonae é incorruptível. Isso é claro para quem queira negociar connosco. Como não corrompemos, esperamos que não tentem corromper-nos. Veremos com cuidado de quem somos sócios. Importante é o porto e o aeroporto funcionarem, os passaportes serem emitidos, os vistos concedidos. E que haja liberdade de estabelecimento e de repatriamento de dividendo.
Esse quadro tem de ser fixado rapidamente, no próprio interesse do Estado angolano. Sem isso, não há investimento.

Temos a tecnologia, a capacidade e o knowhow para fazer materiais de construção, mobiliário, uma enorme cadeia de distribuição.

É quase carregar no botão e tirar fotocópias. Angola controla, porque não quer uma nova onda de colonizadores portugueses.

E Angola não está a «colonizar» Portugal?

É um exagero. São coisas pequenas, sem controlo da gestão. Nada que ultrapasse os 10%, como agora na Zon.

Mas o suficiente para influenciar decisões.

Depende de quem está do outro lado.

Os sócios angolanos andam na órbita de José Eduardo dos Santos...

Há algum apoio para criar novos grupos e, quando assim é, o poder fica um bocadinho diluído. Esses grupos tornam-se mais independentes e o Governo perde poder. Mas uma economia não funciona se o poder cair na rua. Conheço Angola toda.

Até ia morrendo lá, num despiste. Passava sempre férias no país e em Moçambique.
Ia vender laminados, com uma saquinha na mão.

Tem alguma relação nostálgica com África?

Gosto muito de Angola. Conheci bem a região subequatorial. Os nossos laminados usavam-se muito por lá. Estava em Luanda, a 3 de Agosto de 1968, dia de anos da minha mulher, quando o nosso querido velhinho caiu da cadeira. Era considerado rebelde, um bocado esquerdista, mas nunca fui um activista.

Já disse que o facto de não se meter na política foi a razão do seu sucesso, no início da Sonae...

Pois, mas era irreverente como o diabo! Conhecia bem o homem do Humberto Delgado aqui na cidade, o arquitecto e vice-presidente da Câmara do Porto, Artur Andrade [anos cinquenta]. E um engenheiro revolucionário da Efacec passava a vida a incentivar-me. Na faculdade havia um grupo de descontentes. Mas sem assumir grandes riscos. Quando muito, estragavase um fatinho com um jacto de água azul, perdia-se a roupinha toda. Não tinha educação política e muito menos de militante.

Mas teve um tio, com quem viveu no Porto, que pertenceu à Carbonária e até foi preso pela PIDE.

Esse meu tio e padrinho não brincava em serviço, deitava pontes abaixo.

E não o influenciou?

Não. Era muito meu amigo. Vivemos juntos, durante muito tempo. Era um filósofo, ateu. Ou agnóstico. Para ele, Jesus Cristo não era um líder religioso, mas um grande filósofo. Lia muito sobre aquilo, não tinha educação superior e passava a vida a explicar-me isso. Morreu com um enfarte violentíssimo, à uma da manhã, estávamos os dois em casa. Foi a primeira pessoa que vi morrer.

Ficou contente quando Salazar morreu?

Ninguém fica feliz com uma morte! Salazar terá feito coisas relativamente importantes, até à Constituição corporativa.

Depois tornou-se muito complicado

Nessa altura, já tinha consciência política?

Tinha. Mas não era rico e preocupava-me em estudar. Queria libertar-me. Saber mais do que os outros, ter experiência, ser mais inovador. Não tinha tempo para andar para aí aos tiros aos políticos, muito menos ao Salazar, que não me incomodava. Olhe, fui co-passageiro de Salazar numa viagem Lisboa-Porto. Ele vinha às comemorações do 28 de Maio. E, à saída de Lisboa, o avião nunca mais parava de dar curvazinhas, à chegada ao Porto a mesma coisa! Os passageiros tiveram um tour forçado, porque o Salazar nunca tinha andado, e nunca mais andou, de avião.

E falou com ele?

Não, nem sabia. Chamavam-lhe Esteves, já tinha ouvido dizer? Porque ele nunca ia estar. Só se sabia que tinha estado depois de ter saído. Portanto era um esteve, «esteve Salazar».

A Moodys diz que Portugal está em «morte lenta». Concorda?

Sim. Um país sobrevive se investir para ganhar competitividade, melhorando a produtividade.

