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"Somos um país promodependente, temos um tipo de consumidor viciado em promoções"

Economia

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Marcos Borga

Leia ou releia a entrevista a José António Rousseau, presidente do Fórum do Consumo

Doutorado em Ciências Empresariais e professor universitário, José António Rousseau, 60 anos, é há décadas um respigador dos hábitos e comportamentos dos consumidores portugueses. Adepto do “consumo consciente” – responsável e sem excessos, ambientalmente sustentável e socialmente solidário –, reconhece que talvez daqui a dez anos lá cheguemos. Não o diz em tom crítico, mas como verificador de factos, agora trazidos pelo Observatório do Fórum do Consumo, a que preside. No resto, só podia ser fã do Movimento do Capitalismo Consciente, promovido por executivos a partir dos EUA, e que promete virar do avesso as prioridades das empresas.

Quando vai às compras num supermercado, quais são as suas principais preocupações?

Eu sou um consumidor atípico…

Porquê?

Por exemplo, o consumidor-tipo raramente tem a preocupação de saber a origem dos produtos. Eu tenho essa preocupação.

Quer saber se são nacionais?

Não sendo nacionais, quero saber de que país provêm. Pode ser um país que explora mão de obra infantil, ou pratica atos de produção não consentâneos com a sustentabilidade ambiental.

As possibilidades de escolha encolhem…

Talvez... Olhar para o preço dos produtos continua a ser, hoje, a primeira atitude do consumidor-
-tipo.

O que faz sentido...

Não estou a criticar, apenas verifico um facto. Somos um país promodependente, temos um tipo de consumidor viciado em promoções.

O que continua a fazer sentido...

Sem dúvida. Só que essa preocupação com o preço e as promoções ilude as outras. Por isso, digo que sou um consumidor português atípico. 
O preço é também uma questão para mim – não sou rico –, mas tenho outras preocupações acrescidas e tento consumir de forma equilibrada em função de todos esses valores e interesses.

Admite que a maioria dos orçamentos familiares inviabiliza um comportamento diferente...

Claro. Os portugueses ainda têm uma prioridade meramente económica, em detrimento de outros valores. De qualquer forma, o crescimento económico apontado para este ano chega aos 2%, o que a ser verdade era muito bom, o desemprego descerá de dois para um dígito… Se, daqui a um ano, os resultados estiverem de acordo com estas previsões do Governo, não nos podemos queixar. Estaremos a crescer acima da média europeia. Mas isso não significa que, desde logo, seja mudado o chip na mente do consumidor português. Daqui a dez anos, se traçarmos a evolução em Portugal do consumo consciente, se calhar vamos poder sorrir. Embora lenta, essa evolução pode revelar-se positiva.

Os produtos biológicos já começam a ser um indicador interessante?

De 2015 para 2016, segundo as pesquisas do nosso Observatório, houve um aumento de 7% no consumo desses produtos. Mas a base ainda é muito baixa.

E são mais caros...

Por isso não se pode pensar em crescimentos exponenciais, enquanto a diferença entre os preços dos biológicos e os dos não biológicos não diminuir.
É previsível que essa aproximação de preços ocorra a médio prazo?
Sim. Conforme haja maior consumo, é natural que os preços dos produtos biológicos diminuam. Por questões de economia de escala, entre outras. E já há também, na mente do consumidor, um desanuviamento e uma menor preocupação em relação ao futuro. Os sinais são positivos e, como tal, as pessoas têm tendência para não se fecharem tanto e começarem a abrir um pouco mais os seus consumos.

Ainda assim, é de supor que o desempenho dos produtos de “marca branca” tem o céu como limite...

Não existem produtos de “marca branca”. São de marca dos distribuidores. Os industriais é que lhes chamam “marcas brancas”, para desvalorizar essa concorrência.

Certo. E o desempenho?

As marcas dos distribuidores tiveram uma galopada triunfante e chegaram com alguma rapidez, há cinco, seis anos, a quase 40% de quota de mercado, o que é muito bom. Isto embora na Suíça e no Reino Unido as quotas desses produtos atinjam cerca de 50 por cento. Mas em Portugal, e apesar da crise, houve nos últimos anos uma reação contrária. Os produtores começaram a desenvolver também promoções agressivas. Com isso diminuíram as diferenças de preços entre os produtos dos distribuidores e os de marca dos fabricantes. 
E travaram a tal evolução crescente, ganhando algum espaço de mercado. Hoje, a quota das marcas dos distribuidores ronda 38 por cento. Há, aliás, uma grande confiança nas marcas dos distribuidores – por isso têm esta quota de mercado tão elevada.

O que há a destacar nas gerações mais jovens?

