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Vanessa Fernandes e os 1254 dias para mudar o seu epílogo olímpico

Desporto

Vanessa Fernandes integrou a delegação aos Jogos Olímpicos dos Rio de Janeiro como suplente para disputar a Maratona

João Lima / Caras

Vice-campeã olímpica em 2008 vai anunciar regresso ao triatlo para terminar o que deixou por fazer com apenas 22 anos

Rui Antunes

Rui Antunes

Jornalista

As notícias sobre a morte desportiva de Vanessa Fernandes podem ter sido um exagero. E, na próxima segunda-feira, 27, a vice-campeã olímpica de triatlo, em 2008, dará mais um passo para demonstrar que esses relatos eram, afinal, precipitados: após o regresso à competição, em 2014, pela porta do atletismo, coroado com a obtenção de mínimos olímpicos logo na sua primeira maratona, é tempo de anunciar as pazes com o triatlo e voltar ao projeto que deixou a meio com 22 anos, precocemente extenuada, logo a seguir à conquista da medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Pequim.

De ambição renovada, Vanessa Fernandes aposta num regresso ao mais alto nível em 2020, no palco olímpico de Tóquio e na modalidade em que ganhou tudo o que havia para ganhar, com exceção do ouro nos Jogos Olímpicos. Uma dúzia de anos e vários problemas de saúde depois (esteve internada por depressão, anorexia e bulimia), estará a um mês dos 35 quando chegar o dia 3 de agosto, a data prevista para a prova feminina de triatlo. Não muito longe da capital chinesa onde subiu ao pódio em 2008 – com o Mar Amarelo, o Mar do Japão e a península da Coreia pelo meio.

Se é tarde demais para reatar o que foi deixado para trás, o tempo o dirá. No pai tem um exemplo de longevidade a que se pode agarrar: Venceslau Fernandes ganhou a volta a Portugal com 39 anos – uma idade em que a maioria dos ciclistas já entrou na reforma – e permaneceu no pelotão até aos 46.

“Fechada” no Centro de Alto Rendimento do Jamor desde os 15 anos, numa rotina diária de comer, dormir e treinar, treinar, treinar, Vanessa esgotou a sua resistência mental para o desporto demasiado jovem. Antes de Pequim, veio a saber-se mais tarde, já dava sinais de grande desgaste emocional e, depois, entrou numa espiral destrutiva (que promete partilhar um dia mais tarde) que a levou a suspender a carreira, em 2011.

Só voltou a competir três anos mais tarde, deixando de lado a natação e o ciclismo – duas das três modalidades do triatlo - e dedicando-se em exclusivo ao atletismo. A presença nos Jogos do Brasil, no verão passado, como suplente na equipa portuguesa de maratona – só podem participar três atletas de cada nacionalidade e Vanessa era a quarta da hierarquia nacional, atrás de Jéssica Augusto, Dulce Félix e Sara Moreira -, parece ter alimentado ainda mais o desejo da atleta do Benfica de encerrar o capítulo olímpico a competir, e não como mera “hóspede” da Aldeia Olímpica. Das suas declarações públicas por essa altura transpareceu claramente essa vontade. Só não era inequívoco o regresso ao triatlo. A partir de segunda-feira, será oficial: Vanessa terá 1254 dias para preparar um epílogo à sua medida, na modalidade lhe deu a glória antes de a levar ao inferno.