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GNR: Independança em 2015

Cultura

E, ao 12º disco de estúdio, os GNR decidiram cortar as ligações às grandes editoras. Com a "sensação de libertação" e "alívio", avançaram para uma produção independente e regressaram às canções pop que só eles sabem fazer

Sempre que a expressão "caixa negra" entra, repetida nas notícias durante alguns dias, pelas nossas vidas dentro, sabemos que não é por boas razões. É certo que pouco antes houve um acidente aéreo, quase sempre trágico.

Na história dos GNR, o novo disco Caixa Negra (que chega esta segunda-feira, 23) sucede a Voos Domésticos, lançado em 2011. Faz sentido. O grupo continua a apostar no imaginário da aviação e, mesmo involuntariamente, reconhece o acidente lá atrás que a tardia revelação de uma "caixa negra" ajuda agora a superar. Voos Domésticos, um disco em que os GNR faziam novas versões de 13 canções suas de várias épocas, com a ajuda de Flak (Rádio Macau) como produtor, não correu bem. Nas páginas do extinto Atual, do Expresso, o crítico João Lisboa falava do "massacre que, perante todos nós, os GNR acabam de perpetrar sobre 13 temas do seu património privado" e de uma "cirurgia estética que correu desastrosamente mal." O disco não lhe merecia mais do que uma bolinha preta, o mínimo da tabela. Quatro anos depois, o baterista e compositor dos GNR Tóli César Machado, o mais antigo membro do grupo, seu fundador em 1980, não tem uma opinião assim tão diferente sobre esse disco. "Não era uma coisa muito querida por nós, foi uma proposta da [editora] EMI, que insistiu muito em fazermos um disco de versões... Aceitámos, mas não havia grande entusiasmo da nossa parte", recorda. "Demos o benefício da dúvida, 'pode ser que corra bem...', mas não correu, pronto. Não é um disco de banda."

'Orgulhosamente sós'

Em 2015, a grande novidade de Caixa Negra está menos no seu conteúdo - um regresso às canções pop que só os GNR sabem fazer - do que na forma como nos chega. Os GNR são, sem margem para discussões, uma das mais importantes bandas portuguesas das últimas décadas. A vários níveis: foram provocadores, vanguardistas e experimentalistas mas também comerciais, populares, capazes de encher estádios. Com uma venerável carreira de 35 anos, ocupam um espaço só deles, lá no alto. Por tudo isso, não deixa de ser significativo que tenham optado agora por uma edição independente, de autor (Caixa Negra tem o selo da IndieFada, uma marca criada pela banda para este lançamento), longe das grandes editoras multinacionais que têm acompanhado o seu percurso. No pequeno estúdio que, desde finais do século passado, ocupam num velho e pouco movimentado centro comercial de Matosinhos, Tóli César Machado, Rui Reininho e Jorge Romão falam a uma só voz: "Temos que nos adaptar à forma como o mercado evolui." Mas o que quer isso dizer, exatamente? Tóli é o mais lesto a dar explicações: "O que se ganha hoje - ou o que não se ganha... - com as vendas de discos é ridículo. Mas para trabalharmos com uma multinacional, das poucas que ainda há cá, além de não ganharmos muito ainda temos que pagar. Não faz sentido nenhum insistir em ir por aí." O músico refere-se a alguns métodos com que a indústria musical tem tentado contornar a colossal quebra de vendas de discos dos últimos anos. O mais polémico e discutido por quem faz música ?(e "uma coisinha quase secreta", diz Rui Reininho) tem a ver com a negociação de uma percentagem cobrada pelas editoras sobre os ganhos com os concertos. O vocalista dos GNR exemplifica: "Nós fomos tocar há pouco tempo a Vinhais, ensaiámos à uma da tarde e subimos ao palco à noite com dois graus negativos - 'mas um agradável cheirinho a alheira', interrompe Jorge Romão - e está um gajo num gabinete a ganhar uma parte do que recebemos por estarmos ali? Foi muito simpático, a nossa vida é assim mesmo, mas não pensem que é fácil, ao fim de todos estes anos, ser assim, todo-o-terreno". "Quem puxou pela nossa carreira fomos nós, nunca foram as editoras", acrescenta Tóli. E vai mais longe: "Acho que fomos muito prejudicados pela indústria musical, que nem sempre fez bem o seu papel: ajudar a vender os discos, promover-nos bem. Agora libertámo-nos das mesmas tretas de sempre, falsas promessas que nunca eram cumpridas." Acumularam algumas mágoas pelo caminho, como o facto de nunca terem editado um DVD... "Agora, só se for com hologramas", brinca Reininho.

"Já que não há retaguarda nem apoio, continuamos orgulhosamente sós", diz Jorge Romão, com aquele ar de miúdo feliz e traquina que as tais três décadas de carreira não apagaram. Essa sensação de "libertação" e "alívio" acabou por resultar em sessões de gravação "muito descontraídas", sem nenhum peso em cima.

'Ainda dá para mais um ano?'

