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Entrevista a Manuel António Pina

Cultura

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Entrevista de vida realizada por Pedro Dias de Almeida (editor de cultura da VISÃO), em 2009    

Entre muitas memórias, recorda aqui Manuel António Pina que em criança via o mundo como uma estrutura circular - adultos que regressavam a crianças enquanto as crianças se faziam adultas,universos dentro de universos como bonecas matrioscas, mínimas e gigantes... Também o seu discurso é muito assim. Estórias vão dar a estórias que vão dar a estórias que vão dar a estórias... Nem sempre interessa a viagem mais curta entre o ponto A e o ponto B, o melhor percurso pode ser o mais circular e sinuoso. Mas o autor raramente se perde nestes caminhos, raras vezes pergunta: "E isto vinha a propósito de quê?".

As palavras percorrem toda esta entrevista, como na vida de Manuel António Pina: as das memórias ancestrais - algumas aqui reveladas pela primeira vez - , as do jornalismo - que praticou na redacção do Jornal de Notícias, onde hoje assina uma crónica diária, Por Outras Palavras -, as do direito - que chegou a exercer, depois de tirar o curso "sem ir a uma única aula", em Coimbra -, as da literatura - que o celebrizaram, sobretudo na poesia, mas também no teatro, na ficção, na escrita para a infância -, e as das misteriosas e incompreensíveis investigações da física contemporânea - que gosta de ler e lhe dão "serenidade".

Realizou-se esta conversa, entre gatos, os seus oito gatos, no apartamento do escritor, no Porto, uma semana antes da homenagem que, a 4 de Abril [de 2009], lhe promoveu a Junta de Freguesia do Sabugal. Ali nasceu Manuel António Pina há 65 anos, numa casa que agora revela esse facto - acaso? - a quem a olhar com atenção. Em palavras, numa placa. Palavras escritas. Talvez a melhor forma possível de revelação.

[As palavras escritas que se seguem devem ler-se como quem ouve]

Há vários temas recorrentes no teu discurso poético. Um deles é a infância. E, às vezes, associada à infância aquela ideia do regresso...

A casa. É engraçado, e agora vou lá ao Sabugal, à primeira casa de todas...

E perguntava-te se quando falas nisso há uma casa concreta na tua cabeça, uma casa a que sempre voltas...

Lá do Sabugal pediram-me um verso para pôr lá na placa, na casa. Encontrei vários versos que falam nisso mas nenhum que servisse para pôr lá, eram todos muito grandes. Em alternativa propus-me ler alguns poemas que falam da casa, do regresso a casa. Mas... Não há nenhuma casa concreta, de facto. A casa é a origem, é a morte. Tenho um livrinho pequenino que se chama Um Sítio Onde Pousar a Cabeça, e a casa é também isso, o sítio onde pousar a cabeça. Isso em termos mais gerais. Agora, em termos mais particulares: eu tive uma vida... saí de lá do Sabugal, descobriram agora, com seis anos... eu não me lembro. O meu pai tinha uma profissão - era chefe de finanças, que acumulava com juíz das execuções fiscais - que estava abrangida pela lei do sexanato, só podia estar seis anos em cada terra. A ideia era mesmo não deixar criar raízes, amigos, influências, essas coisas. Como na altura não havia escolas e liceus em todo o lado, o meu pai começava a pensar mudar logo ao fim de três ou quatro anos para sítios onde houvesse ensino para mim e para o meu irmão... No sítio onde gostou mais de estar, que foi na Sertã, a situação arrastou-se, arrastou-se, e ao fim de seis anos foi mandado para os Açores, para Santa Cruz da Graciosa, mas como eu sofria dos pulmões conseguiu mudar... Para mim, tudo isto teve uma consequência: era uma situação quase de Sísifo, estava sempre a fazer amigos e a desfazê-los, e a fazê-los de novo com a consciência que eram para ser desfeitos, a estabelecer relações sabendo que iam acabar ao fim de três ou quatro anos. Os amigos mais antigos que eu tenho são aqui do Porto, de quando cheguei, aos 17 anos. E aqui, como havia vários bairros fiscais, o meu pai ia mudando de bairro.

Mas quando falas de casa nos teus poemas da infância, nunca é essa casa do Sabugal? Não tens nenhuma recordação dela?

Tenho... Mas agora confundo porque já lá voltei uma vez. A senhora que comprou a casa dos meus pais convidou-me uma vez a entrar. Tinha umas memórias assim muito obscuras. Ainda tenho uma espécie de melancolia por andar sempre assim a mudar de casa... Mas tenho memórias, claro. Lembro-me de alguns nomes de miúdos, mas não tenho amigos da escola primária. Fiz a primeira classe em Castelo Branco, a 2ª, 3ª e 4ª na Sertã, o 1 º ano de Liceu em Cernache do Bom Jardim, depois Santarém, o 3º outra vez em Cernache, o 4º em Oliveira do Bairro, o 5º e 6º em Aveiro, e o 7º é que já fiz aqui no Porto. Eu detesto viajar. Uma vez estava em Bordéus, fizeram-me uma entrevista e a jornalista disse-me "se calhar não gosta de viajar por ter andado tanto de terra em terra", e  eu tomei consciência disso, que se calhar é verdade... O melhor das viagens, para mim, é o regresso. Quando chego ao Porto, quando sei que atravessei a fronteira... Digo num poema meu: "O ideal é não nos afastarmos da casa mais do que nos permite metade das nossas forças", que é para regressarmos. E falo também de "ver sempre ao longe a cor do nosso telhado". O meu percurso biográfico sublinhou essa melancolia em relação às origens, à casa... Esta homenagem no Sabugal até me permite o reencontro com uma casa concreta, com raízes concretas... Na verdade, nunca tive raízes em parte nenhuma.

Mas nasceste ali, naquela casa.

Nasci ali, sim, naquela casa. E a minha memória mais antiga que tenho é do Sabugal. Tenho duas memórias muito antigas. Uma é muito vaga... Estas memórias não sabemos se fomos nós que as construímos, ou... Como aquela frase do William James: "A memória é uma narrativa que nós vamos construir com aquilo que desejamos e com aquilo que tememos"...

E tu escreveste: "Por onde vens passado, pelo vivido ou pelo sonhado?"...