O fenómeno do consumo infantil. É algo que não existia, mas que nos últimos 15, 20 anos se tem imposto. Agora há crianças, digamos com dez anos, que têm capacidade de compra. Possuem mesadas, dos pais, dos avós, e consomem de forma autónoma. Não pedem. Têm dinheiro. É um fenómeno europeu, que tem a ver com a evolução do nível de vida. E os valores financeiros relacionados com este segmento de consumidores já começam a ser muito significativos em alguns países. Depois, além de consumidores, são também prescritores. Quando acompanham os pais ao supermercado ou a outro tipo de estabelecimento comercial, aconselham-nos a comprar determinado produto. Ou exigem mesmo que o comprem.

“Vade retro” consumo consciente...

Se a maior parte dos adultos não tem esse nível de consciência, muito menos pode existir numa criança.

E como vamos de consumo online?

Está a aumentar. Até mais do que nos pontos de venda fixos. Nas lojas, o consumo esteve quase estagnado, desde 2008. Nos últimos dois anos, houve uma ligeira recuperação. Ao contrário, o consumo online, no mundo, cresceu sempre a uma velocidade perto dos dois dígitos. Mas em Portugal ainda não temos um valor muito significativo, em termos globais.

Porquê?

Pode haver ainda alguma desconfiança na forma dos pagamentos, por exemplo, ou na comunicação que é feita pelas empresas que atuam no consumo online. Por outro lado, o consumidor português típico parece ainda ter algum prazer em estar na loja, em pegar nos produtos. No consumo online não há nenhum contacto com o produto nem com o vendedor. E, às vezes, há surpresas – o que se recebe não é exatamente o que se pretendia.

E aí o consumidor está protegido?

Os consumidores que compram online têm hoje uma forte proteção jurídica, através do “direito ao arrependimento”. É a possibilidade que qualquer consumidor tem, quando compra online ou à distância, de se arrepender nos 
14 dias subsequentes à aquisição, e, sem qualquer justificação, devolver o produto e receber o dinheiro. Quem compra em loja não tem esta proteção legal. Embora, para competir com o online, muitas empresas apliquem o mesmo pressuposto.

Quais são as previsões para Portugal?

A Espanha já regista o dobro do nosso consumo online. Nos EUA, as projeções apontam para que, em 2050, 50% de todas as compras se façam online. Se vier a acontecer, é brutal. Em Portugal, na mesma altura, se essa percentagem for de 20% já será muito boa.

E como estamos de consumo solidário?

Quanto baste, diria. Embora existam muitas iniciativas que aproveitam o balanço do consumo, de maneira a que parte do que gastamos em compras possa reverter a favor de uma entidade que vai depois desenvolver um fim social.

O consumidor português está alheado dessa preocupação?

Enquanto comportamento consistente, sim. Mas manda a verdade que se diga que, quando as iniciativas surgem, muitos consumidores participam. 
E essas iniciativas acabam por recolher valores interessantes que contribuem para colmatar lacunas e deficiências de segmentos da população.

A responsabilidade social das empresas melhorou de forma substancial?

É difícil medir isso. As empresas também desenvolvem essas ações para ficarem melhor na fotografia. Hoje aposta-se muito no chamado marketing de valores, dirigido ao espírito do consumidor. Porque há pessoas que associam o seu consumo aos valores que defendem e querem ter uma práxis diária consentânea. E as empresas precisam de mostrar que estão alinhadas com esses valores, para terem mais hipóteses de serem as preferidas quando os consumidores tomarem a opção de compra.

É uma atitude sincera ou hipócrita?

Depende. Mas hoje é quase incontornável a necessidade de o marketing das empresas incorporar a componente da responsabilidade social. Já não chega a publicidade dos preços baixos ou de “produtos XPTO”. Têm também de desenvolver no terreno iniciativas ligadas aos tais valores, para fazerem a demonstração da sua responsabilidade social.

Quanto baste, igualmente…

Mas é uma tendência crescente. Já existe até um conceito que pode parecer contraditório nos seus termos. Surgiu nos EUA e chama-
-se Movimento do Capitalismo Consciente. Um dos principais mentores é John Mackey, dono de uma grande multinacional de produtos biológicos. Este movimento defende que na economia capitalista não vale tudo. E inverte as preocupações empresariais: em primeiro lugar pensa nos consumidores e nos colaboradores, e só depois nos acionistas. 
O Capitalismo Consciente argumenta que apenas pode haver verdadeiro lucro com esta dinâmica.

Antevê-lhe futuro?

Sim. Vai na direção certa, ao contrário da selva total do sistema financeiro internacional, que não olha a meios para atingir fins.

(Entrevista publicada na VISÃO1259, de 20 de abril, de 2017)