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“A finança comeu a economia, e a economia comeu a política”

Economia

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O filósofo francês Dominique Wolton anda irritado com a aldeia global, dominada pela ditadura da tecnologia. Denuncia as indústrias imperialistas do século XXI e alerta: “Se quisermos salvar a democracia, é preciso que a política regule e controle a técnica”. E que os políticos deixem de andar, como macacos, na selva dos tweets.

Foram várias as vezes em que o fundador e diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica, em Paris, Dominique Wolton, fez um manguito a esta era da globalização dominada pelas “indústrias imperialistas do século XXI”, de que a Google ou o Facebook são apenas alguns dos exemplos mais evidentes.

Ao longo de hora e meia de conferência, o também diretor da revista Hermes, insistiu várias vezes na necessidade de a “Europa acordar” e contrariar o domínio da economia e da finança sobre a política. Pois só isso poderá ser “um fator de paz”, que conduza ao entendimento entre as diversas culturas identitárias dos povos. Pelo contrário, “essas grandes indústrias não querem a política. Querem é a organização do mercado livre”.

A era em que se atingiu o maior volume de sempre de informação disponível e em que todos comunicam “ao nanossegundo”, é também a era da “confusão total” e das “solidões interativas”. Para Dominique Wolton, “quanto maior é o progresso, mais a questão da não comunicação e da política se torna central”. Ultrapassar este paradoxo é o grande desafio do projeto europeu. “É preciso salvar as identidades para pôr ordem na globalização”, repete.

“Perdidos num grande bordel”

Integrada no Fórum do Futuro, a decorrer até domingo, 6, no Porto, a conferência de Dominique Wolton procurava responder ao ‘desafio de paz e guerra no século XXI’. Afinal, na era da globalização como se pode evitar a guerra, reconhecer a diversidade e organizar a coabitação cultural? E qual o papel da comunicação nos desígnios de paz?

Mas este francês, que se recusa a perder o otimisto e o humor, anda obcecado, e até fascinado, pela “incomunicação”. Sobretudo a que se vive na Europa. “O ser humano passa toda a vida a tentar comunicar e isso nunca funciona. A não ser quando se está apaixonado e, mesmo assim, isso não dura muito tempo”, disse, a rir. Comunicar é “estabelecer uma relação”, “é complicado”.

O problema agrava-se “quando a economia é eleita como a doutrina principal”, num tempo em que a internet acelerou a globalização. “Mesmo para minha surpresa, estamos a chegar a resultados inversos. Quanto mais aldeia global, mais intolerância, mais incompreensão, mais fanatismo religioso, mais ódio”, constatou.

“Se quisermos salvar a democracia, temos de destecnicizar a comunicação.” Porquê? “Porque a comunicação é política, um ato de paz ou guerra”. Já as tecnologias são velozes e de uma grande ambivalência.” Ora, “se queremos paz no mundo, precisamos de lentidão, precisamos de falar, pois não há coabitação num nanossegundo”.

Nesta voragem de comunicação imposta pelas novas tecnologias de comunicação e das redes sociais, onde cada vez mais impera o domínio da língua inglesa em detrimento de todas as outras línguas que espelham a diversidade cultural, “a finança comeu a economia, e a economia comeu a política”. Daí que o grande problema político do século XXI e a sua grande batalha cultural seja “salvar as identidades” e “fazer prevalecer o universalismo”.

Dominique não tem dúvidas: “Se não tivermos identidade estamos perdidos num grande bordel mundial, numa grande confusão. Salvar as identidades porá ordem na globalização”.

A grande dificuldade é que a globalização foi tomada pela economia e pelo capitalismo. “E quando pensamos que o capitalismo tinha morrido...” vai um manguito, o gesto com que Dominique completa a frase e provoca mais umas gargalhadas na audiência. Continua, dizendo que a globalização permitiu que o capitalismo avançasse sem quaisquer regras, tornando o mundo global “vantajoso somente para os ricos”.

O melhor exemplo é a forma como a crise de 2008 afetou o mundo inteiro. Daí que seja necessário “regular a finança e recolocar a política” numa “Europa masoquista” onde todas as ideologias estão submetidas à economia.

Importa pois que a Europa acorde e perceba que é o papel da União Europeia que está em causa. “Nunca uma organização política se constituiu tão livre e pacificamente. Mas foi o liberalismo que ganhou. A política atrasou-se relativamente à economia”.

“Parem de mandar tweets”

E o que aconteceu à política e aos políticos? Enredaram-se nas teias da velocidade, da tecnologia e da não comunicação. “Aos políticos, só me apetece dizer: parem de andar nas redes sociais a mandar tweets”, grita Dominique Wolton. Irrita-o, esta coisa de ver “80 % dos políticos a falar aos jornalistas nas redes e a não fazerem nada”. O filósofo francês volta a simular dirigir-se aos políticos: “Vocês são looooouuucos”. De novo para a assistência: “A Internet é a selva e os políticos passam a vida como macacos à volta dos tweets”. Risos na sala.

Esta “abundância” terá “um preço”, prevê Dominique, suspeitando que “haverá revolta de qualquer maneira”. É que a velocidade é inimiga de uma “política é longa” e demorada, necessária á comunicação.

“O problema das redes é que permite confundir tudo”, continua Dominique. “É o reino da expressão. Mas se toda a gente se expressa, quem é que escuta?”, interroga. E este é um dos grandes problemas da democracia: saber “distinguir informação, comunicação e expressão”.

“A internet é um grande caixote do lixo, a caixa de ressonância de todos os boatos, cheias de denuncias e conspirações”. Algo que leva à “confusão total”. Mas “a informação tem de ser objetiva, não é um bordel.”

Grave é a “relação desconjuntada” entre o volume de informação e o conhecimento. E este é essencial para as identidades culturais e para o sucesso da comunicação, que precisa de ser “autêntica”. No entanto, apesar de tanta informação, “nunca houve tanto conformismo e tão pouca diversidade”.

“Desliguem-se”

“O que nos traz os milhares de objetos interconectados? Para que nos servem? Para nada. Só tem interesse para as empresas que os interconectam.” Para Dominique, este é o domínio das indústrias imperialistas do Século XX, que só trazem um “progresso perverso”.

No final, um lamento e um pedido. Nada o chateia mais do que ouvir um político basear a sua reforma da Educação na distribuição de computadores pelas escolas, em vez de incentivar os alunos a percorrerem as bibliotecas e fazerem as suas descobertas através dos livros e não da ditadura seletiva do Google.

“Bem sei que um computador custa menos do que um professor. Mas a educação é uma relação de amor e ódio entre professor e aluno, não tem nada a ver com interatividade”, brinca, falando sério.

A sua esperança é que “os adultos comecem a dizer aos miúdos: desliguem-se”.

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