Pois é. Anda tudo muito misturado. Não sei se foi a minha mãe que me contou... Como diz também o William James, nós não nos lembramos do passado, lembramo-nos da última vez que nos lembrámos. E quem se lembra de um conto, aumenta um ponto, ou diminui um ponto. Vamos construindo sempre uma narrativa... Mas esta eu sei que me lembro mesmo. A memória mais antiga que eu tenho é numa fonte de mergulho, eu devia ter uns três ou quatro anos - e ainda lá está essa fonte, eu já contei isto à senhora que está agora lá na casa, a Natália Bispo. Para mim essa fonte era muito grande, mas agora já verifiquei que é pequenina. Numa fonte de mergunho a água não corre, as pessoas apanhavam a água mergulhando um balde. Nesta minha memória estou com um chapéu de palha e há um miúdo qualquer que pega no meu chapéu de palha, atira-o à água, e vai-se embora. E eu não fui apanhar o chapéu, por orgulho, porque achava que era uma injustiça, ele é que devia ir... Ele não foi, e eu também não fui. Cheguei a casa sem o chapéu de palha e, deve ter sido muito traumatizante para ainda me lembrar, cheio de medo de ser castigado... E estava lá a minha mãe, com a melhor amiga dela, a Ti Céu. Lembro-me da minha mãe me ralhar e me dizer para ir lá buscar o chapéu, e eu dizer 'não vou, não vou, não vou', e a minha Ti Céu (que não era mesmo minha tia) é que acabou por ir lá buscar o chapéu. E deu-mo, molhado e tudo. Estava cheio de medo, mas não fui castigado. E tenho uma memória mais antiga, de que julgo que me lembro vagamente: estou sentado numa daquelas cadeiras altas, preso, porque era uma daquelas cadeiras para dar comida às crianças, e a casa está a arder. Isso aconteceu de facto. Tenho uma memória disso, foi aflitivo, pelos vistos. Não me lembro da casa a arder, na minha memória é fumo. E eu, ou esse de quem eu me lembro, está muito aflito, porque está amarrado, não consegue sair da cadeira... A minha mãe estava a dar-me de comer e, ao mesmo tempo estava a aquecer água num daqueles fogareiros a petróleo para dar banho ao meu irmão, 15 meses mais novo do que eu. O meu irmão começou a tentar dar à bomba do tal fogareiro e a água a ferver caiu para cima dele. Ele gritou e a minha mãe foi a correr para a cozinha, pensou que ele ia ficar cego. Pegou nele e desceu as escadas a correr, não sei para onde, para o hospital, para um médico qualquer... O fogareiro caiu e incendiou a casa, a cozinha começou a arder. Estes pormenores contou-me a minha mãe, depois. Eu estava lá sozinho, preso, e foi uma vizinha que viu a minha mãe a sair aos gritos de casa, e viu depois o fumo, que foi lá buscar-me. Só me lembro da parte do fumo e de ficar sozinho e cheio de medo, com a minha mãe a sair de casa aos gritos... As memórias que tenho dessa casa são essas. Depois tenho umas memórias obscuras de escadas, talvez por isso é que falo tanto de escadas, de corredores...

Um portão velho...

O portão velho de que falo mistura-se com outras casas, com a de Oliveira do Bairro, provavelmente... Havia o tal portão em ruínas, nas traseiras, por onde eu saía para ir apanhar o comboio para Aveiro, tinha uma ameixieira, e o tal portão velho de madeira... Mas misturam-se umas casas com as outras, a verdade é essa.

O teu lugar da infância são lugares, vários lugares, não o associas ao Sabugal...

São lugares, sim. Essa coisa do regresso a casa é tão importante para mim, que um dos meus pesadelos infantis era eu ir para a escola - nessa casa da Sertã, em que eu tinha que atravessar a rua para ir para a escola - e a certa altura começava a passar um comboio na rua que não me deixava voltar para casa... Esse comboio era um comboio eterno, sempre a passar, a passar, a passar; eu estava do lado de cá e havia esse comboio entre mim e a casa... Por isto tudo é que a casa aparece muito nos meus poemas. Casa. Mãe. Muito associada à infância, sim...

Também falaste logo de morte, há pouco, a propósito da casa...

Tem que ver, tem que ver... A morte também é uma mãe, é maternal, é um sossego. Sai-se do ventre da mãe e entra-se no ventre da terra, não é? Tem essa coisa de acolhimento, de serenidade, de tranquilidade. De regresso. É uma coisa engraçada: desde miúdo sempre tive uma noção circular de tudo. Concebia o mundo sempre numa estrutura circular. Havia uma frase engraçada que a minha mãe me dizia, e sei onde foi, foi em Castelo Branco, tinha eu 6 ou 7 anos, ou menos... Lembro-me de querer ir para a rua e a minha mãe não me deixar... [Pausa] Acho que eles estão enganados, eu devo ter saído do Sabugal com 4 anos, não foi com 6, porque ainda não dizia 'érre' dizia 'éle'... Vivíamos nessa altura na casa do Bairro do Cansado e antes tinhamos vivido no bairro do quartel. Os meus pais viviam com bastantes dificuldades económicas, até arrendavam quartos, na primeira casa esteve lá um sargento, do quartel em frente. Tenho duas memórias dessa casa, também... E acho que é a primeira vez que estou a contar isso a alguém, normalmente ocorrem-me quando estou sozinho. Uma: um dia o sargento trouxe-me um pássaro que ele achou; eu andava excitadíssimo com o pássaro mas ele fugiu, deixei fugir o pássaro e fiz uma gritaria, queria o pássaro... Ali fiquei à janela com uma grande raiva ao pássaro por me ter abandonado. E lembro-me da frase do sargento: 'Não te preocupes, logo te trago outro' e de eu responder 'não quero outro, quero aquele! Vamos lá buscá-lo de avião!'. Queria ir apanhá-lo de avião... Essa é uma. A outra memória tem a ver com a tal noção circular do universo. Lembro-me de a minha mãe não me deixar ir para a rua, para a 'lua', como eu dizia, e de eu dizer assim: "Ai, não deixas? Vais ver que quando tu fores filha e eu for mãe, também não te vou deixar!" A vida circular, lá está. Afinal ainda tenho outra memória, traumatizante... Os meus pais viviam com muitas dificuldades económicas, num andar, e um dia fui a casa da vizinha de cima e vi uma nota de 20 escudos, que em 1947 ou 1948 era muito dinheiro, em cima da mesinha de cabeceira. E roubei-os. Nunca falei disto, também...

Então é uma grande confissão, agora...

Não faz mal, já prescreveu... [risos]. Roubei-os para os dar aos meus pais, porque estava sempre a vê-los a discutirem por causa das despesas, porque não havia dinheiro... Aquilo afligia-me muito. Peguei nos 20 escudos e levei-os à minha mãe. Ela perguntou-me onde é que eu os tinha arranjado, e eu lá acabei por contar... E ela então obrigou-me a ir pôr o dinheiro outra vez lá em cima. Eu, claro, não queria ir, com medo de ser apanhado, encontrar a vizinha. Castigaram-me, e eu já estava a chorar desesperado, quando a minha mãe me disse "vai lá descansado que eu tenho a certeza que ela não está, nunca saberá". Lá fui pôr o dinheiro no sítio onde estava e voltei para casa a correr. Soube depois que ela disse à vizinha para sair dali, para se esconder, para ir lá eu e aprender a lição. São estas as minhas primeiras memórias. As coisas mais traumatizantes que tive...

