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Manuel Castro Almeida: 'Ensinar chinês a um filho será melhor que um dote'

Cultura

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Em área é o mais pequeno município do País, mas nem por isso São João da Madeira deixa de ter ambições grandes. Apesar de apenas uma reduzidíssima parte dos seus 21 700 habitantes serem chineses, o presidente da Câmara descobriu no estudo do mandarim a receita do futuro  

É verdade que vai introduzir o mandarim no ensino oficial do concelho?

Já em janeiro será introduzido em todas as escolas, no 3.° e 4.° anos do ensino básico. Além disso, vamos pedir autorização ao Ministério da Educação para criar pelo menos uma turma bilingue numa escola, desde o 1.° ao 12.° ano. Será um sistema semelhante ao do Colégio Alemão ou do Liceu Charles Lepierre, em Lisboa, com algumas cadeiras numa língua e outras noutra. Também no Instituto de Línguas de São João vamos pagar mais de metade da inscrição a quem for aprender mandarim. 

São João da Madeira tem uma comunidade chinesa significativa?

Nem por isso. Não é maior do que a de outros concelhos.

Então como lhe veio esta ideia?

Os portugueses têm de aprender aquela que será a língua de futuro para quem quiser fazer negócio. Não vai ser possível estar no mercado mundial sem entrar na China e, por isso, saber a língua corresponderá a uma mais-valia. Quem tiver oportunidade de ensinar chinês a um filho vai ser melhor do que era dantes dar um dote a uma filha.

Devemos interpretar a iniciativa como mais um convite a que os jovens imigrem?

Nada disso. São João da Madeira já é um concelho muito virado para a exportação e tem potencialidades para crescer muito mais nesse sentido. Alguns dos nossos industriais, designadamente de calçado, começaram a abrir lá lojas e sentem a falta do mandarim.

Que resultados pensa conseguir?

Considero uma missão histórica repensar Portugal para o futuro, porque ainda somos um pequeno país exportador. Se conseguirmos ficar com uma pequeníssima parte das importações chinesas, isso já representará várias vezes as nossas exportações atuais. Estamos a falar de um mercado enorme e com um poder de compra em crescimento rápido.

Mas o que pode São João da Madeira exportar para a China?

Olhamos muito para lá como o país de onde vêm artigos baratos. E, para vender esses artigos aqui, eles nem precisam de falar português, basta porem o preço na montra. Para vendermos lá, temos de seguir a lógica contrária, com artigos de qualidade, que incorporem moda, design. Nesse caso, o preço não vende por si próprio. Há que explicar a mais-valia, e as elites e os homens de negócios chineses não falam inglês. Não queremos vender na China sapatos baratos, o que é curioso, porque nos últimos anos o calçado barato deles é que deu cabo do negócio aqui. Também já temos negócios na área da metalomecânica, e podemos vir a ter nos vinhos, no mobiliário, nas rolhas...

Voltando aos seus cursos. Como vai contratar os professores?

Serão cerca de metade chineses e metade portugueses, contratados através da Universidade de Aveiro, que coordenará todo este projeto. Contaremos também com o apoio da Escola Portuguesa de Macau.

No ensino básico as aulas serão de uma hora por semana. Claro que as crianças não sairão de lá a falar mandarim, mas quebra-se o gelo, a ideia de que é uma língua impenetrável. O objetivo será ficarem a saber 60 carateres por ano. E se, daqui a uns anos, tivermos 200 ou 300 pessoas que falem mandarim, já mudará por completo o panorama empresarial da região.

As famílias não acham bizarro? Ainda há pouco o inglês se tornou obrigatório no ensino básico.

A ideia foi muito bem acolhida quer pelas famílias, quer pelas direções das escolas. E isto não vai substituir de modo algum o inglês. O mandarim será a somar.