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"A Arte não é um investimento"

Cultura

No ano em que a Fundação de Serralves cumpre o 20º aniversário, o seu presidente diz à Visão que a cultura, pode, e deve, ser um caminho seguro para superar a actual crise

Cesaltina Pinto e Florbela Alves TEXTO Lucília Monteiro FOTOS

BI: António Gomes de Pinho

Idade: 63 anos.

Nasceu em Angola e fez os primeiros anos de escolaridade no Porto

Formação: Direito, Jurista. Fez o curso em Coimbra.

Cargos: presidente da Fundação de Serralves, presidente do conselho da administração da Portgás, administrador não executivo da AICEP. Vive entre Lisboa e Porto.

Já foi: vereador da cultura na Câmara de Lisboa, secretário de Estado da Cultura (1981-83) do ministro Lucas Pires, fundador do CDS (mas já não é militante)

Hobbies: arte, sempre a arte

Museu preferido: Museum of Modern Art Louisiana, Dinamarca.

Artista preferido: "Muitos"

Obra de Serralves preferida: Richard Serra, Walking is Measuring

Deixou "definitivamente a política", mas reclama "um novo paradigma de desenvolvimento". Tem ideias firmes quanto à importância que o sector cultural pode e deve assumir na economia nacional. António Gomes de Pinho, 63 anos, viveu "15 anos de uma intervenção intensa e extremamente frutuosa" na política partidária, que o levou a assumir o cargo de secretário de Estado da Cultura no governo da AD de Francisco Pinto Balsemão e só voltou a envolver-se directamente em campanhas para "participar activamente nas candidaturas presidenciais do Dr. Cavaco". Em 2003, assumiu a presidência da Fundação de Serralves - sucedeu a Teresa Patrício Gouveia - com uma "vocação quase de missionário". Considera-se muito reservado - "não tenho nada de social" - e gosta mesmo é de ir aos ateliês, às galerias e exposições conversar com os artistas. Amante e coleccionador de arte popular, também parte pelas terrinhas à descoberta de novas expressões e valores artísticos.

No ano em que Serralves comemora 20 anos de Fundação e 10 de Museu, Gomes de Pinho está a fazer uma gestão de "grande contenção", mas "agressiva" no desenvolvimento de novos tipos de parcerias. "É muito raro haver uma instituição que agrupe 160 entidades diferentes. Somos um espaço privilegiado entre a cultura e a economia", sublinha, mostrando a diferença relativamente ao que é usual acontecer na Europa, em que "as fundações são normalmente de uma pessoa ou de uma família". Foi para potenciar este cruzamento que a gestão avançou "para uma área que tem assumido importância crescente: a das indústrias criativas", com o projecto IN-Serralves. "Estes últimos anos foram simultaneamente de consolidação e de lançamento de pontes para o futuro", em que a dimensão de Serralves é já "claramente internacional", afirma Gomes de Pinho.

O sucesso da instituição assenta na "convergência da parceria público-privada entre o Estado e uma sociedade civil activa; da grande qualidade da programação; e do facto dessa qualidade não ser incompatível com uma grande receptividade do público". E ao facto de o critério ser sempre a qualidade. "Não há cedências". Mesmo em tempo de crise. Mas há truques para lidar com uma redução de 15% do orçamento: por exemplo, encerrar o museu duas horas mais cedo durante a semana - "tinham uma afluência reduzida de público"; ou assinalar as comemorações deste ano com um jantar volante, e não numa tenda, com lugares sentados. Racionalizar é a palavra de ordem, mas este gestor cultural não é um pessimista em relação ao futuro. Quer que Serralves esteja cada vez mais "sintonizada com a contemporaneidade, muito atenta a todos os problemas da sociedade actual". Que seja "um museu da nova geração", não só um repositório de património, mas "um espaço de reflexão, de debate, de questionamento dos problemas sociais, económicos e políticos". Em Novembro, Serralves fará uma conferência internacional para debater o novo papel dos museus e das instituições culturais, "para exprimir estas preocupações". Arte, ambiente, reflexão e inovação serão as quatro traves mestras de Serralves no século XXI. "Porque os museus são já uma coisa completamente diferente e podem ter um impacto muito grande na sociedade, não apenas intelectual, mas também económico".

