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Ricardo Araújo Pereira: "Quero risos e não aplausos"

Cultura

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Venceu o Grande Prémio da Crónica da Associação Portuguesa de Escritores. Leia aqui excertos da entrevista que deu esta semana à VISÃO, na qual assume que está "farto" dos atuais governantes

Já foi homem do ano, o entrevistador mais esmiuçador de políticos, ministro-sombra (ainda é), autor de sketches diários, nas Manhãs da Comercial... Com o prémio da Associação Portuguesa de Escritores pelas crónicas da VISÃO firma-se melhor o pé que já tem na literatura. Mas ele ainda hesita em intitular-se escritor. Tem demasiado respeito pela palavra

Este prémio de escritores para as suas crónicas significa um patamar mais firme do seu lugar na literatura?

RAP - Não diria isso, o prémio tem importância relativa, foi o gosto daqueles jurados naquele ano, eu agradeço muito, mas não é garantia seja do que for.

E o facto de estar acompanhado por outros, anteriormente premiados, todos eles com estatuto de escritores?

Os outros premiados não têm culpa nenhuma, não merecem esta vergonha. Não vejo que o prémio seja uma carta de condução que me habilita ao estatuto de escritor. Esse estatuto não desejo nem procuro. A minha profissão é ser humorista.

Mas porque não? Há escritores humoristas...

Sim, claro. Mas não é o meu caso. Eu não sou um escritor. Nos EUA eles não têm o mesmo respeito que nós pela palavra escritor: alguém que escreva qualquer coisa é writer. O Philip Roth e o autor da comédia mais reles são ambos designados por escritores. Para nós, a palavra tem outras conotações.

O Manuel António Pina definia crónica como jornalismo com saudades da literatura e literatura com remorsos de ser jornalismo...

As dele eram claramente isso. As minhas crónicas são humorísticas, são diferentes. Um texto de um escritor tem objetivos estéticos, e eu, em primeiro lugar, tenho uma preocupação de eficácia. Isso é uma coisa curiosa da comédia que nenhum outro género tem. A possibilidade tangível de eficácia prática. É possível medir o sucesso de uma piada, por exemplo.

Na crónica também há timings como na comédia, tem de começar a ter graça à sétima linha por exemplo?

Aquilo só resulta se provocar o riso, e é o meio em que estou mais despojado de instrumentos. Na rádio, e na televisão tenho som, imagem, e texto. Na crónica tenho palavras seguidas num papel. Fazer rir pessoas através de signos distendidos numa folha é mais difícil do que se eu puder fazer uma careta ou colocar um bigode.

Mas para si deve ser tão intuitivo que já nem reflete na forma mais eficaz de compor a crónica...

Tenho uma aversão enorme àquela perspetiva de talentos inatos. Sinceramente não acredito que ninguém nasça "com isto do humor". Custa-me acreditar que um animal nasça com um talento inato para praticar um desporto que foi inventado no século XIX... Acho difícil que a natureza esteja atenta ao ténis e produza um bicho que tenha um talento inato para jogar aquilo. Embirro imenso com isso do talento. Não conheço nenhum estudo sério sobre talento, mas sobre criatividade sim, e sérios, mas nenhum diz que ela é inata. Eu fui aprendendo desde pequeno, porque me interesso pelo riso. Interesso-me imenso por fazer rir pessoas e gosto daquilo que acontece quando elas se estão a rir. Desde pequeno que me fascina e sempre tentei perceber quais os mecanismos que fazem funcionar o riso. Isso tem algumas "regras", o que é prosaico, algumas convém conhecê-las para as transgredir, e usar de outra maneira, para as corromper, mas acho que é fundamental conhecê-las. Essas regras já estão interiorizadas por mim, assim como o carpinteiro não pensa "isto agora requer uma plaina", ele já lança a mão à caixa de ferramentas naturalmente.

Ultimamente as crónicas da VISÃO andam muito presas à atualidade..

RAP - Nem sempre foi assim. Às vezes, eram sobre minudências quotidianas, mas nestes tempos a realidade tem-se imposto com tanta força... É um bocado cansativo, se quer que lhe diga. Há um número limitado de coisas que se pode chamar ao Vítor Gaspar, precisava que arranjassem outro; já estou farto destes, precisava que se renovassem.

Não sente que ser ativista político é quase um dever cívico hoje?

RAP - Até pode ser, mas não é ali que eu vou fazê-lo. Muitas vezes sou convidado para sessões sobre sátira política, e quando chego lá apercebo-me que a única pessoa interessada em sátira sou eu, de resto toda a gente está interessada em política. Eu não votei neste governo, não tenho rigorosamente nenhum apreço pelo que eles estão a fazer, mas o meu trabalho é fazer rir as pessoas. E é isso que as pessoas esperam de mim, e bem. Assim como espero que um canalizador ponha os canos a funcionar como deve ser, por muito que ele não concorde com o que o Governo está a fazer.

Mas as pessoas exigem mesmo mais de si, como se o Ricardo pudesse funcionar como a oposição...

Não me parece que isso seja legítimo. Estamos em democracia, não votei nestes tipos mas a esmagadora maioria dos meus compatriotas votou. Toda a gente que escreve parte de um ponto de vista. O próprio humor é um ponto de vista sobre as coisas diferente daquele a que estamos habituados, provavelmente até inverso. De facto, os meus textos refletem o meu ponto de vista.

  • LEIA A ENTREVISTA NA VISÃO DESTA SEMANA, QUINTA-FEIRA NAS BANCAS

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