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Não há emprego? Há, sim. Mas nada é como dantes

Economia

Erik Isakson/ Getty Images

As áreas tecnológicas estão em alta e as empresas debatem-se com falta de profissionais. Mas a nova geração não olha apenas para o salário; exige muito mais ao empregador. Ainda não sabe o que quer ser quando “for grande”?

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Não é à toa que se associa a palavra “mercado” à palavra “trabalho”. Para lá das realizações profissionais ou do status social que um emprego confere, há uma regra muito básica neste mundo e essa regra é económica – na lei da oferta e da procura, quanto mais raro é um bem, mais valioso ele se torna.

Nas empresas tecnológicas, certos profissionais são desses bens raros. 
“É nas engenharias informáticas que haverá mais emprego”, afirma, convicta Vânia Neto, responsável da Microsoft Portugal pela área da educação, concretizando: “Tudo o que tem a ver com a cloud; com a análise de dados, ou seja, a ciência da big data; com a criação na área da internet das coisas (sensores biométricos nos equipamentos, por exemplo); com o design de jogos e o webdesign; com a transcrição de voz; com a cibersegurança…”

O que queres ser quando fores grande? Há 20 anos, ninguém responderia “programador de Android ou de IOS”. IO… quê? Hoje, muitos sonham com um emprego numa Google, numa Apple ou numa 
Microsoft. O que é preciso ter para lá chegar? Não basta o curso superior…

“As grandes competências do século XXI são o pensamento crítico; a capacidade de colaboração, de trabalhar em equipa; e a capacidade de resolver problemas com base na informação que está disponível”, continua Vânia Neto. “Isso as máquinas nunca vão poder fazer – inovar e criar.”

O talento nacional

Segundo o guia do mercado laboral da consultora Hays, relativo a Portugal, 79% das empresas consultadas dizem ter dificuldade em recrutar talentos. “Os profissionais das Tecnologias da Informação sabem o seu valor no mercado e colocam o fator salarial, a par da inovação nos projetos, como um dos principais elementos diferenciadores num processo de decisão entre diferentes ofertas de emprego”, refere o estudo, que aponta as profissões mais solicitadas: programador; web developer; mobile developer; especialista em integração; administrador de sistemas; especialista em segurança; especialista em business intelligence; data scientist; especialista em big data…

Segundo o mesmo documento, um programador ou um analista em início de profissão ganha, em média, €24 500 por ano (€1 750 por mês); com três a cinco anos de experiência aufere €35 000 (€2 500); e com mais de cinco anos de profissão recebe 
€50 000 (€3 571). São estes “salários baixos”, ou pelo menos “competitivos”, que têm atraído ao nosso país algumas multinacionais, que aqui instalam os seus centros de engenharias. Como está a fazer o Natixis, que encontrámos a recrutar candidatos no Landing.careers Festival, o maior festival de carreiras em tecnologia da Europa, que este mês recebeu, em Lisboa, 
1 500 visitantes, na maioria estrangeiros, 60 empresas como a Google, Trivago, OLX, Farfetch, Microsoft, entre outras.

Depois da Polónia, Roménia e Espanha, o banco francês de investimento vai transferir para Portugal uma parte das atividades informáticas, criando 600 postos de trabalho no Porto, ao longo dos próximos três anos. 
O Natixis explica a escolha de Portugal pelos “salários competitivos”, as “competências linguísticas e técnicas” dos profissionais e a oferta de imóveis. Para Philippe Becret, responsável pelo expositor do banco na feira, interessam os “falantes de francês”, com “boas competências técnicas”, para trabalharem nas áreas de IT banking, investment banking, insurance, etc.

O sentido do trabalho

Mas Portugal não é feito apenas de atrativos para as multinacionais, como sublinha Pedro Oliveira. “O mercado laboral é complexo e arcaico”, salienta o fundador da plataforma de recrutamento Landing.jobs. A legislação laboral “não é impeditiva”, mas dificultam alguns regimes de trabalho temporário, cada vez mais procurados por estes profissionais, assim como a rotação de pessoas desejada pelas empresas.
Três anos após a fundação, a Landing.jobs descolou, atingiu a velocidade de cruzeiro e fatura quase um milhão de euros. “O ano de 2017 é disruptivo. Ainda somos uma startup, mas brevemente vamos chegar aos lucros”, afirma Pedro Oliveira.

"Somos o oposto de uma agência de emprego. Eles são low tech e estão do lado das empresas. Nós não. Temos tecnologia, estamos focados no talento, ajudamos a desenvolver carreiras, e posicionamo-nos ao lado dos candidatos”, conclui.