Falavas dessa perspectiva circular, que depois se nota em muitas outras coisas...

Pois. Eu tinha outra ideia: imaginava o universo, o mundo, como a barriga de um ser maior, a que chamamos 'deus'. Por sua vez, esse ser superior vivia noutro mundo, assim tipo as bonecas matrioscas. Era personagem de outro mundo que era o interior de um outro, e assim até ao infinito... E para baixo de mim, a mesma coisa. Na minha barriga viviam outros seres. Às vezes até fazia isto, dava um soco na minha barriga, para provocar aqui um cataclismo, nos mundos inferiores. E imaginava as pessoas desse mundo a pedirem 'Piedade! Piedade!'. Quando havia um terramoto, ou um cataclismo assim, eu pensava que devia ser uma dor de barriga de 'deus', a barriga do nosso 'deus'. Também tem a ver com a tal estrutura circular, não é?

O teres-te fascinado mais tarde com muitas coisas da filosofia, do pensamento, oriental, pode ter muito a ver com isso, essa aproximação do nascimento e da morte, esse universo circular...

Pois, talvez, mas nessa altura nunca tinha lido nada disso! Mas talvez, sabes porquê? Ler é reconhecer-se. Lemos, e gostamos, e relacionamo-nos mais, com aquilo que se nos assemelha. Mesmo sem nós sabermos, muitas vezes sem termos consciência de porque é que se nos assemelha. Essas filosofias orientais normalmente têm muito a ver, penso eu, se não com arquétipos, com grandes pulsões da natureza humana. Por isso é que se instalam tão facilmente. E por isso é que são milenares e continuam. Correspondem ainda.

Outra coisa recorrente nos teus poemas, ainda mais do que a infância e a casa, é uma espécie de relação de amor que tens com a palavra, com a própria ideia de palavra...

A palavra também é arquétipo da própria natureza humana. O desejo, ou o temor, sei lá... A noção da magia da palavra. Que a palavra pode servir não só para dizer o mundo mas para o criar. E a palavra cria mesmo mundos, não é? Aquele conceito da palavra como uma matéria propiciatória. A palavra e outras formas de arte, como a pintura... Como os gravadores na pedra de Foz Côa ou de Lascaux, que pintam a caça para propiciarem boas caçadas. O signo como propiciatório. Criar mundos e influenciar o mundo. Tenho impressão de que isso é uma coisa que faz parte da natureza humana, e do meu mundo infantil. Porque eu, desde miúdo, sempre escrevi... Desde que me conheço. Eu aprendi a ler muito cedo, nos jornais. É engraçado depois ter sido jornalista... O meu pai recebia os jornais da manhã ao fim da tarde, era a hora a que chegavam a essas terrinhas. Quando vinha do trabalho trazia o jornal para casa. Eu aprendi a ler nas letras grandes do jornal, nos títulos. E sempre escrevi versinhos. Quando faziam aquelas perguntas, tipo "o que é que queres ser quando fores grande?", eu sempre respondia em verso. Até aconteceu um episódio traumatizante relacionado com isso. A minha mãe - as mães são uns seres fantásticos... - é que guardou esses versinhos todos, ainda os tenho aí algures. A minha mãe teve sempre aquilo em casa, e quando ela morreu, o meu pai deu-mos. Se os quiser encontrar não consigo, mas estão por aí, algures... E então, a minha mãe deu comigo uma vez naquela posição em que estão os miúdos, de joelhos no chão, a escrever numa cadeira. Eu tinha - e confesso que ainda tenho, é assim uma coisa absurda - muito medo das trovoadas. E estava uma grande trovoada quando a minha mãe deu comigo assim, a escrever. Ela pensava, primeiro, que eu estava a rezar. Porque lá em casa rezava-se à Santa Bárbara quando trovejava. Como é que era? Na minha memória era assim: "Santa Bárbara bendita, que no céu está escrita com papel e água-benta, livra-nos Senhor desta tormenta". A minha mãe julgou que eu estava a dizer essa reza para as trovoadas, mas não, estava a escrever uns versos. Quando vou às bibliotecas falar, perguntam-me sempre quando comecei a escrever, e eu faço sempre a seguinte rábula: conto esta história e pergunto assim, "e sobre o que seria o poema, sobre o que seriam os versinhos que eu estava a escrever?". Faço isto para explicar os mecanismos da escrita poética. Os miúdos respondem todos: "Sobre a trovoada!". E era, de facto, sobre a trovoada mas não tinha a palavra trovoada... Era de uma forma muito especial. Alguém me tinha contado, ou tinha lido, uma história de que eu pelos vistos gostava muito que era o milagre das rosas, da Rainha Santa Isabel. E os versos eram sobre o milagre das rosas, ou seja, digo eu aos miúdos nas escolas: "Reparem: eu estava com medo da trovoada, e escrevia sobre o milagre das rosas, como se escrever fosse uma espécie de refúgio; era uma história de que eu gostava muito e estava a fugir para dentro dela". Se calhar é um bom exemplo, e uma boa resposta a essa pergunta que nos fazem, e que todos os escritores se fazem a si próprios: porque é que eu escrevo? Porque é que não faço outra coisa qualquer? Ainda se fosse para ganhar a vida, mas isto não é para ganhar a vida - eu costumo dizer que é para salvá-la, o que quer que isso signifique... Para quê? E essa é, parece-me, uma das inúmeras respostas possíveis: porque tenho medo. A literatura como uma espécie de salvação, de refúgio...

De universo paralelo...