Quando deixa de investir, o futuro não é brilhante. Não há milagres.

Não sendo competitivos, somos dependentes.

Ficamos uma aldeia.

Qual é a saída?

Já disse ao Governo que está nos pequenos e médios projectos, de 50 a 200 milhões de euros. Acabe-se com o devaneio das grandes obras. Não são prioridade.

Corremos o risco de ser uma Grécia?

A Grécia já... [pausa] Não posso dizer estas coisas, a Grécia é um Estado...

Que mentiu nas contas.

Não é de agora. É a cultura daquele país.

E nós não mentimos nas contas?

Não. Fazemos um bocadinho de cosmética.

Em Portugal, faz-se contabilidade criativa. Agora é mais difícil. Não percebo é por que razão o País recebe recados dos comissários e a Grécia não. Até ao último quadro comunitário, não se sabia onde estava o dinheiro que foi enviado para lá. Não havia uma auto-estrada.

Para onde foi o dinheiro? Em Portugal, de 1986 a 1996, via-se onde estava. Mas a Grécia teve coragem: agora, fez um corte radical, baixaram os salários em 20 por cento.

Apoia cortes desses em Portugal?

Já não há muito para cortar. Fomos dos melhores alunos, mas criou-se a ideia de que o Estado tem sempre dinheiro. Não tem. Os estados também abrem falência.

A Islândia é um exemplo. Continuamos a fazer as mesmas asneiras. Se não fosse o euro, a situação seria muito grave.

Corremos o risco de sair do euro?

Não. Nessa altura, fazia-se a licitação e pronto, não sobrava mais nada. Mas o preço do dinheiro subirá... muito. As agências vão piorar o rating. O Estado vai pagar uma conta de juros de alto lá com eles!

Em 2007, defendeu uma descida dos impostos. Mantém?

A maneira mais rápida de relançar o investimento e ganhar competitividade é [baixar] o IRC. E o IVA. A outra é reduzir a despesa no óbvio. Mas o Estado gasta muito! Faz-se quase nada na floresta, no turismo, sectores com vantagens comparativas e nos quais não se gastam divisas importadas.

Não tenho de importar sol e a floresta está bem coberta. Existem um potencial hídrico e barragens. Temos o mar, mas acabámos com a nossa frota de pesca.

Desinvestimos em sectores que agora nos poderiam ser úteis?

Falta criatividade. No têxtil, nem sequer precisamos de grandes designers. As grandes casas de moda francesas, por exemplo, têm designers espanhóis, alemães. Mas é preciso distribuição. E faltam esses skills.

O nosso têxtil, que agora praticamente acabou, era o das grandes produções...

E da mão-de-obra barata...

É fácil derrotar um produto desses. Hoje, ganha-se dinheiro comprando os tecidos, como algodão e produtos sintéticos, onde há matéria-prima: China, Egipto. Uma malinha Louis Vuitton que custa mil euros, deve lá ter 50, 100 euros de matéria-prima.

O resto é dinheirinho. E fica ali na terra.

Paga a criatividade. Cá, a metalomecânica, os moldes, ainda se safam. O têxtil e o calçado já só vendem minutos, baratíssimos.

E não conseguem concorrer com os preços ridículos do chinês, com enorme protecção do Estado.

Defende um pacto de regime?

Bloco central, não. Senão vira ditadura a dois, compadrio. Neste momento, e quase direi por felicidade, não há um Governo de maioria. É uma oportunidade única. A Constituição tem de ser revista a fim de se corrigir e clarificar aspectos negativos.

Para governar, o Executivo deve concertar e o OE criou essas condições. Sócrates teve de perder um bocado da arrogância e ceder. O diálogo acabou por ser imposto e ele até já mudou de estilo.

É real essa perda de arrogância?

Não, é a necessidade. Mas tomou consciência de que, embora gostasse de ser mandão, há coisas que não pode fazer sozinho.

Vai ter de dar o braço a torcer. E já reparou que a governação mundial tem precedentes sobre a governação nacional, pois existem instituições reguladoras do sistema financeiro. Vem aí um período eleitoral que talvez permita criar uma nova geração de políticos. Os actuais são, na maioria, jotinhas.

Funcionários, inexperientes. Perdem, de longe, em relação aos do pós-25 Abril gente, mesmo à esquerda, de porte ético excepcional.

Manuela Ferreira Leite tem experiência...

