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Um 'Jobs' para boys - Realidade vs ficção

Cultura

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Ashton Kutchner vestiu a pele de Steve Jobs, aqui retratado na sua época de hippie desconfiado da equipa

Grandes expectativas foram criadas em torno do filme sobre Steve Jobs que estreia no próximo dia 22. Mas o retrato do animal feroz da Apple é um esquisso amansado. O que é que 'Jobs' revela de novo? Quase nada. Seguem-se alguns exemplos mal explicados no filme

'Larger than life?" Lamentamos mas o spoiler é inevitável: o filme Jobs, que a VISÃO viu em primeira mão, não se enquadra nessa categoria, ao contrário da história que deseja contar. São poucos os que conseguiram uma influência global como a do norte-americano Steve Jobs (1955-2011), criador da Apple, líder carismático que revolucionou a maneira como olhamos a tecnologia, antes de desaparecer, aos 56 anos, vítima de cancro. Com este material, só faltava usar cor, imagem e criatividade (as ferramentas 'jobsianas') para criar um grande objeto cinematográfico. Mas faltou energia, compatibilidade, rede... Comecemos pela fonte de alimentação.

O argumentista Matt Whiteley criou um guião-wikipédia: aborda os pontos essenciais.

Vemos o estudante rebelde que andava descalço à semelhança de um profeta menor; o hippie vegetariano e zen; o obcecado de feitio difícil; o pai jovem que rejeitou a primeira filha; o génio expulso do seu próprio império; o regresso triunfal à empresa-mãe. Mas todo este material riquíssimo é (quase sempre) tratado em termos tão gerais, tão genéricos, que parece estar a fazer scroll: há que chegar rapidamente ao fim.

Não é que o guru da Apple tenha sido branqueado: o lado negro da sua personalidade está presente na história de 1974 e 2001, quando é apresentado o iPod. Mas a sensação incómoda é a de que Jobs poderia ser um telefilme pedagógico para recrutas da Apple. Ao realizador Joshua Michael Stern faltou capacidade: oscila entre a competência, a hagiografia visual sublinhada com arroubos orquestrais despropositados, e a pouco subtil exibição da técnica de Ashton Kutcher há planos que parecem feitos apenas para mostrar a peculiar forma de andar de Jobs. O ator conseguiu uma surpreendente semelhança física: os tiques foram bem estudados. Mas falta-lhe quase tudo o resto. E os fãs de Jobs mereciam emoção, inspiração, e até voyeurismo.

Alguns exemplos mal explicados no filme:

  • As raízes familiares

A realidade

Steve Jobs foi adotado por John e Clara Jobs, um mecânico de carros sem estudos superiores e a esposa estéril, pouco depois do seu nascimento, em 1955. Os pais biológicos, Abdulfattah "John" Jandali e Joanne Schieble tinham ambos 23 anos quando esta engravidou; ele era muçulmano, benjamim de uma importante família síria, ela descendia de família católica que ameaçou repudiá-la se houvesse casamento. Ao biógrafo Walter Isaacson, autor de Steve Jobs (Objectiva, 2011), Steve recusou a leitura do "pobre-menino-abandonado-que-se-transforma-num-adulto-controlador-para-serdesejado-pelos-pais-de-sangue". Mas amigos como Andy Hertzfeld (engenheiro de software que foi companheiro de Jobs na equipa Mac original) defendem que o tema do abandono era crucial na compreensão do temperamento de Jobs. "Eles [os pais biológicos] foram o meu banco de esperma e de óvulos isto não é ser duro, é apenas o que aconteceu", afirmou. Admirava era os Jobs, sobretudo o pai, que o inspirou a fazer bem as coisas, mesmo as que não eram visíveis, e a preocupar-se com o design.

A ficção

Uma das primeiras cenas do filme mostra Steve aos 19 anos, a "viajar" com LSD com a namorada, Chrisann Brennan, e o melhor amigo, Daniel Kottke. Chora: "Quem é que tem um bebé e, depois, o deita fora?" Daniel urge-o a não ir por aí. "Lamento que a minha vida esteja a dar cabo da tua pedrada", é a resposta. E, insuflado por uma epifania, corre pelo campo ("De repente aquela seara de trigo estava toda a tocar Bach. Foi a sensação mais maravilhosa da minha vida até esse momento", explica na biografia). O assunto da genealogia fica despachado, e Jobs tem parcas cenas com os pais adotivos: a mãe é mostrada como solícita, o pai cede a oficina para a start up Apple.

 

  • O caminho espiritual

 

A realidade

Na universidade de Reed, Steve Jobs explorou a realização pessoal em vez das aulas. Deixa-se influenciar por obras sobre espiritualidade, como Be There Now, um guia sobre meditação escrito pelo guru Baba Ram Dassm. Ou Diet for a Small Planet, de Frances Moore Lappé, uma defesa dos benefícios do regime vegetariano. É então que Jobs inicia os jejuns radicais que praticaria vida fora. Frequenta o templo dos Hare Krishna, em Portland, e a comuna All One Farm. Deixa-se fascinar por Robert Friedland, um colega carismático com quem aprende a ser o centro das atenções. "Friedland ensinou a Jobs o campo de distorção da realidade (...) Era um grande comunicador, seguro de si, um pouco ditatorial", descreveu Daniel Kottke. Já a trabalhar na empresa de jogos Atari, Jobs fará uma viagem de sete meses pela Índia, o último trimestre acompanhado por Kottke. Quando regressa, frequenta retiros de meditação.

A ficção

Jobs começa com o despertar do protagonista numa sala comum da universidade, abraçado ao livro Be There Now. "Já acordei." Descalço, pouco motivado, porque, defende, "o ensino superior sacrifica a experiência", deixa de pagar as propinas e só vai às aulas que lhe interessam - caligrafia, por exemplo. Como se de um trailer se tratasse, há três ou quatro imagens de Jobs e Kottke junto a templos hindus, um plano fugidio de um guru oriental, uma frase que resume a caminhada espiritual: "Sê o mais simples possível." 

 

LEIA MAIS EXEMPLOS NA VISÃO QUE ESTÁ NAS BANCAS:

- A ascensão da Apple

- O regresso triunfal