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Schäuble sai, mas a austeridade fica?

Economia

TOBIAS SCHWARZ / GettyImages

A saída do ministro alemão das Finanças não vai acabar com a disciplina orçamental na Europa. Os liberais do FPD, que cobiçam o lugar, mostram-se igualmente intransigentes em matéria de controlo das contas públicas

Depois de um longo e controverso período de 8 anos à frente das finanças da maior potência europeia, Wolfgang Schäuble, 75 anos, vai trocar o cargo de ministro das Finanças pelo de presidente do Bundestag, a câmara baixa do Parlamento da Alemanha. Ainda não se sabe quem lhe irá suceder no cargo, mas a escolha recairá em alguém com perfil para agradar aos liberais do FPD e aos Verdes alemães, os dois partidos com os quais a CDU de Angela Merkel procura entender-se para formar o futuro governo da Alemanha, após as eleições do passado domingo.

Várias vezes apontado como o ministro das Finanças mais poderoso da Europa, Schäuble foi o rosto da inflexibilidade das políticas alemãs e da austeridade imposta aos países do sul da Europa assim que a crise financeira se fez sentir em toda a sua força. Uma análise do site Politico alerta para o facto de Schäuble ter seguidores no FPD alemão, cujos dirigentes são igualmente adeptos da disciplina orçamental e do controlo das contas públicas, chegando mesmo a encarar com algum ceticismo as políticas mais flexíveis para a zona euro defendidas pelo novo Presidente francês, Emmanuel Macron. E, durante a campanha eleitoral na Alemanha, os líderes do FPD não fizeram segredo da sua vontade em ficar com o poderoso Ministério das Finanças num futuro Governo de coligação.

Durante os dois mandatos como ministro das Finanças, o ar severo de Wolfgang Schäuble e as reprimendas dirigidas aos países sob ajustamento, como Portugal e a Grécia, criaram o terreno ideal para fazendo depender cada cêntimo da ajuda europeia da aceitação de um exigente programa de cortes e de redução de despesa. Mas isso nem sempre foi suficiente. Em 2105, no auge da crise grega, Schäuble defendeu abertamente a saída da Grécia da zona euro, acabando por ser travado pela chanceler alemã, Angela Merkel, e pelo presidente francês François Hollande. Mas Schäuble mostrou-se sempre convicto das suas razões.

Na Alemanha, é apontado como um dos últimos representantes no ativo de uma geração de conservadores alemães que rodeou Helmut Kohl, ex-lider da CDU e ex-chanceler da Alemanha. Foi chefe de gabinete de Khol e foi um dos obreiros da reunificação alemã, após a queda do muro de Berlim em 1989. Sobreviveu a uma tentativa de assassinato que o deixou paralisado e dependente de uma cadeira de rodas. As suas ambições políticas de presidir ao governo alemão caíram por terra quando se tornou público o seu envolvimento num escândalo financeiro que atingiu o próprio Kohl e abriu o caminho à ascensão de Angela Merkel, que está agora prestes a iniciar o seu quarto mandato à frente do governo da Alemanha. Conformado, tornou-se uma espécie de cão de fila da chanceler e da política de equilíbrio das finanças alemã, responsável pelo aumento das exportações e do extraordinário excedente comercial alemão. Quando fez 70 anos, fez a seguinte declaração: “Como não tenho que provar nada, tenho mais independência”.

Ofensiva contra Portugal

Obcecado com a saúde das finanças públicas portuguesas, Schäuble não parou de fazer avisos, dizendo alto o que pensava sobre Portugal. Só nos últimos meses deu sinais de mudar o discurso, ao apelidar Mário Centeno de “o Ronaldo do Ecofin” num reconhecimento do esforço do ministro português em cumprir as metas traçadas por Bruxelas. Mas, aquilo que disse antes sobre Portugal, não foi bonito de se ouvir. Eis algumas frases da ofensiva alemã contra Portugal:

Numa conferência em Berlim, a 29 de junho de 2016:

Portugal vai pedir “um novo programa [de ajustamento] e vai tê-lo”

Minutos depois, a sua declaração foi retificada:

“Portugal não quer um novo programa e não vai precisar dele, se cumprir as regras europeias que obrigam à consolidação orçamental e à redução do défice”.

Numa conferência em Bucareste, a 26 de outubro de 2016:

“Portugal foi muito bem-sucedido até ao novo Governo. Depois das eleições (…), [o novo Governo] declarou que não iria respeitar aquilo que tinha sido acordado pelo Governo anterior”

“Foi neste sentido que alertei o nosso colega português, porque lhe disse que se for por esse caminho iria assumir um grande risco, e eu não assumiria tal risco”

Em maio de 2017, a propósito do Procedimento por Défice Excessivo:

“A decisão da Comissão Europeia de dar mais um ano a Portugal e Espanha para reduzirem o défice não contribuiu para ajudar à confiança”.