Teve muitos anos de trabalho, mas no Estado.

Nunca dormiu mal por ter a responsabilidade de saber como pagar salários.

Com o devido respeito que tenho pela senhora...

Não é uma boa líder da oposição?

Há países, como a França, em que os líderes saem de escolas de formação de governantes, de alta categoria. No Reino Unido estão períodos longos na economia privada.

Experimentam a dureza de ganhar dinheiro. E são cultos, muito cultos. Como foi possível formar o actual Governo com pessoas que, com o devido respeito, estavam fora do poder de decisão? Há três ou quatro que ninguém sabia quem eram e foram para ministros! Tenho dificuldade em saber os nomes de metade dos que estão lá.

Este Governo é fraco?

[Encolher de ombros] Tem uma pessoa que manda.

E não tem ministros?

Ele próprio [Sócrates] assumiu que tinha ministros que faziam trabalho técnico de preparação! É o maior insulto à figura do ministro.

Nem sequer tem um ministro das Finanças?

Esse é visto como mais duro e dizem que é o único que o primeiro-ministro respeita um pouco mais. Não queria falar muito, senão massacram-me....

Estão a conseguir calá-lo?

[Risos] A vantagem é o primeiro-ministro não ter competência para gerir as contas públicas. Teixeira dos Santos é persistente.

Mas não é milagreiro, não inventa dinheiro.

Quem, do lado da despesa, dá ordem para gastar? Muitas vezes, as promessas são feitas sem o Teixeira dos Santos assinar por baixo.

Acredita em eleições antecipadas?

Depende do grau de cooperação com a oposição. O maior partido da oposição quer sempre ir para o Governo. Tolera hoje, não tolera amanhã, e, mais dia, menos dia... É instável e mau para o País.

A abstenção na votação do OE não resolve.

Para o ano, teremos a mesma coisa.

Estamos num beco sem saída?

Não necessariamente. O grande problema é de educação. Somos marcados por algum seguidismo. Criou-se um sistema em que o povo vota pelas festas, frigoríficos e passeios.

É muito mau. Há que impedir que se arrebanhem votos assim. O povo é ignorante, mas não é estúpido. Fazer inaugurações, ir a uma fábrica em que não se pagam os salários, não despedir em período de eleições, é uma maneira mais ou menos descarada de comprar votos. Enquanto o povo não for mais crítico, existe o risco do caciquismo, não é? O povo elege maus ministros, maus parlamentares, caçadores de votos, não é exigente. Temos um sistema populista como o diabo, que paga mal aos funcionários públicos, incluindo governantes.

Um ministro ganha muitíssimo menos do que um quadro médio de uma empresa média-grande.

Defende o aumento dos salários da função pública?

Defendo aumentos para os competentes.

Sejam trabalhadores, ministros ou guarda-redes de futebol. Temos gente a mais e da pior qualidade. Provavelmente dois terços dos funcionários públicos, que é o meio da tabela da pirâmide de vencimentos, estão bem instalados, a ganhar bem, o dinheiro vai-lhes ter a casa. E há jovens sem trabalho! Assim, nunca mais renovamos a máquina do Estado. Os velhos, apesar de mais experientes, não são talentosos, estão rotinados. E os melhores saem sempre. É preciso renovar o pessoal e melhorar a produtividade.

Não defende, então, uma baixa dos salários?

Não. Os salários são baixos. O pessoal do meio é que ganha de mais. Têm de ser aumentados o último piso e o rés-do-chão. Não se renova a qualidade do serviço público sem jovens, nem se consegue decidir sem gestores modernos.

Na Sonae, os jovens que ganham menos podem esperar ganhar mais?

Claro. Têm é de mudar de funções. E agarrar o lugar com irrequietude permanente, esgravatar, ter mais formação e vontade de aprender.

O Governo controla a Comunicação Social?

Você é que deve saber [risos].

Estamos mais moles?

Podiam ser mais agressivos. Fale-me de dez questões importantes que tenha visto nos jornais, no último mês. Que vão influenciar a sua vida. Consegue? Eu não, são tantas notícias! Tudo aquilo é fogo-fátuo.

Dura um dia. É informação a mais e repetida, não é estruturante da opinião pública.

A informação tem de obrigar à reflexão. Os jornais não estão a melhorar.

Na «guerra» entre Cavaco e Sócrates, o pano de fundo foi o seu jornal. O então director do Público tinha uma agenda política escondida?