Como é gerir a cultura em tempo de crise?

Temos um conceito de gestão cultural, do qual somos paradigma em Portugal: mostrar que a cultura pode, deve e tem de ser gerida com grande eficiência, racionalidade e sem pôr em causa a independência, a autonomia e a identidade própria da cultura. Isto é um ponto-chave. E continuamos a gerir com o mesmo rigor com que geríamos antes...

Mas com um bolo mais pequeno.

Com um bolo mais pequeno. Não fomos surpreendidos pela crise. As primeiras medidas foram tomadas no primeiro trimestre de 2008. E concretizámos, no orçamento de 2009, um grande conjunto de pequenas coisas que se traduziram numa economia de quase 15%.

A necessidade não levará a uma maior comercialização da marca Serralves?

Não. Porque há sempre um critério. Não há cedências. O conselho de administração não interfere nas escolhas das direcções do museu e da programação. Aprovamos as linhas gerais da estratégia e do orçamento, mas a escolha de todos os artistas é da exclusiva responsabilidade da direcção. É uma característica rara, que não existe em muitas instituições. E uma das causas do nosso prestígio internacional. Aqui, os artistas podem trabalhar com um grau de liberdade que, neste momento, não é muito vulgar. É que há muitas formas de impedir...

Também há aqui um pormenor interessante. O Dr. Gomes de Pinho vem politicamente da direita e o Dr. João Fernandes, director do Museu, vem da esquerda. Isto ajuda ao equilíbrio?

É uma observação curiosa. Nestes anos em que cá estou, nunca nenhum debate, quer entre mim e ele, quer a nível do conselho, se situou em termos de esquerda e de direita. Nem política, nem partidária, nem sequer em termos ideológicos.

Mas a formação de cada um condiciona sempre a forma como se procuram as coisas e como se posicionam perante elas, não?

Sabe uma coisa? Isso aparenta ser assim, mas não é necessariamente assim. Aqui funcionamos numa plataforma em que as ideologias não são ferramentas importantes. A política cultural tem dois grandes objectivos: fomentar a criação artística, pelo lado da oferta; e, do lado da procura, tornar mais acessível às pessoas essa criação. Isto não tem nada de ideológico. Uma Fundação como esta é um espaço de criação cultural permanente dos artistas, dos curadores, de quem faz as exposições. E favorecer, incentivar a criação e torná-la acessível e aliciante para as pessoas. Não vejo que seja um terreno de lutas ideológicas. A independência da Fundação é sagrada. Assim como a estabilidade governativa.

Há pouco tempo fez uma série de propostas anti-crise, dirigidas para o apoio às indústrias criativas. Teve algum feed-back do Governo e das Câmaras?

Tive directamente das Câmaras. E do Governo sei que o senhor ministro da cultura foi questionado sobre isso na assembleia da república há pouco tempo e considerou que era um contributo importante e interessante. Esta crise tem várias componentes e a sua superação pressupõe um novo modelo económico, que não seja a repetição do anterior. Tem de se privilegiar a inovação e a criatividade - e a cultura está muito relacionado com isso. Por outro lado, a escassez generalizada de meios com que vamos viver nos próximos anos levará a novos tipos de organização empresarial. A conjugação da escassez de meios com a importância da inovação vai criar aqui um tecido de pequenas empresas, muito criativas, que pode e deve ser, num país como Portugal, um dos factores fundamentais da saída para a crise. Se queremos actuar rapidamente sobre o emprego e sobre a criação de riqueza não tenho dúvida de que a cultura é uma área privilegiada.

O PODER DAS INDÚSTRIAS CRIATIVAS

Como define uma indústria criativa? Parece que neste momento já entra tudo nas indústrias criativas!