Criar um universo paralelo, neste caso protector. Porque era um dia escuro, de trovoada, e eu imaginava aquela história bonita, e luminosa; refugiava-me ali. E os versinhos eram assim - ainda me lembro como começavam porque li-os depois nas mãos da minha mãe: "Nasceu um dia em lua de mel, uma princesa chamada Isabel", e continuava por aí fora, com toda a história contada em dísticos... E há um episódio, também traumatizante, relacionado com esses primeiros versos da infância, de que me lembro bem. A minha mãe ficou muito triste porque quando morreu o meu avô - materno, lá do Sabugal ; o meu avô paterno era de Aldeia Viçosa, perto da Guarda... O meu avô, Manuel António Mota, e o meu tio-avô, Ismael Mota, que até deu o nome a uma rua lá do Sabugal, tinham os defeitos todos: judeus, anarquistas e republicanos. Judeus, não, cripto-judeus, cristãos novos, nitidamente. A minha mãe era Ester, a minha avó materna chamava-se Sara e, na Igreja, lembro-me das minhas primas dizerem "venham ver a avó, venham ver a avó, persigna-se com a mão esquerda!". E perguntavam-lhe, "porque é que a avó faz isso?". "Não sei", dizia ela, "sempre aprendi assim". Os nomes, e certas práticas, eram vistos como tradições de família. Lembro-me, por exemplo, que quando morria gente deitava-se a água fora e cobriam-se os espelhos. Mas faziam isso sem terem nenhuma consciência de que eram tradições judaicas, sem nenhuma consciência disso... Mesmo em Belmonte, as pessoas não sabiam que eram judias, só depois do 25 de Abril, quando lá foi um Rabi e foi recebido com muita desconfiança... O tal episódio traumatizante: quando esse meu avô morreu, eu que fazia versos por tudo e por nada, não escrevi nada sobre a morte do meu avô, e a minha mãe ficou muito triste com isso. Mas por algum motivo foi. Ainda hoje, não faço versos "sobre". Não gosto de poesia "sobre", tenho mesmo muita dificuldade em fazer "poesia sobre". Já tenho feito, porque às vezes sou obrigado... Uma vez o [escultor] José Rodrigues ficou muito chateado comigo, foi quando o Porto foi classificado Património Mundial, fui ali ao Museu Romântico e ele perguntou-me logo, "Já viste, Património Mundial, vais fazer um poema sobre isso?". E eu respondi "Tu és maluco! Tu é que és escultor comemorativo, eu não escrevo poemas sobre nada, qualquer dia fazes aí uma escultura sobre isso encomendada por alguém". Ele ficou muito chateado, mas eu sou muito amigo dele.

Por isso é que lhe disseste isso...

Exactamente, isso é mesmo verdade. Se não fosse amigo, não lhe tinha dito nada... Tenho aí um poema que ando há vários anos para fazer "sobre" glicínias, foi o [editor] Cruz Santos que me pediu, pediu a vários amigos porque gosta muito de glicínias... E eu não consigo... Não sei fazer poemas "sobre". Olha aqui as tentativas que tenho para esse poema [lê, num bloco manuscrito]: "...Depois, poesia sobre, glicínias que seja, não é definitivamente comigo; ao diabo pois o soneto, e as glicínias, fique o soneto pela intenção e tanto esforço em vão pelo amigo...".  Bem... A verdade é que a minha mãe ficou muito triste por eu não ter escrito nenhum poema sobre a morte o meu avô e então fez uma coisa incrível: escreveu-o ela e tentou convencer-me de que tinha sido eu. Por isso é que eu disse que esta história era traumatizante. Disse-me assim, uns dias depois: "Sabes uma coisa? Olha os versos tão bonitos que encontrei ali que fizeste à morte do teu avô...". "Não fui eu", disse logo. "Foste, foste, estavam ali no teu quarto...". A tentar convencer-me, e eu sabia muito bem que não tinha escrito nada. Tive um conflito com ela por causa disso. Ela queria mostrar às amigas e aos amigos o poema do filho sobre a morte do avô... Sei que terminava assim: "Estás no céu avôzinho, junto de Nosso Senhor...". "Não fui eu! Não fui eu!". "Foste, foste!". Tive uma discussão com ela! Nunca aceitei aquilo, claro.

Nessas primeiras experiências com versos, poemas, não havia também o simples lado lúdico de usar as palavras como brinquedo?

Sim, e se hoje ainda tenho isso, acho que é uma reminiscência infantil. É um bocado brincar com as palavras, sim. Na história da trovoada, não tinha nada a ver com brincar, era o medo; aí era o medo. Mas paralelamente, a palavra também era divertimento, brinquedo. A capacidade das palavras de falarem sozinhas. Sempre gostei muito de trava-línguas, jogos, disparates... Sei imenso de cor, ainda hoje, e são quase todos coisas que se aprendem na infância. E sei vários poemas do Augusto Gil de cor, não é só a Balada da Neve. A possibilidade fantástica que as palavras têm, um poder formidável, de fazerem sentido, juntando-as umas às outras, ou de não fazerem - porque o nonsense é um sentido em si mesmo, uma forma insensata de sentido... - de se porem a falar sozinhas... E as palavras têm uma característica, típica da infância como eu a vivi: a curiosidade de ver como as coisas funcionam por dentro, ver como as coisas são do outro lado. A curiosidade de saber como é a lua do lado que não se vê, como são as pessoas pelas costas, a parte de trás deste móvel, como é que será esta mesa por baixo?

E não havia brinquedos, tinha poucos brinquedos em casa. A maior parte dos brinquedos era eu que os fazia, carrinhos, barcos... Eu tenho muito jeito manual, estas estantes aqui fui eu que as fiz. Cá em casa sou eu que faço as reparações todas, gosto imenso do trabalho manual. A alegria do trabalho manual. Já montei o autoclismo dum vizinho, aprendi essas coisas a ver aqui um picheleiro, o Sr. Sabino,  a trabalhar. Fazia os brinquedos com a casca dos pinheiros, é muito fácil esculpir aquilo. E outros brinquedos que eu tinha, de facto, eram as palavras. A literatura popular, e tradicional, que de alguma forma é uma espécie de infância da literatura erudita, digamos assim, tem imensos trava-línguas e brincadeiras com palavras, normalmente em verso, textos que se derramam no prazer do nonsense, às vezes muito absurdos, no prazer sobretudo de perceber que as palavras podem criar sentidos improváveis, juntarem-se umas às outras... Um divertimento que eu fazia, fui eu que inventei e dava-me um gozo enorme, era pegar numa palavra e repeti-la imensas vezes até ela perder sentido, e fica só som, transforma-se noutra coisa. Fazia muito isso quando era miúdo. No fundo, não inventei nada, as coisas é que me foram inventando a mim. O que resulta desta conversa é que este percurso acaba por ser uma espécie de fidelidade a mim mesmo, de cada um de nós a nós mesmos. Se calhar alguns, ao longo da vida, infidelizam-se, vão abandonando isso...

Voltando aos carris da tua biografia: o curso de direito aparece com convicção e entusiasmo na tua vida?

Aparece por acaso, foi um bocado por acaso. Mas gosto imenso de direito.

Também tem a ver com as palavras, afinal...