[Silêncio] Não sei... Para nós, ter um jornal é serviço cívico. Não para influenciar, que fique claro. Mas está a ficar caro, muito caro. E há jornalistas que abusam. Devia haver directores mais fortes para que, de facto, se passasse uma imagem de independência.

A saída de José Manuel Fernandes foi lida como cedência da Sonae ao Governo...

Errado. Não houve cedência, mas sim uma guerra entre jornalistas, com culpas para as partes.

Um director pode sentir-se cansado.

Terá sido uma das razões, pois José Manuel Fernandes deixou de lutar para liderar. Ele era acusado e bem acusado de não criar climas de consenso no jornal.

Deixou-se desautorizar.

As razões de saída foram então internas e não propriamente políticas?

Cansaço, se quiser. Provavelmente, concluiu, com o andar do tempo e ele reconhece que podia ter feito melhor. Perdeu poder. E quando um director, seja de que empresa for, deixa de mandar com alguma firmeza, cada dia que passa é pior. Ele concluiu que se tinha esgotado o seu tempo.

Continua a colaborar, agora na qualidade de comentador. Escreve mais ou menos da mesma maneira, mas já não tem responsabilidade na linha editorial.

Quando o caso das escutas estourou, disse que se alguém quisesse controlar o Público que o... pagasse...

Estava a pôr o Público à venda?

Não, não estava. Sabem muito bem que todos os ministros, e nomeadamente o primeiro-ministro, telefonam ou mandam telefonar com muita frequência. Já estive em estúdio, por exemplo, e ouvi recados vindos [pausa]...

Vindos de quem?

Vindos do poder, pronto. Não lhe posso dizer mais do que isto.

Deste Governo?

E também de anteriores

Telefonam para si?

Não só para mim. Pessoas a queixarem-se disto, daquilo e daqueloutro. E a aconselhar: «Não diga isso»... Sabe isso muito bem. Mas nem procuro saber se o outro lado está em voz viva ou em voz morta. É normal.

Vai continuar a financiar o Público?

Não digo isso. Há um programa para equilibrar aquilo, tentando dar mais força ao digital, em três ou quatro anos. É um sorvedouro de dinheiro e há-de ter um fim. Se me pergunta: é para o ano? Não é. Daqui por dois anos? Provavelmente, também não. Mas tem limites. De cada vez que o Público não ganha dinheiro, ponho-o eu.

E isto cansa.

Pode vender...

Ninguém dá dinheiro que se veja pelos jornais, a não ser por motivações políticas.

Houve uma transacção por um balúrdio de massa de um jornal que dá sempre prejuízo! Quem paga por algo que não gera dinheiro? Qual a motivação?

Vai comprar os 25% da Impresa que a Ongoing tem à venda?

Não. O Balsemão tornou claro que quer a maioria. Quer mandar e não quer que os outros façam outra coisa que não seja pôr lá dinheiro. Quem é que lá mete uma data de massa para não mandar nada?

O investimento de Balsemão não é serviço público?

O Balsemão ganhou bastante dinheiro e põe a paixão pelo jornalismo à frente de tudo. Agora vai passar um mau bocado.

Como comenta a dispensa de Marcelo Rebelo de Sousa da RTP?

Já sabem o que penso, não vou massacrá-lo. O Marcelo é pluri-pluri. Tem dez respostas, todas boas, para a mesma pergunta.

Não sofre de pensamento único.

Como lê a subida eleitoral do BE?

Usa a comunicação retrógrada que jamais vi em Portugal. Um líder com um discurso inteligente ele diz que é inteligente, até escreve livros usa a comunicação mais primária e mente com todos os dentes.

Está contente por Manuel Alegre se candidatar a Belém?

O Alegre andou comigo no Liceu Alexandre Herculano [no Porto], dois ou três anos à minha frente. Devia ter juízo.

Tal como o senhor, ele também diz que ninguém o cala...

Sim [risos]. Mas isso não lhe dá direito a ser Presidente da República. No final do mandato, já terá perto de 80 anos, não é muito sensato. Diz que é o segundo Presidente poeta, se ganhar. Também não é credencial. É um lugar chato, não sei porque o querem. O PR tem um espaço de manobra limitado, tem de estar muito atento.

Não pode fazer asneiras, nem das banais.

A guerra que estão a fazer agora a este Presidente...