Sim. Estamos numa zona que não é muito clara. É importante retirar a criação artística das indústrias criativas. A criação artística tem a ver com a música, as artes plásticas, o cinema de autor. As indústrias criativas são actividades de carácter empresarial que visam imediatamente o lucro, em que o fundamental é o talento individual, a capacidade criativa de cada sujeito, e o produto é alguma coisa que seja susceptível de ser protegido por direitos de autor. Portugal devia aspirar a ser um paraíso fiscal para os direitos de autor, um país que atraísse um leque variado de artistas. Temos todas as condições para o ser: clima, gastronomia, acolhimento... Não temos é nenhuma política específica que vise atrair os criadores. Sugeri que Portugal assumisse como uma estratégia de desenvolvimento a atracção de talentos. E isso pode-se fazer através de uma política fiscal específica. Temos estado muito preocupados com a captação de grandes investimentos, a quem damos contrapartidas muito favoráveis, e ignoramos completamente o potencial de atracção dos talentos, que é uma forma muito importante de investimento externo. Se eu conseguir atrair para Portugal um prémio Nobel da literatura... entre parêntesis, nós não atraímos para Portugal o nosso próprio prémio novel, não é?! [risos] Ou pelo menos, às vezes, ele não se sente cá muito bem.

Mas o problema é muito mais vasto. Defendo uma estratégia assente na importância vital da cultura num novo paradigma de desenvolvimento.

Já alguma vez falou sobre isso com o ministro da economia?

[risos] Ele é que tem de responder a isso. Mas tenho dito e exposto publicamente as minhas ideias. Tenho uma vocação quase de missionário. E tenho dificuldade em perceber como este potencial não é assumido em termos institucionais. Custa-me a perceber como é que o país não é capaz de conceber um programa específico de combate à crise com este sentido de mudança e que reúna contributos das principais instituições culturais. Isto podia envolver, segundo os meus cálculos, umas 50 mil pessoas no curto prazo. 50 mil pessoas...! É muita gente. Envolve uma parte grande de emprego qualificado jovem, e uma pequena parte de emprego desqualificado, mas de proximidade.

Viajo muito pelas pequenas terras e pasmo por ver a quantidade de património, na área do restauro e conservação, que não estando propriamente em ruínas, está fechado e inacessível. Formar uma pessoa ou duas na terra, dar-lhes formação e permitir que isso abrisse, com o efeito que tem na atracção de turistas, são coisas factíveis. Pode-se juntar as instituições culturais, as autarquias, as Misericórdias, a própria Igreja. Isto podia ser uma alavanca muito importante, um novo paradigma de desenvolvimento do país. É preciso reconhecer que a cultura tem um peso importante e não é um custo. É preciso deixar de discutir a cultura em termos de custo e passar a discuti-la na óptica do investimento.

De onde lhe vem esse gosto pela arte? É um jurista...

...que se dedica à gestão e gosta de arte.

Esse gosto pela arte é de formação?

Sempre me levaram a concertos e a museus. Pela forma como fui educado comecei a coleccionar e tenho espírito de coleccionador.

É coleccionador?

Sou um coleccionador de vários tipos de arte: contemporânea, popular, e antiga.

Chegou a ter um projecto em que convidava artistas contemporâneos a trabalharem sobre temas de arte popular. Como é que isso está?

Foi interrompido por causa da minha entrada para a presidência do conselho de administração. Está congelado. Mas será reactivado seguramente. Entretanto, estou ligado a um projecto [o Clube das Artes], que continuo a apresentar pelo país e até pelo estrangeiro, de exposições de arte popular, mas sem essa componente da contemporaneidade.

SE QUER GANHAR DINHEIRO NÃO INVISTA EM ARTE

Considera-se um investidor em arte?

Não, não. O último critério que se deve defender quando se compra um objecto de arte é o investimento. Por isso é que, tendo uma colecção, não estou nada preocupado com a crise, em que o mercado da arte desvalorizou entre 30 a 40 %. Porque nunca vi nisso um investimento. É um erro.

