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Lembra-se do apagão? Um quarto das cegonhas portuguesas faz ninho nos cabos elétricos

Economia

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Universidade do Porto e REN colaboram para diminuir acidentes com cegonhas e ainda na avaliação do impacto das linhas de alta tensão na vida de três espécies de aves

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

Os ninhos das cegonhas, empoleiradas nos cabos de alta tensão, já fazem parte da paisagem. E as aves, que na década de oitenta do século passado eram uma espécie ameaçada, já se adaptaram perfeitamente às novas casas. Também faz parte da memória coletiva o célebre apagão, que deixou, em maio de 2000, o sul do País às escuras e que teve como uma das causas a eletrocussão de uma cegonha.

De acordo com a Rede Elétrica Nacional (REN), em 2015, havia 2 600 ninhos instalados em postes elétricos, o que corresponderá a 25% da população nacional de cegonhas. Num só poste, chegam a estar mais de 30 ninhos. Esta convivência pacífica entre animais e tecnologia não acontece por acaso. Há já muitos anos que a vida das cegonhas, e também das águias ou do sisão (uma espécie protegida, comum nas áreas agrícolas), condiciona o planeamento das redes, as operações de manutenção e obriga a alguns cuidados como a colocação de elementos dissuasores para afastar as aves dos locais mais sensíveis da rede. No território nacional, ainda no mesmo ano, foram colocados 642 dessas estruturas que evitam que as aves provoquem um curto-circuito. Também se constroem plataformas, que acabam por ser bases para a nidificação, e se fazem transferências de ninhos, dos locais perigosos para os mais seguros da linha. Esta manobra de transferência ocorre todos os anos, entre janeiro e fevereiro, sob a supervisão do Instituto de Conservação da Natureza. Só em 2015, mudaram de casa (para uns metros mais ao lado) 221 famílias de cegonhas.

A convivência parece pacífica, mas é possível melhorar e avaliar o seu impacto, bem como melhorar o planeamento das linhas, de forma a minimizar os acidentes. Para isso, REN e o CIBIO-inBIO, instituto de investigação da Universidade do Porto, dedicado à conservação da natureza, estabeleceram uma parceria, na qual participa também a Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Neste projeto de colaboração, que tem por base a cátedra REN em biodiversidade, vai tentar perceber-se quais as condições da linha que são mais perigosas e os fatores que podem levar à morte das aves. "Neste projeto chegamos a ter a colaboração dos próprios técnicos da REN, por exemplo, na contagem dos ninhos e do número de bebés", sublinha o investigador responsável pela cátedra, Francisco Moreira. Para se perceber melhor o que fazem os postes à vida das cegonhas, e vice-versa, também serão usadas técnicas mais sofisticadas, como a colocação de emissores e o seguimento do voo via satélite.

"Esta questão é muito importante para os operadores de linhas elétricas e é possível que venhamos a exportar o conhecimento produzido em Portugal para instalações noutros países, que também possam vir a beneficiar", avança Francisco Parada, responsável pela qualidade e segurança ambiental da empresa.