Foi depois de ter sido diretor de operações na Landing.jobs que David Bento, 26 anos, foi convidado para trabalhar em Londres como analista de estratégia operacional na Deliveroo, uma empresa que entrega comida dos melhores restaurantes ao domicílio. “Vivemos numa época em que um bom curso universitário não é suficiente para se conseguir muitos dos empregos que se veem ser publicados diariamente. E isto não se passa apenas em Portugal. 
O foco das entrevistas de emprego é cada vez mais avaliar capacidade de raciocínio, de solucionar problemas sobre pressão ou de comunicar com clareza e assertividade. Apesar de ser um fator relevante, essencialmente nos primeiros anos de carreira, nunca me perguntaram qual a minha nota do mestrado em nenhuma entrevista de emprego que fiz até hoje”, refere.

David Bento diz mais: “Quem trabalha na indústria tecnológica encontra-se atualmente numa posição muito favorável relativamente à procura de emprego.” Esta ideia é reforçada por Tatiana Fomicheva, consultora de recrutamento na Hays, especializada na área de Tecnologias da Informação. “Estes candidatos beneficiam de 100% de empregabilidade, independentemente de terem ou não formação superior, da universidade de onde vêm ou da linguagem/ferramentas com que trabalham. Isto faz com que não necessitem de procurar emprego, e sejam os empregadores a tentar aliciá-los com condições mais atraentes.”

David gosta do ambiente informal da Deliveroo, acha inspirador “ver o CEO ainda hoje em dia a fazer 
entregas de bicicleta”, gosta de provar a comida e de ter uma subscrição de ginásio, oferecida pela empresa, para se manter em forma. Trabalha com horários flexíveis, sendo que o foco 
“é colocado no alcance de objetivos, ao contrário do cumprimento exímio das horas de trabalho”, descreve.

Acima de tudo, o jovem procura um sentido naquilo que faz. “Se vou passar a grande maioria dos meus dias a trabalhar num projeto, quero garantir que acredito que estamos a trazer valor acrescentado para os nossos clientes/utilizadores. É este impacto, juntamente com os objetivos exigentes, que trazem a motivação que muitas vezes é necessária para atingir bons resultados”, conclui.

O ataque às vagas

“São o tipo de talentos que, caso se sintam insatisfeitos, têm sempre muitas oportunidades para mudar, pelo que é extremamente importante existir um acompanhamento e desenvolvimento interno das suas carreiras por parte das empresas”, vai avisando Tatiana Fomicheva.

André Abou Campana, um paulista de 31 anos, programador de IOS, passeia pela feira da Landing.careers, mas o sol de Lisboa não chega para o tirar de Londres, onde trabalha. “É difícil tomar a decisão de mudar, optando por um salário mais baixo”, vai dizendo, não escondendo que veio a Lisboa fazer networking para tentar lançar uma startup. “Aqui é tudo muito ‘fixe’, como vocês dizem”, graceja.

Da Índia, vieram Atidivya Patra e Hitesh Baldaniya. Ou melhor, de Oliveira do Hospital, onde frequentam o mestrado em Informática. A vinda à feira, em Lisboa, representa para ambos uma oportunidade de encontrar um emprego na área. Um gostava de ficar a trabalhar em Portugal, o outro prefere uma experiência profissional noutro país da Europa. Para já, o regresso à Índia não está nos planos de nenhum deles.

Nem Miguel Vicente, 32 anos, a trabalhar há 10 na Microsoft, pensa regressar a Portugal num futuro próximo. Morre de saudades da família, do bacalhau à Brás e da ginja de Alcobaça, sua terra natal, mas está bem em Redmond, na zona de Seattle, EUA. “Continuo, e espero continuar a acreditar, que a tecnologia é a ferramenta mais poderosa que alguma vez criámos; fazer parte do grupo de pessoas que tem como missão avançar e distribuir essa ferramenta muito além dos limites da nossa imaginação é algo verdadeiramente especial, uma oportunidade única”, diz.

Este engenheiro informático, que ocupa o cargo de audience evangelism lead na empresa fundada por Bill Gates, deixa um conselho aos jovens à procura de emprego: “Ao invés de assumir que basta enviar um CV para a empresa, procurar ativamente pelas vagas que encaixam no nosso perfil – e nas nossas ambições de desenvolvimento a nível profissional, mas também a nível pessoal (experiência familiar, culturas a conhecer...). Depois de as encontrar, desenvolver uma estratégia de ‘ataque’ às vagas – percebendo o que é procurado, quem é a equipa e a empresa, como podemos estabelecer o primeiro contacto, fazer o que chamamos os ‘informational calls’ (para saber mais sobre a empresa, equipa, objetivos, definição da vaga). E, finalmente, preparar muito bem as entrevistas.”
A criatividade é a grande mais-valia. Não basta estar dentro do mundo digital; é preciso saber usar os equipamentos para a criação e não se limitar a ser um consumidor. “Quem está agora a estudar, provavelmente vai ter um emprego no futuro que hoje em dia nem sonhamos que virá a existir. E, no entanto, aqui temos estes alunos do século XXI, em instituições quase do século XIX, a serem educados por professores do século XX…”, diz Vânia Neto, da Microsoft. Dá que pensar.

Artigo publicado na VISÃO 1268 de 22 de junho