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"Os operadores turísticos estrangeiros queixam-se que somos maus vendedores"

Economia

Tiago Miranda

Leia ou releia a entrevista de Ana Mendes Godinho, secretária de Estado do Turismo

No intervalo das dezenas de reuniões mantidas durante a FITUR – Feira Internacional de Turismo de Madrid, onde Portugal teve a maior representação de sempre, a secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, traçou o cenário do setor. Em 2016, Portugal conquistou 600 prémios turísticos e registou 16 mil referências em jornais internacionais. Para este ano, as perspetivas são igualmente animadoras.

Ainda encontra pessoas que nunca ouviram falar de Portugal?

Sim, nomeadamente em mercados longínquos. Nos EUA, por exemplo, ainda há um défice de notoriedade muito grande. Não podemos ficar inebriados pelos números nem pensar que toda a gente já nos conhece. Temos muitíssimo a trabalhar. No roadshow que fiz em 2016 senti que havia um grande défice para além do tradicional Lisboa/Algarve/Madeira. Daí a preocupação de pôr o nosso interior no mapa turístico. Temos de abrir novos mercados e passar a mensagem de descoberta de um país que tem muito mais para oferecer do que os estereótipos de há 20 anos.

Quais serão as grandes apostas da promoção turística para 2017?

Cada vez mais, é necessário desconcentrar a procura ao longo do ano e do território. O nosso foco é mostrar um Portugal que as pessoas não conhecem: na natureza, cultura, património e gastronomia. A procura turística tem crescimentos muito bons (na ordem dos 10% de turistas e 12% de dormidas), mas, em proveitos, os aumentos são na ordem dos 20% e com números particularmente interessantes fora da época alta, de 63% de crescimento. Os números de novembro do Algarve, um destino tipicamente sazonal, mostram um crescimento de 20%. Estamos, também, a conseguir a diversificação de mercados. O mercado americano, em novembro, cresceu 30% e o brasileiro 94%. Isto resulta muito da grande promoção internacional.

E para este ano quais as perspetivas?

O contacto com operadores estrangeiros e nacionais aponta para números muito positivos de procura. No New York Times, na semana passada, aconselhavam ir a Portugal fora da época alta, para descobrirem este País diferente, com o nosso património e cultura em destaque. Por exemplo, de Lisboa como capital Ibero-americana, da ARCO, do centenário de Fátima, promovendo Portugal como país de experiências e de espiritualidade.

E o trabalho nas acessibilidades aéreas?

Está à vista. Conseguimos 64 novas rotas aéreas em 2016 e, para este ano, já temos 56 novas, com 770 mil novos lugares só para a época baixa. A acessibilidade aérea é crucial para um destino como o nosso e traz resultados diretos.

O Algarve continua a ser a região que sustenta o turismo nacional?

O grande objetivo é colocar o resto do País também no mapa. Este ano há uma grande desconcentração e diversificação ao longo do território. Todos os destinos portugueses estão a crescer dois dígitos.

A taxa média de dormidas continua baixa...

Daí a preocupação de passar a mensagem de Portugal como um país de caminhos, onde se encontra oferta diversificada num pequeno espaço geográfico. Ainda existe um défice em comunicar. Vamos articular com as regiões para mostrar esta oferta e, por outro lado, apostar muito na promoção dos eventos culturais, dando-lhes escala. Os operadores estrangeiros queixam-se que somos maus vendedores. Portugal tem produtos fantásticos, as pessoas ficam deslumbradas, e há que saber utilizá-
-los na promoção.

Anunciaram uma série de apoios para quem invista no interior. Qual está a ser a resposta?

O programa Valorizar, lançado no início de janeiro, regista um número de pedidos de informação muito intenso, por entidades públicas e privadas. Com muito interesse de produtos concretos, como por exemplo, das termas ou de empresas de animação turística.

Essa discriminação positiva em relação ao interior não deverá ir mais além? Continuam a existir queixas, por exemplo, quanto às portagens…

É preciso garantir que as pessoas vão cada vez mais para o interior. Por exemplo, nas termas há uma série de constrangimentos. E estamos a tentar identificá-los, para que a sua dinamização exista de facto, não só em termos promocionais, mas também na estruturação do produto.

A promoção de Portugal vai além do turismo?

Para aproveitar a boa imagem, em termos de turismo, podemos transmitir um argumentário das vantagens de investir em Portugal, e no turismo em particular. E mostrar que o País também é bom para viver, trabalhar e estudar. Este mês, em conjunto com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, será lançada a campanha Study in Portugal, com 10 razões a explicar por que o País é o destino ideal para estudar. 
O objetivo é cativar cada vez mais alunos estrangeiros, até porque, depois, são pessoas que ficam fidelizadas no destino e fixam uma relação no nosso país. A campanha será lançada através dos meios digitais, além de prepararmos ações específicas para captar estudantes em alguns mercados.

Qual tem sido o interesse despertado pelo programa Revive [de concessões turísticas em património ao abandono ou sem utilização]?

Durante a FITUR, aproveitei para reunir com vários grupos hoteleiros que estão interessados no programa (alguns numa fase de prospeção avançada para decisão), precisamente porque é uma oportunidade única para os investidores terem acesso a um património diferenciador, que lhes permita entrar em Portugal com monumentos icónicos. De seguida, vamos fazer um roadshow de promoção do programa e, em fevereiro, vamos à Índia e à China.

Como é que chegaram à lista final de 30 monumentos?

