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A melhor startup da Europa é portuguesa

Economia

A Chic by Choice venceu o prémio The Europas, na categoria de moda. Conheça a história das duas jovens de 25 anos que tornaram uma ideia num negócio do luxo

Nuno Botelho

Já tiveste ideias melhores, Filipa”. Sentada no seu showroom, no coração de Lisboa, Filipa Neto, 25 anos, imita a voz do pai e parece que ainda o está a ouvir. Tinha 20 anos, estudava Economia na Universidade Católica e, cheia de sonhos, não se deixou abater pela desconfiança paterna. “Quando os investidores abriram a porta, então os meus pais começaram a achar que era a sério. E apoiaram-me imenso”, diz.

Filipa e Lara Vidreiro (da mesma idade, formada em Gestão), amigas inseparáveis, queriam ir a uma gala da faculdade com um vestido exclusivo, que mais ninguém comprasse, mas não tinham dinheiro para gastar numa peça que iriam usar apenas uma vez. Surgiu assim a ideia de alugar, através da internet, vestidos de luxo, tornando o mundo da alta costura um pouco mais acessível ao comum dos mortais.

Quando o site da Chic by Choice foi lançado, em 2014, Filipa e Lara não tinham um único vestido em armazém. Negociaram parcerias com marcas e boutiques, que as deixaram colocar no site a imagem dos vestidos; só quando tivessem encomendas é que as raparigas tinham de os comprar, a “preço de parceria”, para depois os poderem alugar aos clientes. Com o negócio a ser ditado pela procura, o risco podia ser minimizado.

Passaram dois anos e a Chic by Choice tem um showroom, na Rua Castilho, com 1 300 vestidos. Emprega 20 pessoas, sendo que a maioria faz parte da área tecnológica. É que, como sublinham as fundadoras, este não é um negócio de têxteis; é um negócio tecnológico – no e-commerce, a área do digital tem de funcionar na perfeição.

No último trimestre de 2015, a empresa cresceu 200% em relação ao trimestre anterior. Nos últimos seis meses, a taxa de crescimento tem sido de 17%, mês após mês. Até agora, Filipa e Lara já angariaram dois milhões de euros de investimento.

Mas, porventura, a informação que mais impressiona é esta: a startup de Filipa e Lara é líder europeia nesta área, tendo adquirido as suas duas principais concorrentes: uma no Reino Unido e outra na Alemanha. “No Reino Unido, onde estão atualmente 70% dos nossos clientes, comprámos os ativos de uma empresa (os vestidos e a base de dados) e ganhámos escala. Fomos buscar fatias do bolo em vez de criar um novo bolo”, explica Filipa.

À medida dos 'millennials'

O prémio que agora ganharam, em Londres, o de melhor startup europeia na área da moda, durante a The Europas Conference & Awards – uma das mais influentes conferências sobre tecnologia – é, para Lara, “uma conquista muito importante”. Como o foi o bronze arrecadado há um mês, em Barcelona, na 6ª Edição dos Prémios Europeus de E-commerce.

Longe ficou o ano em que Lara e Filipa decidiram levar a sua ideia a um concurso de empreendedorismo, da associação Acredita Portugal. Entre três mil projetos acabaram em segundo lugar e deram nas vistas, encontrando um investidor que as levou para Guimarães.

Na altura, a empresa não se chamava Chic by Choice e Filipa e Lara tinham uma posição minoritária. Não só não geriam o negócio como descobriram que tinham visões diferentes do investidor. Agradeceram a aprendizagem e vieram embora. Em fevereiro de 2014 começaram a angariar dinheiro para a Chic by Choice, reformulando o modelo de negócio e dando mais enfoque à vertente tecnológica do que à têxtil.

Basicamente, estamos a falar de um site onde se pode alugar um vestido de luxo (e, desde março, também acessórios como malas e joias). Há dois períodos de aluguer à escolha (4 ou 8 dias) e a encomenda é recebida em 24 horas. Trata-se de um serviço à medida do consumidor millennial (a geração nascida entre 1981 e 2000) que, segundo vários estudos, valorizam mais a experiência do que a posse. Além disso, esta “geração da internet” que usa as redes sociais como fonte principal de informação e não receia o comércio online.

Por esta altura, tudo o que interessa às duas amigas é fazer a Chic by Choice crescer, dentro e fora dos 15 países onde opera. Para manter a liderança é preciso ganhar escala. “Isto não é um sprint, é uma maratona”, conclui Filipa.