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Um convite à viagem

Cultura

Em direção a Paris, Buenos Aires ou Lisboa, a voz de Cristina Branco guia-nos em voos livres, mas seguros. VEJA O VIDEOCLIPE da música Invitation au Voyage e oiça Cristina a cantar Baudelaire

"Como é que sabias que era isto que eu queria que tu dissesses?", escreveu Cristina Branco a Pedro da Silva Martins, depois de ler, pela primeira vez, a letra de Não Há Só Tangos em Paris. A canção que dá título ao novo disco da cantora (a lançar na próxima segunda-feira, 28) tem a assinatura do músico e compositor dos Deolinda - esse mesmo, autor de Parva Que Sou, a canção promovida a hino de geração e que tomou o país de assalto. Conheceram-se num concerto partilhado no Castelo de S. Jorge, em Lisboa, mantiveram o contato, e Cristina lembrou-se de Pedro para lhe propor a escrita de um fado ou de um tango para o seu novo disco. "Ele fez-me um fado em que fala do tango em Paris... Achei piada como ele foi buscar todos os elementos que eu queria, juntou universos que eu não sabia bem como ligar, e a canção tornou-se o fio condutor de todo o trabalho."

Fado-tango

Em Não Há Só Tangos em Paris ouve-se castelhano, francês e português. Línguas que denunciam as viagens escolhidas para este disco - "No fundo, isto é sempre uma viagem; as pessoas, os encontros...", dirá Cristina Branco sobre o seu trabalho. Neste caso, o ponto de partida foi mesmo on the road ao som de um clássico da América Latina. "Íamos na estrada, eu e os músicos todos, num país qualquer, ouvi a canção Dos Gardenias e soube-me tão bem que pensei logo 'Bolas! Adorava cantar isto!'. De facto, foi nesse instante que nasceu este disco." E, agora, Cristina Branco juntou-se mesmo à imensa lista de cantores que gravaram este bolero composto na década de 30 do século passado pela cubana Isolina Carrillo. Do bolero ao tango vão dois passos rápidos, ritmados e... "Comecei a juntar vários elementos para conceber este fado-tango, é disso que se trata: fado-tango." Afinal, a distância musical que vai de Buenos Aires a Lisboa não é assim tanta: são cidades que cantam, há décadas, os mesmos sentimentos, com bandas sonoras diferentes. "O tango é mais histriónico, mais visual, muito mais desbocado, espontâneo e ousado; o fado é mais contido, mais reservado, mas faz todo o sentido ligar os dois universos."

Quando se deu a conhecer como cantora, no final dos anos 90, muitos apressaram-se a fechar Cristina Branco na gaveta, muito em voga, das novas fadistas. Mas já então era uma arrumação pouco acertada. "Sou uma cantora, e ponto final", diz. Para logo acrescentar: "Uma cantora que também canta fado, mas ser fadista tem qualquer coisa a ver com uma atitude, e eu não sei se tenho essa atitude... Nunca me vi num quotidiano de casas de fado, por exemplo; respeito-as muito, gosto de lá ir, de vez em quando, mas não é o meu mundo. Gosto de, e preciso de, cantar outras coisas". Ponto final.

'Sou eu'

Quando fala em "juntar vários elementos", Cristina Branco está, certamente, a referir-se aos convites que sempre faz a gente das palavras e da música, que admira: a Carlos Tê pediu uma letra e música ("Ficou muito envergonhado...", mas escreveu e compôs Canção de Amor e Piedade), a António Lobo Antunes, por via do amigo comum Júlio Pomar, pediu um fado (Quando Julgas que Me Amas), a Manuela de Freitas pediu um tango (Talvez) e ainda ganhou um fado de bónus (Se Não Chovesse Tanto Meu Amor, que abre o disco)... "Juntar vários elementos" significa, ainda, a procura de um alinhamento sem fronteiras: em Não Há Só Tangos em Paris canta Jacques Brel (Les Désespérés), um tango celebrizado por Gardel (Anclao en Paris), um poema de Baudelaire (Invitation au Voyage; "convite à viagem", que esteve para ser o título do novo disco), musicado pelo pianista João Paulo Esteves da Silva, ...

O resultado é estranhamente coerente, do princípio ao fim do disco. E não é só a voz, sempre presente e inconfundível, de Cristina Branco, a dar-lhe coerência. A isto chama-se encontrar um som, um estilo próprio. "Sou eu", tenta auto-explicar-se Cristina Branco, "e as decisões que tomo, as pessoas que me rodeiam."