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Turbulência na Altice ... e o regresso da dupla Patrick Drahi - Armando Pereira

Economia

Patrick Drahi e Armando Pereira

Luís Barra

O grupo francês Altice, dona da MEO e candidata à compra da TVI, está em ebulição. A demissão do presidente executivo Michel Combes causou turbulência e obrigou Patrick Drahi, fundador e maior acionista, a assumir o comando e avançar para uma reestruturação. O seu braço de ferro, Armando Pereira, também foi chamado. Sinal de que é preciso pôr ordem na casa

Há turbulência na Altice, o grupo francês que comprou a PT / Meo e que quer comprar a Media Capital /TVI . A demissão do presidente executivo Michel Combes, que ainda esta semana dava a cara pela estratégia do grupo, fez soar os alarmes. As ações desceram em bolsa e o mercado interroga-se sobre o que se estará a passar na empresa de telecomunicações que quer agrupar grupos de media ao negócio – em França já têm o Libération e a revista L’Express, além de canis de rádio e televisão.

Além de executivo do grupo, Michel Combes, 55 anos, era também o presidente da SFR, a operadora francesa da Altice, que tem vindo a perder clientes e receitas. A saída, no final de Setembro, do vice-presidente executivo, Michel Paulin, que alegou “motivos pessoais”, pode ajudar a explicar os acontecimentos de hoje. Paulin sai e entra Armando Pereira, o operacional de Patrick Drahi, fundador e maior acionistas da Altice . E quando Armando Pereira entra é sinal de que há reestruturações e cortes de custos no horizonte. Assim foi mais uma vez, começaram a rolar cabeças sem aviso prévio.

A decisão não terá agradado ao presidente Michel Combes e, desde então, não pararam as especulações que anunciavam estar ele em rota de colisão com o seu novo vice, Armando Pereira, deixando adivinhar a sua saída. Sempre negada, até ser confirmada esta quinta-feira, 9, à noite. E quando alguém entra em choque com Armando Pereira, entra em choque com Patrick Drahi.

Combes abandonou o barco e foi imediatamente substituído por outro dos rostos da Altice. Dexter Goei é agora o novo presidente executivo do grupo, que assumirá em acumulação com os cargos de presidente de conselho de administração e presidente executivo da Altice nos Estados Unidos, para onde a operadora tem também expandido atividade.

Michel Combes

Michel Combes

Luís Barra

Perda de receitas

A reestruturação entretanto anunciada em comunicado não se fica por aqui. Armando Pereira regressa à ribalta e vai assumir o cargo de diretor de operações da Altice Telecom, ficando agora responsável por todas as operações de telecomunicações do grupo no mundo. Reza a história da Altice que, quando o implacável Armando Pereira regressa ao terreno, é porque há problemas para resolver.

Também o fundador franco-israelita Patrick Drahi voltará ao ativo e ao leme do grupo, concentrando o comando na sua presidência e obrigando todos os elementos da direção a reportarem diretamente a si. Será ele agora a definir a “orientação estratégica, operacional, comercial e tecnológica” e a assegurar a sua execução, conforme relatado pela imprensa francesa. O objetivo será conseguir rápidas melhorias nas vendas.

“Estas alterações na estrutura representam um regresso à organização central que criou o sucesso do grupo Altice. Vai fornecer uma liderança direta e clara das operações europeias para alcançar todo o seu potencial e continuar a apoiar a Altice nos Estados Unidos", refere o grupo, em comunicado. Caso para perguntar: com tantas operações em simultâneo e em vários países, estará o gigante das telecomunicações a perder o foco?

O mercado bolsista acusou o mal estar e, na ultima semana, as ações registaram uma desvalorização na ordem dos 34% emais de 50% desde junho. São cada vez maiores as duvidas sobre a real capacidade da gestão da Altice poder reduzir ou controlar uma dívida que ronda os 50 mil milhões de euros.

Sobretudo quando os resultados do terceiro trimestre não foram propriamente animadores: receitas de 5,75 mil milhões e prejuízos acima dos 230 milhões, de acordo com analistas citados pela agência Bloomberg. A própria Altice emitiu, há uma semana, um alerta aos investidores, avisando que os resultados do fim do ano deveriam ficar “no limite mínimo” das suas previsões. Em Portugal, a PT/Meo não parece estar a escapar a esta tendência de descida.

Trabalhadores da PT não desistem

Em Portugal, a Altice continua a estar no centro da polémica. A sua intenção de compra da Media Capital / TVI por 440 milhões tem tido a mais firme oposição dos concorrentes Nos e Vodafone, e a própria decisão da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) – que não vetou a operação - corre o risco de vir a ser contestada por Paulo Azevedo, co CEO da Sonae, maior acionista da Nos.

Será agora a Autoridade da Concorrência a tomar a decisão final sobre a compra da TVI, mas, enquanto isso, são os trabalhadores da PT Portugal que continuam a não desistir da sua luta. Sobretudo aquela centena e meia que se viu transferida para outras empresas do grupo, ou aqueles que se sentem chantageados a rescindir depois de terem ficado sem funções atribuídas.

Depois da manifestação de 21 de julho, as estruturas sindicais afetas ao setor denunciam que nada se alterou “no tipo de gestão” da Altice. E nem se cumpriram as promessas feitas por Patrick Drahi e Armando Pereira no passado dia 16 outubro de “melhor e mais diálogo”. Ao contrário, continuam a ser feitas “exigências de acordos de rescisão sem direito a fundo de desemprego, a manter ou a alterar funções a trabalhadores que configuram desqualificações profissionais e a manter centenas de trabalhadores sem funções”.

A alguns, acusam as estruturas sindicais, foi mesmo proposto “que estejam 90 dias sem prestação de assiduidade diária, tentando assim ludibriar a Autoridade para as Condições do Trabalho nas suas ações inspetivas”.

E, na segunda-feira, 13, será entregue na Assembleia da República uma petição que recolheu mais de oito mil assinaturas e que pede a alteração da atual Lei da Transmissão de Empresa ou Estabelecimento, “de forma a evitar a sua utilização fraudulenta”, aproveitando o facto de esta estar a ser discutida. Pretende-se salvaguardar, assim, “o direito de oposição do trabalhador”, garantindo-lhe “o direito de escolha da entidade patronal, não podendo os trabalhadores serem obrigados a trabalhar para outra entidade patronal que não escolheram”, como aqui aconteceu.

Alguns partidos à esquerda pretendem, com algumas alterações, evitar o que se tem passado com a PT.