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Integrar os refugiados pelo desporto

Desporto

Farid Walizadeh, refugiado afegão recebeu apoio do Comité Olímpico de Portugal e pode vir a estar presentente nos Jogos Olímpicos de Tóquio na equipa internacional de refugiados

Diana Tinoco

Na Conferência Migrações, Deporto e Religiões, organizada pelo Comité Olímpico de Portugal, foram apresentados testemunhos e projetos de como em Portugal se procura ajudar à integração dos refugiados e à reconstrução de projetos de vida e de sonhos

O Comité Olímpico de Portugal (COP) e a Faculdade de Desporto da Universidade do Porto organizaram, com a parceria da VISÃO, a Conferência Migrações, Deporto e Religiões, que se propunha, entre outros temas, discutir o papel do desporto no acolhimento de refugiados, nas suas diversas dimensões. Foi nesse contexto que, na parte da tarde do encontro, o COP apresentou o projeto Viver o Desporto, Abraçar o Futuro, que visa exatamente apoiar a integração deste tipo de imigrantes que, nos últimos têm chegado ao nosso país. Entendendo o desporto como atividade que “potenciadora da coesão e inclusão”, Maria Machado, gestora de projeto do COP, explicou que a ideia é colaborar com as várias instituições, que, no terreno, trabalham na receção e acolhimento de refugiados, e com o apoio logístico e financeiro de empresas e instituições, nacionais e internacionais, no sentido de proporcionar a quem chega a Portugal a oportunidade “de praticar desporto, integrado em equipas” e, assim, ajudar a “integrar e juntar” os recém chegados nas comunidades locais.

A responsável do COP explicou, depois, mais detalhadamente a forma como o projeto se desenvolve, partido da identificação, por cada uma das estruturas locais de acolhimento, dos desejos e apetências dos refugiados. A partir daí, “o COP procura, em primeira análise, disponibilizar a cada o equipamento adequando à prática da modalidade escolhida”. Depois, “procura encontrar no seio da comunidade desportiva, clubes e instalações dispostas a receber os atletas”. Em algumas circunstâncias, quando o desempenho dos atletas assim o justifica, o COP esforça-se para os integrar num projeto mais ambicioso, desenvolvido pelo Comité Olímpico Internacional, denominado Solidariedade Olímpica, que consiste na atribuição de bolsas com vista à preparação desportiva e a uma possível integração na equipa internacional de refugiados para participar em Jogos Olímpicos. E, nesta vertente, foi apresentado o testemunho de Farid Walizadeh, refugiado afegão (cuja singular e exemplar história da vida a VISÃO contou na edição desta semana, já nas bancas), que cumpre neste momento a preparação tendo em vista a possível participação nas olimpíadas de Tóquio 2020 na modalidade de boxe. O velocista congolês Dorian Keletela, também presente na conferência, é o outro caso que o COP conseguiu integrar no projeto e sonha com uma presença nos Jogos Olímpicos.

Testemunhos de quem arregaçou as mangas

No seguinte painel da conferência, alguns dos parceiros do COP juntaram-se em mesa redonda, moderada pelo diretor executivo da VISÃO, Rui Tavares Guedes. Independentemente da região demográfica em que atuam ou do tipo de organização que representam, todos foram unânimes na importância do desporto na integração dos refugiados. Catarina Lima, da Plataforma de Apoio aos Refugiados, que, desde 2015 acolheu por todo o país cerca de 750 pessoas de 100 famílias, não tem dúvidas em enaltecer a capacidade que a prática desportiva tem na “normalização da vida destas pessoas”. Para esta responsável, “para além do bem estar e de ter até efeitos terapêuticos, o desporto fomenta a criação de vínculos”, permitindo que essa integração se faça “num plano de igualdade de estatutos, pois, dentro de campo, numa equipa, são todos iguais”.

Nuno Costa, coordenador do Centro de Acolhimento Temporário de Refugiados da Câmara Municipal de Lisboa, concorda e acrescenta que o esforço de integração dos refugiados se reveste de uma importância fulcral: “Ao contrário dos outros migrantes, que na sua maioria partem dos seus países com um plano e um sonho, os refugiados, aqueles que são obrigados a fugir, chegam cá com os sonhos destruídos, sem projeto de vida.” Daí que, na sua opinião, “o desporto é uma das formas mais eficazes de criar um novo sonho, um projeto de vida”.

Por seu lado, Dora Estoura, coordenador da Casa de Acolhimento para Crianças Refugiadas, do Conselho Português para os Refugiados, diz que estes refugiados “precisam de oportunidades”. Responsável por uma estrutura que já acolheu 1171 crianças, sabe, como poucos, que, apesar dos difíceis trajetos de vida pelos quais passaram, “estes jovens caracterizam-se pelos seus excecionais instintos de sobrevivência, por uma enorme resiliência e pelas capacidades de acreditar e vontade de recomeçar”. E diz isto, emocionada, apontando os exemplos de Farid Walizadeh e Dorian Keletela, os dois atletas que agora lutam por ir aos Jogos Olímpicos de Tóquio e, que, na chegada a Portugal, a tiveram a ela como “mãe adotiva”.

Igualmente inspirador foi o testemunho trazido por Jaime Ramos, Presidente da Fundação Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional de Miranda do Corvo, que explicou como, “partindo da ideia de bondade e fraternidade, mas com extrema dedicação e profissionalismo”, foi possível a esta instituição saída da sociedade civil, lutar para “combater o sofrimento”, ajudando à integração e capacitação não só de pessoas com deficiências, mas também de quase uma centena de refugiados, muitos dos quais continuam a viver em Portugal.

Outra vertente do fenómeno migratório em Portugal foi aquela que trouxe ao painel Rui Marote, Presidente da Associação de Futebol da Madeira, que tem desempenhado um papel fundamental no acolhimento e integração dos luso-venezuelanos que têm regressado à região. Dos cerca de 300 mil que chegaram nos últimos anos à Madeira, muitos encontraram espaço de integração “não só enquanto atletas”, salienta, “mas também na formação enquanto treinadores e árbitros”. Também na área do futebol, Joaquim Evangelista, presidente do sindicato de jogadores, aproveitou a presença na conferência para alertar, uma vez mais, para o fenómeno da “imigração ilegal de jovens jogadores de futebol, oriundos sobretudo da América do Sul e de África, que chegam ao nosso país com falsos contratos de trabalho, dando muito dinheiro a ganhar a agentes e empresários e que, com a conivência de alguns dirigentes se vêm, depois, abandonados à sua sorte, sem meios de subsistência ou para regressar aos países de origem”.

A parte final da conferência ficou entregue a Vítor Serpa, que explicou a importância da imprensa desportiva junto da diáspora. O diretor do jornal A Bola conta como, ao longo de décadas, o jornal que dirige foi importante para que as comunidades de emigrantes portugueses espalhadas pelo mundo mantivessem uma ligação ao país. E explicou como, atualmente, essa ligação se passou a fazer através do site do jornal, que chega a cada vez mais milhões de portugueses.

Para o fim, ficou a mensagem de paz e de diálogo trazida por David Munir, Imã da Mesquita de Lisboa e líder a comunidade muçulmana em Portugal.

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