A arte não podia ser uma alternativa aos produtos mais tradicionais de investimento?

Não. Prova-o a evolução dos preços. Há uma correlação quase directa entre a evolução das bolsas e a evolução do mercado da arte. Quando a bolsa baixa o mercado da arte baixa. Por isso, não é um refúgio.

Mas há movimento especulativo à volta da arte. Isso pode condicionar o real valor?

Pois pode. Daí uma genérica apreensão de que havia também uma bolha especulativa no mercado da arte. Todos os conceitos que se aplicaram à crise económica podem aplicar-se à arte: os produtos tóxicos, a bolha especulativa, toda essa terminologia. Porque no mundo da arte o mercado tinha passado a ser o critério quase exclusivo, predominante, de valorização da arte. Porque é que há arte melhor ou pior? Não é necessariamente porque o mercado diz. Deveria ser, sobretudo, porque os museus, os críticos, os curadores, coleccionadores formam um certo consenso sobre uma determinada obra. A partir de determinada altura, quando passa a ser o mercado a determinar o valor - a cotação, é outro conceito importado - a arte fica dependente da oferta e da procura, mecanismos similares aos da bolsa. E isto é uma grande fragilidade.

Que conselho é que daria a alguém que gostaria de investir na arte como um valor económico?

Que nunca invista em arte nesse sentido. Se quer ganhar dinheiro, se quer fazer um negócio, invista noutras coisas. Compre porque gosta - e como é óbvio, a arte tem um valor económico - e, depois, pode acontecer que seja um bom investimento. Pode acontecer, porque a arte que tem mais qualidade nem sempre a melhor arte é o melhor investimento. A questão está aí. Muitas vezes é o contrário, não há uma relação directa. Historicamente já aconteceu: muitos dos artistas do impressionismo nunca conseguiram vender um quadro, morreram quase na miséria. Os artistas vivos mais bem sucedidos, que o mercado mais reconhece, nem sempre são os que vão passar à história. Além do gosto, subjectivo, há um outro conjunto de critérios: o currículo do artista, onde expôs, em que colecções em que está, que grau de inovação trouxe para a arte, em que é que ele é diferente, que rupturas fez...

Por ser mais difícil avaliar esses percursos, o mercado da arte contemporânea é muito mais permeável a esses movimentos especulativos?

Claro. Faça só este exercício: quantos artistas é que havia nos anos 20 e quantos é que chegaram até hoje? Na arte contemporânea todos temos de ter consciência que muitos artistas actuais não deixarão memória nem rasto. Os movimentos especulativos e os leilões valorizaram muitos artistas e muitas obras que provavelmente não têm qualidade equivalente, que vão rapidamente desaparecer e tornar-se lixo.

OS ARTISTAS PRECISAM DE CONHECIMENTOS DE GESTÃO

Tem-lhe sido difícil conciliar estes dois mundos: o empresarial e o da cultura?

Não, porque são dois mundos complementares. Cada vez mais o mundo empresarial precisa da cultura

E o mundo empresarial tem essa consciência?

Ah, cada vez mais. A qualidade fundamental de um empresário neste momento e nesta situação [de crise], qual é? É tentar perceber o futuro, como a sociedade funciona, o que vai acontecer depois de amanhã. O que é que os artistas fazem? Interrogam-se sobre a sociedade, sobre os problemas do mundo contemporâneo. A arte pode e deve ser cada vez mais uma preocupação e um utensílio, num conceito de gestão contemporânea e alargado. Neste momento, gerir é ser capaz de perspectivar as evoluções e criar respostas rápidas. O mercado está constantemente a mudar, já não interessa fazer grandes planos a cinco ou dez anos. Isso está ultrapassado. Sou defensor de investimentos muito ligeiros, que podemos alterar, flexibilizar. Por outro lado, cada vez mais os artistas precisam de ter alguns conhecimentos de gestão, de marketing, de organização. Aquele mundo do artista que vivia nas nuvens e morria tuberculoso também já passou. Um dos desafios mais interessantes da contemporaneidade é explorar estas relações.

