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Embargo à carne brasileira "vai ter um impacto muito grande no consumo" português

Economia

LUCILIA MONTEIRO

A Comissão Europeia anunciou esta segunda-feira que vai pedir a suspensão da importação de carne feita às empresas brasileiras envolvidas na polémica da Operação Carne Fraca. O impacto vai-se fazer sentir em Portugal, garante associação do setor da carne

São toneladas de carne que deixam de entrar em território nacional, devido à intenção, por parte da União Europeia, de embargar a carne vendida pelas empresas na mira das autoridades do Brasil. Um porta-voz da Comissão Europeia avançou hoje que ficará assim barrado o acesso destas empresas a mercados europeus e que o executivo comunitário está a monitorizar as importações de carne do país.

O presidente da direção da LEICAR (Associação de Produtores de Leite e Carne) José Campos Oliveira critica a falta de regulação imposta a alguns dos que exportam para território nacional. “Nós, dentro da União Europeia, temos de respeitar uma série de regras de alimentação e bem-estar animal, o que faz com que aumentem os custos de produção. Por outro lado, assistimos a que se permita importar carne de outros países que, como sabemos, não têm as mesmas regras de controlo e fiscalização.”, afirma o empresário.

O cenário beneficia produtores nacionais e europeus. Segundo Campos Oliveira, acaba mesmo por ser “bastante positivo para os produtores da União Europeia, que deixam de ter essa concorrência, neste momento.” Mas, embora as empresas europeias do sector possam lucrar com a decisão da Comissão Europeia, o jejum de carne brasileira também terá efeito no mercado nacional: “vai ter um impacto muito grande no consumo. A carne importada dos países da América Latina tem uma quota [no mercado] muito significativa. E a maior importação é do Brasil”, explica Oliveira Campos.

Em 2016, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, Portugal importou do Brasil mais de 3,4 milhões de euros em “carnes e miudezas”, num total de quase 525 mil toneladas. E a tendência era de crescimento, com um aumento de quase 27% face a 2015.

A Operação Carne Fraca envolveu, no Brasil, a ação de cerca de 1100 agentes do governo, que levaram a cabo 309 mandatos judiciais devido a um esquema de corrupção no sector da carne. Segundo as autoridades, 33 funcionários do ministério da Agricultura brasileiro terão recebido subornos para atribuírem certificados sanitários que validassem a exportação de carne ilegal ou mesmo estragada. São cerca de 40 empresas envolvidas na polémica, entre as quais se contam as gigantes JBS e BRF.

O gabinete do ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural garante que não foi detetada nenhuma situação de carne estragada em Portugal, e que não são necessárias medidas extraordinárias. As importações de carne por parte destas empresas brasileiras está, como no resto da União Europeia, interrompida.

Para um dos países que mais carne exporta a nível mundial, as consequências para a imagem da indústria podem ser altamente prejudiciais. Este domingo, o secretário-executivo Euvar Nomacki (do ministério brasileiro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) afirmou estar preocupado com o fecho dos mercados internacionais à carne brasileira.

A Coreia do Sul, a China e o Chile também já anunciaram uma suspensão temporária da importação de carne brasileira. Apesar da controvérsia, a Comissão Europeia garantiu que o caso não vai afetar as negociações sobre o comércio entre a União Europeia e a Mercosul, um bloco de aliados económicos da América do Sul que inclui o Brasil. O porta-voz da Comissão assegurou também que qualquer acordo firmado terá de conter “um capítulo sobre medidas sanitárias e padrões de segurança alimentar”.