Pois tem. Como o jornalismo. Tive essa sorte, de trabalhar numa profissão que usa a mesma matéria prima que a literatura, as palavras. E o direito também tem a palavra, é fundamental. A natureza do direito é que transforma tudo em palavra escrita. Eu tenho uma boa relação com o direito, e já não exerço há muitpo tempo, ainda exerci uns sete ou oito anos, ao mesmo tempo que já estava no jornalismo. Não era fácil. E custou-me decidir. Até é chato dizer isto mas acabei por escolher o jornalismo porque me dava mais tempo, mais disponibilidade... No direito há muitos prazos a cumprir e uma pessoa vai para casa pensar nos casos; e é uma responsabilidade enorme, porque as pessoas confiam-nos quer a sua liberdade, quer a sua fazenda. E o mínimo que nos é exigível é que se faça o máximo possível, se não depois não se dorme descansado. Enquanto uma notícia, se a escrevemos à pressa, no dia seguinte, como diziam os velhos tipógrafos, serve para embrulhar peixe... Acabei por abandonar a advocacia por causa disso. E fui lá parar por acaso. Na altura só havia universidades no Porto, Coimbra e Lisboa. Estávamos em Oliveira do Bairro, quando tive que fazer essa opção, e as pessoas do estrato social e económico dos meus pais, que ambicionavam um curso superior para os filhos, tinham duas alternativas: ou o seminário, gratuito, logo a seguir à primária, ou a academia militar. E os meus pais não tinham mesmo hipótese de me pagar estudos no Porto, em Lisboa ou Coimbra. O seminário estava fora de questão porque o meu pai era - e ainda é, aos 94 anos - totalmente anti-clerical. A hipótese que sobrava era a Academia Militar onde, ainda por cima, pagavam. Ainda fiz os exames e ainda me inscrevi nas provas físicas... Depois mudei para Direito porque descobri que era possível fazer o curso sem ir às aulas. Foi um bocado por acaso. A ter ido para Coimbra, se os meus pais tivessem possibilidades, teria ido para Românicas, para Literatura... Porque continuei sempre a escrever, até ganhei um prémio literário da cidade de Aveiro, com uns versos que fiz lá na escola. Mas o curso de Direito podia-se tirar como aluno voluntário, que não tinha que ir ás aulas, só tinha que ir fazer as frequências e exames. Havia em Coimbra a Sociedade Filantrópico-Académica que a troco de uma quantia simbólica prestava assistência a esses alunos voluntários - trabalhadores estudantes ou sem recursos, como eu. Mandavam-lhes os sumários das aulas, sebentas pelo correio, diziam os livros que eram precisos... Nunca fui a uma aula de Direito na minha vida. É verdade que passava alguns períodos em Coimbra, uma semana ou duas, ou mais, ficava na República de um primo meu, o Agostinho Homem, e ia assistir a aulas, sim, mas da Faculdade de Letras, metia-me lá dentro. E o bar da Faculdade de Letras era onde havia raparigas, em Direito só havia gajos. Ou ia para a biblioteca geral ler livros. Foi lá que li o Brecht, muitas coisas... Ia quase sempre à boleia, e cheguei a ter capa e batina, comprada em segunda mão, porque assim, vestido à "estudante", era muito mais fácil apanhar boleia. Mas ainda hoje gosto muito de Direito.

Pelo tal lado da palavra? Ou da ideia de justiça?

Uma das descobertas mais dramáticas que fiz, para aí no segundo ano, foi perceber que a justiça não tinha nada a ver com Direito. São primos muito afastados. Não estou a dizer isto em termos ideológicos, é mesmo em termos práticos. O grande objectivo do Direito é a segurança, não é a justiça. O objectivo imediato é a segurança, e a justiça é um objectivo secundário, digamos assim. Há muitas normas, e institutos jurídicos, que são assumidamente injustas, em nome da segurança. Por exemplo, as normas relativas à prescrição... É injusto, mas respeita a segurança, porque pode ser desestabilizador julgar um crime antigo. Outro exemplo é o uso capião, a propriedade pela posse. Por isso, o meu fascínio vem mais pelo lado da palavra...

E o jornalismo, como é que chega à tua vida?

Ao jornalismo também cheguei por acaso... Como tudo na vida, afinal. Os livros que eu li, que me marcaram mais e me transformaram. Um dia perguntaram ao [Jorge Luís] Borges: "Quem é Borges, afinal?". E ele respondeu, na terceira pessoa, como os jogadores de futebol, como o Jardel: "Borges não existe". Depois passou para a primeira pessoa: "Sou todos os livros que li, todas as pessoas que conheci, os lugares, etc...". Os livros que me fizeram, e que nos fazem a nós, chegam-nos quase todos por acaso, cada um tem uma história. Como os gatos que tenho aqui em casa, que fazem a minha vida... Os nossos destinos cruzaram-se por acaso. Nunca os procurei, andavam por aí abandonados. A Adelaide, a Laidinha, apareceu no motor do carro de um vizinho, o Zézé foi a minha empregada que o encontrou ali na horta, três foram uns miúdos que os deixaram aqui à porta... Os gatos, os livros, é tudo por acaso. Os livros que me marcaram mais na juventude, foram os das bibliotecas Gulbenkian, e muitas vezes eram livros que eu tirava da estante sem fazer ideia do que eram... Os que me chamavam mais a atenção, pelo título, normalmente eram de poesia. Lembro-me perfeitamente de que li o Alexandre O'Neill e o Tomaz Kim pensando que eram poetas ingleses...

E como é que chegas, então, ao jornalismo?