As viagens que faz pelo país são por motivo profissional ou porque gosta de ver o país real?

Quem colecciona arte popular tem mesmo de ir aos sítios para descobrir. Descobrem-se artistas extraordinários, desconhecidos do grande público. Alias, agora estou muito envolvido na preparação de uma exposição com algumas pessoas, uma delas o arquitecto Alves Costa, sobre a Rosa Ramalho e a sua relação com o mundo culto, a universidade, as Belas Artes do Porto, que foi quem a trouxe para a ribalta. Há peças extraordinárias de arte popular.

DAR DIGNIDADE À ARTE POPULAR

Em 2006, o Ministério da Cultura despejou o Museu de Arte Popular que havia em Lisboa. Devíamos então ter um museu para estes artistas?

Olhe...devíamos ter. É uma grande lacuna e infelizmente destruiu-se o único museu que havia sem ter criado nenhuma alternativa. Foi um erro cultural. Portugal deve ter um museu em que a arte popular se confronte com outras expressões e que tenha uma dignidade própria. Não se trata de ter um museu de tipo popularucho ou de exaltação passada. Mas de um museu onde estes artistas, que não são menos artistas do que os outros, se possam exprimir. Já fizemos [o Clube das Artes] duas exposições nesta linha, uma com o Pedro Cabrita Reis, outra com o Fernando Lemos. A minha teoria é demonstrar que este tipo de artistas tem igual dignidade, igual qualidade, e igual importância. Descobrem-se grandes surpresas. Ainda há pouco tempo fizemos uma exposição em Resende com um artesão [Joaquim Alvelos] que tinha morrido há pouco tempo, com fotografias de Paulo Nozolino e foi um momento muito bom. Eram dois artistas em confronto.

Isso dá-lhe gozo. Os seus olhos brilham a falar disso

[risos] Sabe uma coisa? Tendemos a viver num mundo de pré-conceitos ou de teorias gerais muito massificadas e estandardizadas. Interessante é descobrir o que há para além desse mundo. Todos funcionamos com o mesmo tipo de automatismos, o mesmo tipo de atitude e de reacções. E do que gosto é descobrir o que há por baixo, por detrás desse mundo, e encontrar os percursos que são verdadeiramente originais e individuais. Tivemos cá, no ano passado, a exposição do [Manuel] Alvess, que é um exemplo disso - rejeitou completa e deliberadamente o mercado. Mas quantos mais haverá? Descobir isso é também descobrir o país.

Quando vai atrás disso encontra também o país real. E o que encontra não lhe causa, por vezes, alguma tristeza?

Há coisas muito más, sobretudo no plano urbanístico. Mas o saldo é sempre positivo. Encontram-se situações de resistência, de luta, de pessoas que sobrevivem em condições dificílimas, mas que vão para a frente, que fazem coisas. Há dois portugais: o das estatísticas e dos números, que tenho alguma dificuldade em conciliar com o das pessoas ou da qualidade de vida. Não sou, de facto, um pessimista. Temos muitos problemas, isto vai ser muito complicado, mas está nas nossas mãos. O problema é saber que escolhas vamos fazer. Está nas nossas mãos escolher e andar para a frente. Porque é que há-de haver só umas ilhas? A questão é pôr as ilhas a alargar e a contaminar o resto do país. Toda a gente diz que os portugueses emigram e fazem coisas fantásticas. Então...

Podem fazê-las cá?

Só não fazem cá, porque se calhar não os deixam e isto está demasiado condicionado. A arte e a cultura podem ter um papel de libertação.

 

Espólio de Manoel de Oliveira fica em Serralves

Já sabe como vai gerir a Casa do Cinema Manoel de Oliveira (CCMO)?