No número 168 da VISÃO (este que está a ler, caso ainda não tenha reparado, é o 1150), datado de 5 de junho de 1996, dava-se conta do lançamento da primeira coletânea the best of dos GNR (o álbum duplo Tudo o Que Você Queria Ouvir). Perante essa revisão da matéria dada, essa casa arrumada, esse olhar para o passado, perguntávamos logo a abrir: "É o prenúncio da morte?" Março de 2015 é um bom mês para responder a essa pergunta: não, não era. "Já nos fizeram muitos funerais, felizmente nunca foi de corpo presente", ri-se Rui Reininho.

Quando o single Portugal na CEE chegou, com frescura e estardalhaço, às lojas, em março de 1981, faltavam ainda cinco anos para o País assinar o tratado de adesão à Comunidade Económica Europeia, que então contava apenas com dez países... Nessa sua estreia discográfica, os GNR eram Tóli César Machado, Alexandre Soares, Vítor Rua e Mano Zé. Até ao lançamento, na próxima semana, do álbum Caixa Negra, o grupo, com várias formações, já passou pelos mais variados contextos da indústria musical, da história do País e dessa espuma dos dias a que a música pop é tão sensível. "Isto é por épocas, como as épocas futebolísticas. Será que ainda dá para mais um ano? Será que a gente ainda consegue viver disto e para isto?", pergunta retoricamente Rui Reininho. Mas Tóli dá uma resposta: "Enquanto houver um bom feedback nos espetáculos, pessoas que vêm ter connosco a perguntar por um disco novo, vamos continuar... Eu gosto imenso de fazer canções e de as tocar ao vivo, acho que vai um bocado por aí: quem corre por gosto não cansa."

O passado deu para tudo. E é suficientemente vasto para que os músicos se percam nele: aquele "disco dos gansos ou lá o que é", diz Tóli César Machado (a propósito de Do Lado dos Cisnes, de 2002) dando o exemplo de um momento em que tentaram "uma coisa diferente" que não correu lá muito bem... ?O auge de vendas e aclamação pública aconteceu na sucessão In Vivo (de 1990, disco duplo ao vivo gravado no Coliseu dos Recreios) e Rock in Rio Douro (de 1992, com os hits Sangue Oculto e Pronúncia do Norte). "Esse disco passava quase todo nas rádios, não havia ainda tanta formatação dos airplays como há hoje", recorda Jorge Romão.

Caixa Negra tem pouco mais do que meia hora de novas músicas ("como a duração de um disco de vinil", dizem) e, apesar de haver vários momentos em que se pressentem déjà--vu e autocitações (como não?), tem só uma assumida revisitação de um tema antigo: Desnorteado em 2015, versão de uma canção de 1984, do disco Defeitos Especiais. A maior parte das músicas estavam feitas ("Essa é a minha maneira de trabalhar, ter sempre coisas em carteira", diz Tóli) e Rui Reininho mergulhou tanto nas suas gavetas como na sua mente alucinada de jogador de palavras - "Às vezes são mantras meus... Ou é como a caligrafia dos médicos: aquilo significa qualquer coisa mas nem toda a gente decifra", diz, sobre as suas letras, o mais bem desafinado cantor da pop nacional. A fazer a diferença está uma estreia num álbum dos GNR: o trabalho com o produtor Mário Barreiros. "Houve confiança", concordam todos, elogiando-lhe a capacidade de "aproveitar o melhor que a banda tem para dar, em vez de impor as suas ideias."

Há um certo desencanto, que vai bem com o ar do tempo, a percorrer, aqui e ali, as letras do novo disco dos GNR (o single, com um inspirado vídeo realizado por André Tentúgal, chama-se Cadeira Eléctrica). Mas por outro lado, Rui Reininho, 60 anos acabados de fazer, não sente culpa pelas boas energias e bons momentos: "Nestes últimos anos, houve bastantes espetáculos dos GNR e cheguei a ver gente indignada quando dizia 'obrigado por nos terem mantido nesta vida', gente a dizer 'estou desempregado e vocês ainda gozam...', mas eu não tenho culpa de estar a ser feliz nesses momentos, peço desculpa pelos orgasmos, se calhar devia estar impotente, mas olhem, correu mal...". 

Por uma vez, podemos sorrir, dançar e descontrair com a entrada da expressão "caixa negra" nas nossas vidas. 

 



 

Bem-vindos ao presente

São dez novas canções, sendo que uma delas - Desnorteado em 2015 - é a versão de um tema de 1984, do álbum Defeitos Especiais. O disco, produzido por Mário Barreiros, arranca com o tema que lhe dá título e Caixa Negra funciona, desde os primeiros acordes, como prova de vida dos GNR, inspirados e de volta às suas canções, sem quererem inventar a roda. Triste TiTan, por exemplo, uma "sereia no topo do bolo", devolve-nos, ao mesmo tempo, o lado mais solar e mais melancólico do grupo. MacAbro, a fechar, recorda o lado mais surrealista e dada de Reininho, embalado por uma melodia a la Kurt Weill.