Foi um trabalho intensíssimo e articulado entre a Direção-Geral do Tesouro e Finanças, a Direção--Geral do Património Cultural (DGPC) e o Turismo de Portugal, com o objetivo comum de valorizar o nosso património e de utilizá-lo com âncora do desenvolvimento turístico, escolhendo edifícios dispersos pelo País. É assustador o estado em que se encontram alguns dos imóveis e esta é uma boa solução para eles. Fizemos questão que cada um tivesse um estudo arquitetónico e cultural por parte da DGPC, com a valência do turismo envolvida, para garantir que fossem projetos viáveis economicamente, mas sempre respeitando as áreas e os parâmetros da intervenção definidos pelo caderno de encargos, para que seja um projeto em que todos nos revemos.

O uso destes imóveis será só como empreendimentos hoteleiros?

Os imóveis têm diferentes características e dimensões. Cada um terá um concurso individual, em que são identificados os usos possíveis. O nosso objetivo não é que sejam todos hotéis. Poderão ser espaços de animação ou culturais, restaurantes… há uma miríade de fins, desde que respeitem os padrões da DGPC.

É possível compatibilizar a proteção do património e o negócio?

Claro. Aliás, há vários exemplos internacionais de processos idênticos. O desenvolvimento de negócios, em torno deste tipo de imóveis, radica muito na sua autenticidade e no valor do património em si.

Como é que se garantirá que não se repitam os erros cometidos em modelos mais antigos (por exemplo, nas Pousadas de Portugal, algumas com graves problemas de gestão)?

Com grande cuidado na definição dos cadernos de encargo dos concursos e, depois, nos contratos de concessão. Quem ganhar os concursos terá uma monitorização permanente, para garantir que tudo é feito de acordo com os pressupostos e os objetivos do programa – ou seja, dar vida, mas respeitar e valorizar este património. Hoje em dia são imóveis que não têm condições de segurança para serem usados ou sequer visitados, isto é uma forma de permitir que esse património seja usufruído pelas populações.

Não estará o Estado a desligar-se das suas responsabilidades de conservação do património?

Pelo contrário. Há a preocupação em fazer um concurso para cada um dos imóveis, com uma definição clara do que se pode ou não fazer. E com uma grande preocupação para este património não caia, tenha uso, seja um ativo real para as populações, que gere emprego e seja um motor de desenvolvimento regional. 
A quantidade de imóveis, que se encontram fechados por todo o País, e os próprios municípios que estão à procura de soluções é impressionante.

Tem insistido na qualificação e na valorização dos recursos humanos no Turismo. É um problema levantado pelos empresários?

Os empresários têm consciência que quanto mais apostarem na qualificação das pessoas, melhor é a oferta. Vamos lançar um programa para abrir as escolas aos empresários, para aquelas darem uma resposta real aos problemas do mercado de trabalho. Com isso valoriza-se os recursos humanos. Os empresários estão dispostos a pagar mais por essas pessoas e dar-lhes melhores condições. É uma forma de quebrar o ciclo vicioso da precariedade. Acabamos de lançar no Algarve o FormAlgarve, um programa de formação especial para os ativos na época baixa, em contrapartida de relações laborais mais estáveis [As empresas serão apoiadas financeiramente pela renovação de contratos de trabalho a prazo ou a conversão de contratos de trabalho a prazo ou a termo certo em contratos sem termo].

Só no Algarve?

É um teste, até porque é a região onde existe maior diferença de emprego entre a época alta e a baixa. Estamos a trabalhar a dois níveis, garantindo que a atividade turística seja cada vez mais sustentável ao longo do ano, mas também ao nível destes programas de formação de ativos no local de trabalho. Os empresários são os primeiros a reconhecer que a satisfação das pessoas nos locais de trabalho é fundamental para a qualidade do serviço.

A fiscalização irá aumentar?

Houve um reforço de inspetores das condições de trabalho. Sou a primeira a defender que isto aconteça, mas que também haja mais mecanismos de autorregulação do setor. Quero muito trabalhar neste sentido com confederações patronais, sindicais, associações do setor, no sentido da responsabilização social que todos reconhecemos em palavras. Mas é preciso passar à ação. Tem de haver a dinamização do diálogo social, para se combater fenómenos do trabalho não declarado e da precariedade ilegal.

Esse trabalho conjunto não tem existido?

Tem de haver mais. O trabalho não declarado gera insegurança para os trabalhadores, mas também gera fenómenos de concorrência desleal no mercado. Portanto há interesse de todas as partes em combatê-lo.

Com o crescimento turístico, não seria expectável outro tipo de responsabilidade social dos empregadores?

Os empresários são os primeiros a querer garantir que existe identidade dos trabalhadores com as suas organizações, qualidade que está intimamente ligada à qualificação das pessoas. O nosso objetivo é promover essas condições de trabalho sãs e valorizar cada vez mais as pessoas. 
É um bom momento para isso.

Dizem ter sido criados 45 mil novos empregos no Turismo em 2016. Onde e em que categorias?

Aconteceu por todo o País e foi extraordinário. Só em novembro tivemos um crescimento homólogo de 30 mil novos postos de trabalho. A distribuição foi quase 50% entre a restauração e a hotelaria. A reposição da taxa do IVA teve impacto direto na tesouraria das empresas, permitindo--lhes um alívio nas contas para contratar pessoas. Temos de garantir atividade turística durante todo o ano para conseguir acrescentar valor à nossa oferta, para que haja mais margem para valorizar e para que as remunerações aumentem.