Manifestamos ao senhor Ministro da Cultura e à Câmara do Porto, proprietária da casa, toda a nossa disponibilidade para participar no projecto. Terá de ser em parceria entre nós, o Estado, Câmara e Manoel de Oliveira, como é óbvio. O próprio tem de estar de acordo com o projecto e temos de ter a garantia de que está.

E o Pólo da Cinemateca no Porto?

Não lhe chamemos bem Cinemateca, porque parece não será isso, mas [um local] que permita passar cinema não comercial no Porto, centrado na Casa das Artes, está a avançar.

O Ministro da Cultura já disse que abre em Setembro...

Se o ministro disse esperamos que sim. O que sei é que está a ser feito o projecto, estamos envolvidos nisso e daremos apoio. Mas não está ainda definido o modelo como esse pólo será gerido. Aqui a grande questão é articular todas estas coisas.

Não correm o risco de se dispersarem demasiado?

Não. Só entramos nisto na medida em que tenha coerência com o nosso projecto. Serralves é a única instituição no Porto que tem exibido cinema de autor. Serralves, a Casa do Cinema Manoel de Oliveira e a Casa das Artes, terão de ser três pólos articulados, a formar um todo coerente. Coisa diferente desta é a do espólio Manoel de Oliveira. A novidade é que chegamos a acordo para acolher aqui o seu espólio em permanência, enquanto isso for desejado.

A ideia não era esse espólio ir para a CCMO?

Mas ficará aqui, no Museu, enquanto for preciso, fundamentalmente por razões de preservação e segurança. Houve um grande esforço para encontrar soluções, porque não temos muito espaço. Foi muito importante porque Manoel de Oliveira poderia ser forçado a tomar outras decisões menos boas, estava a lutar com uma grande dificuldade.

COLECÇÃO SAI PARA A RUA

Para festejar os 20 anos da Fundação e os 10 do Museu, Serralves vai expor, pela primeira vez, a sua Colecção, que inclui centenas de obras de diferentes períodos dos últimos 50 anos. Será apresentada em duas partes, uma a inaugurar já dia 29, outra em Outubro. Outra novidade: "Uma parte [da mostra] vai ser feita fora de Serralves, no centro do Porto. É a primeira vez que vamos fazer essa experiência", revela Gomes de Pinho. Por causa da crise, Serralves pretende aumentar "a percentagem das compras de artistas portugueses" a galerias nacionais para enriquecer o espólio. "Não significa globalmente gastar mais dinheiro, mas repartir de maneira diferente". Em Julho inaugura a exposição sobre o designer francês Émile-Jacques Ruhlmann que marcou a "art-déco" e cujas obras foram trazidas pelo Conde de Vizela para a Casa de Serralves. Gomes de Pinho quer que a mostra sirva para lembrar o conde, "o expoente do que foi, pode ser e desejavelmente deve ser, no futuro, o empresário, com espírito cosmopolita e internacional".

Foi de Gomes de Pinho a iniciativa do "Serralves em Festa", que vai no fim do mês (30 e 31) para a sexta edição, uma ideia que está a ser seguida por outros museus europeus como o Tate Modern, Londres, e o Centre Pompidou, Paris. É "uma espécie de festa da cultura" que permitiu à instituição "dar um salto qualitativo muito grande em termos de público". E, sairá, de novo, para a rua, em particular, para a Baixa. "Queremos descongestionar este espaço, o Parque é muito sensível e tem limitações para receber as pessoas."

Também foi recentemente aprovada a candidatura aos fundos comunitários para a construção do pólo de Serralves em Matosinhos, desenhado pela japonesa Kazuyo Sejima, do atelier SANAA, cuja abertura está prevista para 2012. Mais um ponto na expansão de Serralves, que só no primeiro trimestre do ano, teve um cresimento de 10 por cento nos visitantes. "Uma boa parte são estrangeiros", oriundos de Espanha, Itália, França e Países Nórdicos, trazidos pelas low cost, revela Gomes de Pinho. Em 2008, Serralves foi já o Museu pago mais visitado do país (415 mil visitantes) e ocupou o ranking dos mais vistos na Europa.