Por acaso, completamente por acaso, não foi por decisão. Estava na tropa - e curiosamente a minha especialidade militar também era do domínio da palavra: acção psicológica, guerra psicológica, propaganda contra propaganda... Foi o que me valeu. Tinha o passaporte pronto para desertar. Se fosse chamado para a Guerra não ia, claro. Mas fiquei em número um do meu curso de acção psicológica, e só dois é que não iam lá para fora: o número um e o dois. De maneira que não fui. Fui colocado no Estado Maior do Exército, em Lisboa, estive lá uns meses... É engraçado como vim, depois, parar ao Porto. Aqui, no Porto, não havia lugar para mim, acção psicológica era só mesmo no Estado Maior, onde eu estava encarregado da análise da propaganda do MPLA, e também fiz do PCP, que era bastante pobre, trabalhavam todo o ano para o 1º de Maio... Tinha lá os panfletos todos, tinha os registos das escutas da Pide, e fazia relatórios. Guardei uma coisa curiosa, que roubei lá no Estado Maior, e ainda tenho aí: um livro de instrução primária de uma menina, em português, impresso na Suécia, queimado por Napalm. E lá dentro estava uma folhinha com a redacção duma menina, uma coisa que me comoveu muito e estava lá guardada... Aquilo lá no Estado Maior estava cheio de generais. Um dia cheguei ao bar e um senhor à paisana, um general, disse-me assim, conversa de chacha: "Então o Porto está no mesmo sítio?". E fomos falando, eu disse-lhe que não havia lugar para mim na messe, tinha que alugar um quarto, já tinha nascido a minha filha Sara, não me sobrava dinheiro nenhum, tinham que ser os meus pais e os meus sogros a ajudarem-me... "Isso é uma situação dramática. Porque é que não vai para o Porto? Qualquer dia deserta...". "Vontade não me falta", disse-lhe eu, à vontade - conversa de bar... - e lá lhe expliquei que no Porto não havia a minha especialidade. Ele foi à vida dele, e eu já estava na minha secretária quando recebi um telefonema, lá de cima, a dizer para me apresentar ao General Franco Pinheiro. "Estou f...", pensei, "para que é que lhe disse aquilo tudo...". Fui para lá assustadíssimo. Entrei. Tinha o meu dossiê em cima da mesa e disse "Então você quer ir para o Porto, não é?".  Abriu-o na primeira página e escreveu: "Coloque-se no Porto" e assinou. "Segunda-feira apresente-se no Porto, já não tem que vir aqui". Caí-lhe no goto por qualquer motivo, na conversa do bar... Claro que aqui toda a gente achou que eu tinha uma grande cunha. Fiquei aqui no Quartel General a tratar do protocolo, organizava os 10 de Junhos aqui, e fazia uns relatórios de relatórios, uma actividade totalmente burocrática... Faltava um ano para acabar a tropa, aqui no Porto, em 1970, e apareceu um anúncio no Jornal de Notícias (JN) a pedir jornalistas. Durante muitos anos, e acho que era caso único na imprensa portuguesa, as entradas todas no JN eram por concurso público. Eu mandei um postal para lá, fiz provas, eram uns 400 ou 500 candidatos, e fui seleccionado. Entrámos quatro: eu, o Santos Ribeiro, o Pereira Pinto e o Alberto Carvalho. Mas o estatuto oficial do exército obrigava a que, trabalhar em jornais só com autorização do ministro da Defesa. Eu fiz esse requerimento ao ministro e ele indeferiu, liminarmente. Entretanto, o general comandante aqui do Porto, que também gostava muito de mim - mais vale caír em graça do que ser engraçado... - disse-me assim: "Ó nosso alferes, então você é maluco, foi lá pedir a autorização ao ministro? Dizia-me a mim...". O director do Jornal, entretanto, já tinha falado com ele, também. E resolveram-se assim as coisas: "Vai ficar no jornal com o meu conhecimento, mas não diga a ninguém que lá está, isto fica só entre nós, portanto veja lá se não assina nada e se não aparece lá a sua fotografia, se não está tudo estragado..."

Uma espécie de jornalista clandestino, uma posição difícil...

Pois foi. Então, comecei a assinar as notícias no jornal como António Mota, e mesmo nas fotografias das reportagens nunca aparecia de frente, aparecia sempre de costas. Os fotógrafos até me chamavam o Sr. Costa, porque só tinham autorização para me fotografar de costas... Até sair da tropa assinei sempre como António Mota. Estive quase dois anos assim.

E gostavas da vida de redacção?

Entrei para o Grande Porto, o dia-a-dia da cidade, depois comecei a fazer crítica de cinema...Aquilo funcionava assim: era um bocado ao acaso, havia bilhetes para a estreia do filme e mandava-se lá alguém. Para se ser jornalista bastava ter a 4ª classe e saber escrever, ou nem isso, alguns nem sabiam escrever, e a norma era contarem um bocado a história do filme. Um dia mandaram-me fazer um que nunca mais me esqueço qual era - um filme do Vittorio de Sica, Os Girassóis -, e eu comecei a fazer aquilo, falei um bocadinho do realizador, umas patacoadas sobre o Vittorio de Sica, relacionei com outros filmes, e o chefe de redacção, o Manuel Ramos, dado a excessos e ódios, a quem eu também caí no goto, chamou-me e disse-me assim: "Você é cineclubista?". Estive um mês como redactor  e passei logo a repórter, passando à frente de muita gente, o que foi uma situação muito complicada... O redactor é que escrevia em definitivo, alguns repórteres ficaram contrariados, e isso também me incomodou... O Manuel Ramos tinha-me dito: "Você fez-me descobrir o prazer dos pontos e vírgulas!". Gostou de mim por isso, prque era o único que usava pontos e vírgulas...

Desde que começaste a publicar poesia até hoje, sentes que os poemas nascem da mesma forma?

O Paul Valéry diz que o primeiro verso nos é dado, e os outros têm que ser conquistados. A regra é não haver regra. Não posso dizer que nunca fiz poemas a pedido porque, que me lembre, fiz pelo menos dois poemas por encomenda, e até gosto deles: um quando foi a morte do [Manuel] Hermínio [Monteiro] e outro quando foi a morte do Cesariny, ambos pedidos pela Alexandra Lucas Coelho. Mas não faço os poemas por decisão nenhuma. Até costumo dizer que passo bem sem poesia - mas seria, certamente, uma pessoa diferente. Não queria dramatizar, e não vou dramatizar, mas se eu não tiver que escrever um poema não escrevo. Como dizia o Rilke na célebre carta a um jovem poeta: "Se puder deixar de escrever, aproveite". Acontece-me uma coisa que é referida por muitos escritores: uma espécie de imperatividade psicológica que leva à escrita. O Borges dizia que se passava muito tempo sem escrever começava a ficar com uma espécie de remorsos, o [T.S.] Elliot fala em incomodidade, incómodo, o Paul Claudel dizia "há qualquer coisa em mim que se quer transformar em palavras". Bom... Eu também quando sinto essa incomodidade começo a escrever, como resposta. O poema, quando está terminado, funciona como uma espécie de apaziguamento dessa incomodidade. Nesse sentido, sempre foi assim, desde que publiquei os primeiros poemas. Escrevo pouco porque, felizmente, não estou sempre incomodado...

Não tens muito aquele discurso que se ouve muito aos escritores, sobretudo os de ficção, do trabalho da escrita...

Depende... Há poemas que trabalho muito, outros saem logo seguidos. Alguns andam para aí meses, ou anos. Há um poema, chamado Aos Filhos, que publiquei num dos últimos livros e que eu andava a trabalhar desde o meu primeiro livro. Às vezes temos tendência, por cansaço, a facilitar, a pensar que já está terminado, e não está... Eu tenho um bom leitor, que é um amigo meu, o Álvaro Magalhães, que reconhece logo as situações que ainda não estão bem resolvidas. Qualquer pessoas que escreve sabe que às vezes está ali qualquer coisa que não está a funcionar bem. Outras vezes sai logo à primeira. É trabalho, claro, mas não é penoso. Para isso já me bastam as crónicas, e o jornalismo...

