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O pequeno piolho marítimo que está a encarecer o salmão

Economia

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© Alexander Demianchuk / Reuter

Falamos de um parasita minúsculo que, com a ajuda do aquecimento global, espalhou as suas consequências por toda a indústria

Grelhado, assado ou crú num belo sushi, todos gostamos do peixe mais alaranjado dos mares e dos pratos, mas se, desde 2016, o tem notado mais caro, não estranhe. Anda nos mares uma ameaça nova que tem comprometido a sua produção.

O Lepeophtheirus salmonis é mais comumente chamado de piolho do salmão e, como se instala externamente no corpo do seu hospedeiro, é um exoparasita. Está a atacar sobretudo os peixes do atlântico e a fazer subir o seu preço para níveis sem precedentes.

A disseminação severa desta epidemia de piolhos do mar na Noruega e na Escócia juntou-se a uma outra disseminação, a de algas tóxicas no Chile (segundo maior produtor de salmão depois da Noruega) em 2016, e a produção tem sofrido bastante com isto - caiu em cerca de 9%.

De acordo com as análises feitas na indústria de peixe, esta descida deve continuar até ao fim da primeira metade de 2017, por causa do piolho. A infeção tem também afetado, não exatamente com a mesma expressão, outros peixes como a garoupa, a tainha e o robalo e pode gerar perdas económicas de mais de 280 milhões de euros.

Os países que têm sofrido com o aumento dos preços são, genericamente, todos os consumidores mas, segundo a imprensa britânica, no Reino Unido, por exemplo, o salmão é quase um luxo. Os preços do salmão da Noruega subiram 40% em 2016 (em relação 2015) e, segundo o Financial Times, os preços deverão manter-se este ano até que o peixe volte a ter o tamanho ideal.

De onde vem o parasita e porque nos afeta

Estes parasitas sempre fizeram parte dos ecossistemas marinhos mas nem sempre representaram um problema.

Estes piolhos instalam-se no peixe e alimentam-se do seu sangue, muco e pele, alterando o sistema imunitário dos peixes e tornando-os muito mais vulneráveis. Um salmão selvagem adulto consegue viver com 1 ou 2 parasitas hospedados mas quando depois vai até ao rio para pôr os ovos que garantem a sua reprodução e entra em contacto com a água doce, acaba por morrer, uma vez que, com o sistema imunitário enfraquecido, dependem da salinidade da água.

As defesas em baixo aumentam também a probabilidade de os peixes contraírem outras infeções que os tornem impróprios para consumo. E mesmo que nenhuma destas consequências se verifique e o peixe sobreviva, também há, naturalmente, um limite de parasitas estabelecido para aceitar (passar na inspeção alimentar) os salmões no circuito de venda para consumo humano.

"O problema aumenta quando temos populações de salmão confinadas em ecossistemas intensivos onde estão centenas de peixes", explica Fernando Mardones, epidemiologista e professor assistente na Universidade André Bello no Chile.

Desde os anos 70 que o setor tem procurado estratégias que resolvam estas epidemias mas até agora ainda nenhuma foi 100% eficiente, até porque os parasitas também têm as suas estratégias e estão cada vez mais resistentes.

O peso das alterações climáticas

A relação não é direta mas, de facto, o aquecimento global do planeta, e das águas, tem promovido a abundância destes parasitas.