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'Deus não é de confiança'

Cultura

Já lemos o novo romance de José Saramago. 'Caim' regressa à Bíblia, para reiterar um testamento igualmente literário: o de que os homens não devem escravizar-se aos deuses

Sílvia Souto Cunha

Há ressonâncias de início de mundo em Lanzarote, território calcinado e escuro.

Ou igualmente de fim do mundo, se se quiser. Qualquer uma destas paisagens mentais poderia ser propícia a epifanias religiosas, mas José Saramago continua fiel aos seus princípios de homem sem temências a Deus. O novo livro, Caim (Editorial Caminho), a sair para as livrarias na próxima segunda-feira, 19 (com edição simultânea em português, catalão e castelhano), é mais um arbusto a queimar na fogueira das convicções. Nestas 181 páginas, o escritor regressa, vigorosamente, à religião, revisitando o Antigo Testamento, quase 20 anos depois da polémica criada, em 1991, pelo romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo, em que humanizava a figura de Jesus, tornando-o num jovem rebelde, e insinuava a sua relação com Maria Madalena o norte--americano Dan Brown construiria um best-seller mundial sobre essa premissa...

Saramago escolheu, pouco depois, residir definitivamente na ilha espanhola, alegando censura por parte do Governo português, quando o então subsecretário de Estado da cultura, Sousa Lara, impediu a candidatura desse livro ao Prémio Europeu de Literatura. "Blasfémia, blasfémia!", disseram então alguns. Que dirão agora perante este Caim, dito primeiro homem concebido naturalmente e primeiro homicida na história humana, que matou o irmão por ciúmes, aqui a esgrimir com Deus? Um deus que o redime e com quem trava este diálogo: "Diremos que é um acordo de responsabilidade partilhada pela morte de abel, Reconheces então a tua parte de culpa, Reconheço, mas não o digas a ninguém, será um segredo entre deus e caim." O escritor já desfez, sobre esta produção literária, qualquer ilusão de se poder ler ali uma epifania ou um mea culpa, associado ao facto de ter roçado a proximidade com a morte, há cerca de um ano, quando esteve muito doente. O saldo existencial que fez não passou por confissões, contrições ou contradições. Em entrevista à agência Efe, aliás, Saramago declarou, recentemente, que "se Deus para mim não existe, eu não posso fazer um ajuste de contas com ele. O absurdo é que o ser humano primeiro inventou Deus e depois se escravizou a ele, isso é o que eu questiono nesta obra".

Terapia de choque

"Deus não é de confiança. Que diabo de Deus é este que para enaltecer Abel tanto despreza Caim?", lança o Nobel português, no trailer de Caim. E não só não é de confiança, como mente, incita à violência, arrecada riqueza, discrimina uns povos em detrimento de outros, entre outras patifarias, assegura o primogénito de Adão e Eva neste livro. Distante da leveza e do divertimento agridoce do livro anterior, A Viagem do Elefante, ou das considerações ensaiadas na blogosfera e compiladas em O Caderno, o novo volume (escrito em quatro meses) é um exercício irónico, provocatório, irreverente onde, apesar do humor flagrante de algumas passagens, Saramago aponta injustiças, crueldades, limitações ao livre arbítrio ou incongruências na narrativa do Génesis.