É um tipo duro, mas deve estar a sofrer como o diabo. Não foi talhado para aquilo, para ser um corta-fitas. É um homem do Governo, activo.

Foi apoiante de Cavaco, em eleições anteriores. Depois, zangou-se com ele. Já fez as pazes?

Espere lá. Tivemos uma relação muito boa de 1986 até 1992. Sabe porque é que me zanguei fortemente com ele?

Por causa da privatização do BPA?

Também. Mas isso são erros possíveis.

O Cavaco é um ditador. Mandou quatro amigos meus, dos melhores ministros, para a rua, assim de mão directa.

Está a falar de Álvaro Barreto...

Barreto, Teresa Patrício Gouveia, Cadilhe e Eurico de Melo, que foi o que me chateou mais. Era vice-primeiro-ministro, e foi quem pôs o Cavaco no poder!

Mas Cavaco não tinha de manter os ministros de quem o senhor é amigo.

Não é por isso. É pela relação de cortesia com quem o pôs no poder.

O senhor pôs Cavaco no poder?

Não. A única pessoa que, eventualmente, pus no poder foi o Mário Soares. Foi a única vez que declarei, por antecipação, em quem votava. Nunca mais fiz isso.

Quiseram que fizesse isso com Cavaco.

Disse que não havia razões para voltar a pré-indicar um candidato. Respondi: para fazer nova excepção tenho de saber qual é o seu manifesto. Ele disse que me mandava o manifesto antes de ser público.

Como é muito fechado e desconfiado, também desconfiou de mim. Não me mandou o manifesto. Joguei à defesa.

Também previ que ele ia coabitar bem com o primeiro-ministro. E aconteceu.

Durante os primeiros dois anos, Sócrates geriu muito bem o poder, com autoritarismo moderado. Não fez muitas asneiras, era um decisor e fez coisas mais ou menos acertadas. O devaneio dele teve muito a ver com o encantamento que sente pelas grandes obras, para ter um mausoléu num sítio qualquer. Essa ideia de que Portugal tem de ter um TGV, finaflor da malandrice. Uma vez, disse-lhe: o TGV está desenhado em defesa dos interesses espanhóis. Se verificar o traçado, todos os TGV saem e chegam a Madrid.

Concorda com a posição da líder do PSD?

Não. Ela já tinha tomado posições diferentes.

Diga lá quais são as cidades por onde passa o TGV...

Não tenho aqui o traçado...

Pois. Toda a gente fica atrapalhada [risos]. Passa por um bando de cabras...
[risos]. Não tem clientes! A única cidade é Badajoz. Mas Badajoz é uma aldeia, em termos ibéricos. Eu oferecia [a Espanha] os clientes que estão em Lisboa, mais os direitos de passagem e eles faziam uma linha do metro espanhol. Mais nada. Se Espanha não tiver Lisboa ligada é que tem um problema grave: não há passageiros.

Também gostava de ter um TGV. Mas não com aquele traçado. Era Lisboa, Abrantes, Castelo Branco, e do outro lado, Cáceres, Toledo, uma data de cidades pelo meio.

Não é um iberista?

Sou iberista, do ponto de vista económico.

O mercado ibérico é parte do mercado europeu. Do ponto de vista político, o sistema espanhol é pior do que o nosso.

É, por definição, um domínio do estilo jacobino, com um poder central, que manda em tudo. Eu, dali, pirava-me. Não é uma democracia moderna.

Quando recebeu o doutoramento honoris causa, disse: «Olhando para trás, verifico que deixei tantas coisas por fazer.» O quê?

Devia ter dedicado mais tempo à cultura.

Estou a tentar recuperar, a ler mais sobre história das civilizações, das religiões, da arte. Queria ter dedicado mais tempo ao ensino, abandonei cedo a carreira de professor. Gostava de saber apreciar mais a música...

Diz que é «romântico» e que «até chora». Com quê?

Com a família mais próxima. Chorei desalmadamente, incontrolavelmente, na morte do meu pai, mas, sobretudo, na da minha mãe. Tenho fama de duro e de nunca chorar, mas tenho debilidades e nenhum botão para parar.

Ouvi dizer que a sua mulher é a única capaz de lhe dizer não sem que fique zangado.

Ela?! É pior do que isso. Nem me deixa assinar os cheques da farmácia.

(Entrevista publicada na VISÃO em 28 de janeiro de 2010)