Tiveste uma experiência na ficção, Os Papéis de K [2003], aí aconteceu a mesma coisa?

Só a fiz porque me deu gozo. Há pessoas que falam da dor, do sofrimento da escrita... Porra, se é uma dor que façam outra merda qualquer! É trabalho, mas que se faz por gosto. É acção, mas não é trabalho naquele sentido... Há gajos que se levantam à hora certa para escrever, eles que façam o que quiserem, há gostos para tudo! Ah, "o sacríficio, e não sei quê, dói, é como um parto...". [Pausa] Eu acho que é um parto, sim, mas no sentido da délivrance, de libertação, porque é um apaziguamento, só por isso. Há uma alegria, uma certa alegria de auto-satisfação, quando o poema está feito. Os Papéis de K comecei a escrever, a convocar memórias, e aquilo foi saíndo naturalmente... [Pausa] Houve uma altura em que pensava que escrevia para mim mesmo. Mas ninguém escreve para si mesmo, agora tenho a certeza absoluta. Mesmo que seja discreta, a escrita nunca é secreta; e mesmo se for secreta, nunca é feita só para si mesmo, há sempre um leitor a espreitar por cima do ombro. O próprio facto de se escrever, significa que há um leitor potencial. O Barthes falava da "familariedade social do poeta". O facto de se escrever numa língua, já implica um leitor algures, implica a leitura. Se fosse para nós mesmos, nem se escrevia, ou escrevíamos numa língua secreta. Mas Os Papéis de K não o fiz com intenção de publicação, sequer... Às vezes escreve-se só para ver, para ver no que dá. E foi a Ilda David, o livro até lhe é dedicado, que achou que se devia publicar aquilo. Tem muita ficção, mas tem muitas coisas verdadeiras, também, das minhas memórias.

Falámos de temas recorrentes, óbvios, na tua poesia. Eu reconheço outro, que é a questão da identidade, falas muito de ti como o 'desconhecido', o 'outro', às vezes mesmo na terceira pessoa...

Sim, o outro, o irmão... [pausa] Se te vês ao espelho, sentes alguma estranheza. Nem é uma questão minha. Acho que toda a gente pensa, aquelas perguntas óbvias e fundamentais: de onde se vem, para onde se vai, quem somos. São aquelas que os nossos filhos nos fazem, mal têm consciência de si - onde estamos antes de nascer e para onde vamos depois de morrer? "Quem somos?", qualquer pessoa que tenha um mínimo de ociosidade, para não enlouquecer, pensa nisso, nem que seja à noite, antes de adormecer. Para quê tudo isto? Não é? Para quê tudo isto? É o velho problema do "quem somos nós?". Isto em termos individuais, porque em termos culturais é uma aquisição da modernidade. Às vezes dizem assim: ah a poesia deste gajo tem muito a ver com Pessoa, até nessa matéria da identidade...

Eu até te ia perguntar se nunca tiveste a tentação da heteronímia.

Inventei alguns, mas são falsos heterónimos. Nos meus primeiros livros tenho um Clovis da Silva, e um Slim da Silva, que usava para assinar coisas em relação às quais eu sentia, mais do que em relação a outras, uma sensação de estranheza - até gosto mais da palavra "estranhidão", porque a própria palavra é estranha. Lia aquilo e não me reconhecia totalmente naquilo. E então atribuía essas coisas a outra personagem, fiz isso duas vezes ou três. Mas a comparação com o Pessoa é primária, porque, no Pessoa, são as questões da modernidade, é a aquisição da modernidade. O problema fundamental da modernidade é precisamente a identidade. Não só na literatura. Respira-se no ar. É o que acontece com a cultura, respira-se aí no ar. Eu não tenho que ter lido um poeta para ser influenciado por ele, posso não o ter lido mas leio outros que o leram. A coisa respira-se, anda aí...

E agora, com as novas tecnologias, ainda mais...

Cada vez mais... Convivendo contigo posso ser influenciado pelas tuas influências.

Mas é curioso falares tantas vezes de ti como o "outro"...

Nós somos outros, todos somos. Estamos sempre a ser outros. Aliás, nós não somos sequer, vamos sendo, é um devir permanente... A sensação de devir é um património cultural elementar. Tudo está a ser sendo. Eu lembro-me de mim mesmo, desse que eu era quando era miúdo, e lembro-me dele como sendo um estranho. É um ser que eu construí na minha memória e tenho noção disso, mas é um ser que me é estranho, não tenho nada a ver com ele. Há um texto referido pelo Richard Dawkins, de alguém que pergunta "lembra-se daquele acontecimento muito importante que se passou consigo? Pois, isso não se passou consigo". Porquê? Porque você já desapareceu, as células são todas diferentes, o seu corpo não é o mesmo... O Dawkins até faz uma pequena nota de rodapé dizendo: há células do sistema ósseo que se podem manter, duram mais tempo... Desde que começámos esta conversa muitas das nossas células já se substituiram. A memória é uma coisa fantástica, que sobrevive. Porque nós somos memória. E aquilo passou-se com outro. É natural que eu diga "outro". O meu primeiro livro é de 1973, e eu penso: aquilo foi escrito por outro. Também é por isso que tenho muita dificuldade em corrigir seja o que for. Primeiro é porque não me apetece, se me apetecesse corrigia. Mas também porque me sinto desconfortável. Como se não tivesse o direito, não é meu aquilo. Faço correcções pequeninas mas é para tentar ser simpático com o tipo que escreveu aquilo. Coisinhas muito pequeninas que não funcionam bem. Na [Antologia] Poesia Reunida corrigi pouquíssimo, três, quatro correcções em 300 ou 400 poemas...

Não és como o Herberto Helder que...

...Está sempre a reescrever. Não. Não faço isso. Tenho essa noção física da "outridão", uma consciência física da "outridão" permanente.

E confessa que é das perguntas mais irritantes para um poeta, o pedido de explicação de um determinado verso.

