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Inês Henriques: Uma heroína nada acidental

Desporto

Matthew Childs/ Reuters

Diz não ser um talento. Mas acreditou sempre que, com muito trabalho, chegava lá. É agora, aos 37 anos, campeã mundial dos 50 km Marcha, com um tempo recorde

Básquete 'out'

Em Rio Maior, uma rapariga ou um rapaz que não se inicie no desporto pela Marcha é, digamos assim, uma espécie de ET. Mas Inês Henriques ainda pensou em resistir a esse destino desportivo. Tentou o basquetebol. O jeito, porém, estava longe do que mostrava na Marcha, e os seus 1,58 m também não ajudavam. E, aos 12 anos, rendeu-se mesmo à modalidade--rainha de Rio Maior. Além do mais, a marchista Susana Feitor, atleta da terra, começava a dar nas vistas, a nível internacional, e a servir de ídolo às raparigas que enveredavam pela modalidade. Inês estreou-se em Mundiais de 20 km Marcha aos 21 anos, em Edmonton-2001 (Canadá). Foi desqualificada. Atirar a toalha ao chão? Jamais.

Treinar, treinar

Para lá do riso fácil, Inês apenas falta a um treino se um problema de saúde a puser de cama. De resto, não deve um só quilómetro ao seu treinador de décadas, Jorge Miguel. E os resultados, nos 20 km Marcha, apareceram. Por exemplo, ficou no 7º lugar nos Mundiais de Osaka, no Japão, em 2007, e na 9ª posição nos Europeus de Barcelona, em 2010. Nos Jogos Olímpicos, foi sempre a subir: 20º lugar em Atenas 2004, 15º em Londres 2012, e 12º no Rio 2016.

Desafio final

À beira dos 25 anos de carreira e dos 37 anos de idade, com mais de cem provas disputadas pelo mundo fora, o treinador de Inês propôs-lhe, em fins de 2016, um desafio: bater o recorde mundial dos 50 km Marcha, na posse, desde 2007, da sueca Monica Svensson, com 4:10:59 horas. A atleta de Rio Maior cerrou os dentes e atirou-se ao trabalho. E, em 15 de janeiro, tirou mesmo o recorde à sueca, numa prova em Porto de Mós. Fez 4:08:26 horas e foi duro. “Sentia que podia cair para o lado a qualquer momento”, confessou.

A pioneira

A federação mundial de atletismo (IAAF) só autorizou que os 50 km Marcha femininos integrassem os Mundiais de Londres a 12 dias do início, a 4 de agosto, dos campeonatos. Inês acreditou sempre que essa prova pioneira em Mundiais se realizaria – e treinou no duro. Apenas sete atletas alinharam à partida, no domingo, 13, e a portuguesa teve uma “carraça” na chinesa Hang Yin, que quebrou ao quilómetro 30. Seguiu-se a marcha triunfal de Inês, que bateu o seu próprio recorde mundial, com 4:05:56 horas. “Nunca fui um talento”, disse no fim. “Podemos não ser fantásticos. Mas se trabalharmos podemos lá chegar.” Foi o que os seus pais lhe ensinaram e ela também quis afirmar aos portugueses.

Artigo publicado na VISÃO 1276 de 17 de agosto