Caim, que, na versão bíblica, está condenado a uma errância sem fim pelo mundo, estranhamente protegido pela mancha que Deus aqui lhe imprime na testa (que a ilustração de capa evoca, perturbadoramente, como um ferimento de bala, como um alvo a abater) transforma-se, aqui, num viajante espácio-temporal, digno de um relato de ficção científica. De pulo em pulo, visita o futuro, percorrendo os principais capítulos do Génesis: o sacrifício do filho de Abraão pedido por Deus, a suspensão da construção da torre de Babel por o senhor não querer uma língua universal, a descida de Moisés do Monte Sinai e o confronto com o bezerro de ouro que era o falso deus, a conquista de Jericó pelos israelitas na sua demanda da Terra Prometida, o Dilúvio e a Arca de Noé... Faz-se testemunha mas também interveniente e júri a avaliar o Senhor: "(...) o leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim." Caim salta para a liça e salva o rapaz, e aproveita para dar um sermão ao anjo salvador que pede desculpas de chegar atrasado, pois surgiu-lhe "um problema mecânico na asa direita"... Mais à frente, Caim, por "curiosidade de turista", acompanha Deus e Abraão às cidades de Sodoma e Gomorra, regateando o número de inocentes que poderiam fazer o Criador poupar a cidade: começam nos cinquenta inocentes, quarenta e cinco, quarenta... Depois da queima de Sodoma, Saramago coloca Caim a lembrar ao pai das três religiões ( judaísmo, cristianismo, islamismo) a promessa divina não cumprida de poupar as cidades se houvesse dez inocentes: "Se os houvesse, o senhor teria cumprido a promessa que me fez de lhes poupar a vida. As crianças, disse caim, aquelas crianças estavam inocentes.

Meu deus, murmurou abraão e a sua voz foi como um gemido, Sim, será o teu deus, mas não foi o delas." Noutro pulo temporal, o protagonista sentencia que "aqui, no sopé do monte sinai ficara patente a prova irrefutável da profunda maldade do senhor, três mil homens mortos só porque ele tinha ficado irritado com a invenção de um suposto rival em figura de bezerro. Eu não fiz mais do que matar um irmão e o senhor castigou-me, quero ver agora quem vai castigar o senhor por estas mortes, pensou caim." Pilar del Río, esposa do escritor e presidente da Fundação José Saramago, escreveu no blog: "Caim não é um tratado de teologia, nem um ensaio, nem um ajuste de contas: é uma ficção em que Saramago põe à prova a sua capacidade narrativa ao contar, no seu peculiar estilo, uma história de que todos conhecemos a música e alguns fragmentos da letra." Admitindo a perturbação possível em alguns leitores, ela defende que "a grande literatura está aí para cravar-se em nós como um punhal na barriga, não para nos adormecer como se estivéssemos num opiário e o mundo fosse pura fantasia." Um romance que é, diz, "literatura em estado puro".

E que venha o dilúvio

Caim é um exercício de liberdade de José Saramago: espelha a liberdade defendida pelo seu personagem que, por sua vez, espelha a liberdade defendida amiúde pelo escritor. E não se fica apenas pela subversão do tempo na narrativa e da intervenção do fraticida nos dogmas bíblicos. O autor dispara farpas subtis a temas contemporâneos como a crise e o desemprego, o acordo ortográfico, a acumulação de riqueza em nome do Senhor, os direitos dos homossexuais, ou a "propaganda" israelita. No início da sua deriva, Caim chega a uma cidade com um edifício em construção "nada que se pareça a mafra, versalhes ou a buckingham ". Os operários "logo perceberam que quem ali estava era mais uma vítima da crise, um triste desempregado à busca de uma tábua de salvação". Espectador da conquista de Jericó, faz estas considerações: "Como sempre tem sucedido, à mínima derrota os judeus perdem a vontade de lutar, e, embora na actualidade já não se usem manifestações de desânimo como as que eram praticadas no tempo de josué, quando rasgavam as roupas que tinham vestidas e se lançavam ao chão, com o rosto na terra e as cabeças cobertas de pó, a choradeira verbal é inevitável. Que o senhor educou mal esta gente desde o princípio, vê-se pelas implorações, pelas queixas, pelas perguntas de josué (...) este mesmo josué que costuma deixar atrás de si um rasto de muitos milhares de inimigos mortos em cada batalha perde a cabeça quando lhe morre a insignificância de trinta e seis soldados." Para bom entendedor, o livro dispara em muitas direcções, muitos outros Caim que também terão uma mancha negra na sua testa.

Deus tudo sabe e tudo pode? Como um escritor face à sua obra. E Saramago escreve já outro romance, indiferente ao dilúvio que Caim pode provocar.