Tenho algumas fórmulas para responder a essas coisas, que são também fórmulas para evitar o assunto. Costumo dizer: "Tudo o que tenho a dizer sobre a minha poesia é ela, a minha poesia". Também há coisas que posso tentar explicar, mas como leitor que também sou dos meus textos, e como leitor particular porque tenho uma memória diferente daquilo, memória do seu próprio fazer. Não gosto muito de fazer isso para os outros, mas ás vezes faço isso comigo. E digo-o com toda a lealdade: não me interessa fazer rábulas nenhumas, porque, afinal, nada disto tem muita importância. Não é modéstia, não é por ser eu: nada do que ninguém diga tem muita importância. Dizia o D.H. Lawrence, "tudo se esquece, eu só serei esquecido primeiro que outros". E é verdade, tudo, tudo se esquece... Há coisas , palavras, que não duram nem um dia ou dois. O Luiz Pacheco dizia "daqui a cem anos já ninguém se lembra". Mas quais cem anos! Tudo desaparece. As estrelas desaparecem...

Eu gosto muto de ciência, de ler livros de divulgação científica. Sobretudo interessa-me o infinitamente grande e o infinitamente pequeno. A minha mulher fica muito inquieta com coisas de astronomia, milhões e milhões de anos luz, o big bang, as galáxias... A mim dá-me uma tranquilidade, uma serenidade quase budista... Porquê? Porque me põe diante da irrelevância de tudo, dos nossos problemas... Relativiza tudo. Não estou a falar dos meus problemas. Relativiza tudo! Os problemas do universo, do mundo todo! Nada disto tem importância nenhuma, é tudo irrelevante. E tudo tende para o esquecimento. Eu tenho a noção física disto. Quero lá saber! Claro que quando nos pisam os calos, um gajo reage, mas é o animal em mim que está a responder, a reagir. Isto vinha a propósito de quê?

Eu desconfio, é uma atitude minha, dos poemas que consigo explicar bem. A construção pode passar pelo domínio do racional, mas o sentido não passa. Eu acredito mais nos poemas que eu sinto que são verdadeiros mas não sei porquê. Porque se eu o compreendo bem, significa que o poema não me ultrapassa, não vai além de mim. É o "quanto mais poético mais verdadeiro" do Novalis. Se eu conseguir explicar porquê, desconfio. Se não houver qualquer coisa no texto que me escapa, e que eu sinta que não é uma palermice, tem alguma verdade... Por isso é que a arte da poesia tem muito a ver com aquele melhor momento para escrevermos, em que não estamos totalmente lúcidos, uma arte de Delfos, quando estamos a adormecer, por exemplo... Muitos escritores procuraram a ajuda de drogas, outras ajudas. Eu não precisei, e costumo dizer: os gajos que andam aí na heroína e nas cocaínas é que não sabem, mas se lessem uns livros de astronomia apanhavam uma pedrada, uma pedrada barata, mas que também cria habituação! Um livro de física das partículas, por exemplo, em que as coisas são e não são ao mesmo tempo, estão e não estão... A Teoria das Cordas, por exemplo, não passa de uma hipótese, mas lembro-me de ouvir o Steven Weinberg, numa entrevista, dizer que quando ouviu a apresentação em Princeton disse assim: "Isto é tão bonito que tem que ser verdadeiro". E explicou-se assim: tocou uma melodia de Bach, e depois pôs lá no meio uma nota falsa. Não é preciso perceber Bach, toda a gente percebe que há ali uma coisa...uma fífia. E ele dizia: "Eu estou tão habituado a trabalhar com equações, que olho para ali e pressinto que tem que ser verdadeiro". É uma questão cultural, notarmos uma fífia no meio duma melodia do Bach, mesmos sem percebermos nada daquilo. E ele dizia uma coisa engraçada: "O nosso cérebro ainda não está preparado para a física das partículas". Por isso é que é uma pedrada ler aquilo.

Mas tu sentes que percebes, quando lês essas coisas, esses textos científicos?

Não, ninguém percebe, ninguém percebe... Há um livro do Feynman que começa assim, a ideia é mais ou menos esta: "Ninguém percebe a mecânica quântica. Eu também não percebo a mecânica quântica. Este livro é a tentar explicar a mecânica quântica". Não se percebe! O nosso cérebro não está preparado. A evolução só nos preparou para a física das grandes massas a pequenas velocidades, para uma situação em que o predador ou está á nossa frente ou está atrás de nós. Só conseguimos descrever estas coisas, não podemos compreendê-las, o cérebro não está preparado para isso.

É tudo memória. Memória individual, social, cultural, biológica - o que é o ADN senão memória? Se eu tivesse lido outros livros, visitado outros lugares, conhecido outras pessoas, era outra pessoa certamente, só sobrava a memória biológica. Era o mesmo e outro ao mesmo tempo. Cada um de nós, a cada momento, é um ser precário, é um acaso. Um acaso. Até em termos matemáticos somos uma improbabilidade absoluta. É tudo absolutamente improvável. Estarmos aqui os dois a conversar é incomparavelmente mais improvável do que sair o Euromilhões. Olha para todas as nossas gerações para trás, os acasos que houve para se encontrarem, aquele símio que caiu da árvore mas foi o único que se salvou, ou que não foi apanhado pelo leão, os avós todos que não apanharam aquelas doenças todas... Tudo é impossível.

Nunca te sentiste traído pelas palavras?

Às vezes, acontece frequentemente... A minha relação com as palavras, muitas vezes, é deixá-las ir sozinhas. Porque elas acabam sempre por falar sozinhas, e têm lógicas próprias que nós não dominamos totalmente, e que têm a ver com a matéria poética. Dizia também o Valéry que a poesia é uma hesitação permanente entre o som e o sentido. Há palavras mais amigas de outras, verbos que se relacionam melhor com alguns advérbios e outras palavras, não só em termos culturais, mas também pelas sonoridade delas, e sentidos. Há palavras que se dão mal umas com as outras. Se as deixarmos um bocadinho em liberdade acabam por encontrar o seu caminho... Tem a ver com a escrita. Quando escrevemos as coisas vão mais além, o que estava na cabeça era uma coisa e o lugar onde chegamos é outra. Às vezes frustram-me, porque posso sentir que me deixam desiludido, por não corresponderem às expectativas. Nunca sei o qeu vou dizer, na poesia. Escrevo para saber o que quero dizer, por isso não posso falar de diferença nessa correspondência com o que quero dizer, mas às vezes gostava que elas fossem um bocado, um bocadinho, mais longe. Têm os seus limites. Resistem, e isso pode ser uma forma de frustração. Mas elas têm mais razões de queixa, e frustração, em relação mim do que eu em relação a elas. Eu sou mais infiel às palavras do que elas a mim. Se não me obrigarem a ter uma relação com elas, não digo propriamente ir para a cama com elas, eu frequentemente vou jogar snooker ou ver um jogo de futebol, ou outra coisa qualquer...

Entrevista de vida realizada por Pedro Dias de Almeida (editor de cultura da VISÃO), em 2009, para a revista Praça Velha (Câmara Municipal da Guarda)