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Billie Eilish: entre a angústia e o entusiasmo, o medo e o prazer

Cultura

Tem o mundo a seus pés. Aos 17 anos, Billie Eilish não é uma estrela pop para teenagers como tantas outras. A geração que cresceu com as redes sociais revê-se nesta mistura de angústias e entusiasmo. Bem-vindo ao mundo de artistas já nascidos no século XXI

Quando Billie Eilish Pirate Baird O’Connell nasceu, a 18 de dezembro de 2001, já não existiam as duas gigantescas torres do World Trade Center a dominarem o skyline de Nova Iorque. O século XXI tinha começado, real e simbolicamente, e o futuro metia algum medo. Para muitos, parece que o terror do 11 de Setembro de 2001 foi ontem. Para quem chega, em 2019, à maioridade dos 18 anos, o tempo que passou é o de uma vida inteira.

Billie nasceu na Costa Oeste, em Los Angeles. Hoje, como celebridade e estrela pop global, sente-se incomodada com o estereótipo que esse facto pode induzir: a menina rica de Beverly Hills, a miúda privilegiada da Califórnia, entre descapotáveis, festas e palmeiras. A sua realidade não era, de todo, essa. Cresceu no bairro de Highland Park, no Nordeste da cidade, sem nenhum glamour. “Não podia sair de casa depois de escurecer porque era muito perigoso. Havia tiroteios, muitos...”, contou em entrevista ao jornal britânico The Guardian. “E cresci sem dinheiro nenhum, cresci pobre. Basicamente, tinha um par de ténis e uma camisola.” Mas o ambiente em casa era propício ao desenvolvimento das capacidades criativas, e essa tal “pobreza” que a artista recorda não impedia a família de facilitar o acesso dos filhos às áreas que mais os interessavam.

No caso de Billie, começou por ser a dança, a equitação e, finalmente, a música. Os seus pais, Patrick O’Connell e Maggie Baird, trabalham ambos na área do entretenimento como atores freelancer, e optaram por dar aos seus filhos uma educação em casa (a chamada homeschooling é algo relativamente comum nos EUA). Finneas O’Connell, irmão mais velho de Billie, nascido em 1997, entusiasmou-se cedo com a música e teve (ainda tem) um papel fundamental na carreira da irmã, assinando mesmo a produção do seu disco When We All Fall Asleep, Where Do We Go? Também ele se revelou um artista precoce e é reconhecido, além de músico, como ator (desempenha, por exemplo, o papel de Alistair na série Glee).

O ambiente familiar, a atitude dos pais e as indústrias criativas e de entretenimento à sua volta parecem, pois, ter tido um papel fundamental na vida dos dois irmãos. “Vi pessoas a ficarem completamente perdidas porque alguém lhes disse o que deveriam fazer com as suas vidas; no meu caso, desde muito nova tentei perceber o que é que queria, sem me sentir forçada a fazer alguma coisa só porque outros queriam isso para mim”, disse na mesma entrevista ao The Guardian.

Rock’n’roll?

Como se costuma dizer em notícias sobre furacões, terramotos ou outros eventos extremos, aconteceu tudo muito depressa. Quando, em fevereiro deste ano, se anunciou a estreia ao vivo em Portugal de Billie Eilish, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, pouca gente fazia uma mínima ideia de quem se tratava. Pouca? Se calhar, não era bem assim... Os bilhetes venderam-se todos tão rapidamente que foi ainda nesse mês que se anunciou a mudança para a maior sala de espetáculos da capital, a Altice Arena. Já em junho, a produtora Everything is New anunciou a abertura da totalidade da lotação da sala, pondo mais bilhetes no mercado, que também voaram.

Billie Eillish começou por falar a um público adolescente, da sua idade, que se apercebeu rapidamente do fenómeno através do imediatismo das redes sociais, onde tudo pode alastrar como um incêndio em palha seca. Durante algum tempo, havia uma fronteira clara, geracional, entre quem ouvia as canções de Billie Eilish e quem ignorava completamente a sua existência... O lançamento do álbum de estreia (coisa de velhos, os álbuns...), no final de março deste ano, mudou um pouco as coisas. A crítica reagiu, muitos pais foram ouvir o que entusiasmava tanto os filhos, todos os que gostam de acompanhar a indústria musical não resistiram a carregar no “play”... E a verdade é que estava ali um dos lançamentos mais estimulantes do ano. Começou, rapidamente, a corrida às referências. De onde vem este som? A Billie é a nova quê? Um nome, compreensivelmente, muito citado a propósito de Billie Eilish é o da neozelandesa Lorde, que tinha 16 anos quando lançou o seu primeiro álbum (Pure Heroin, de 2013), afirmando um talento óbvio e uma personalidade bem marcada, com mais maturidade do que a idade deixava adivinhar. Também é fácil pensar em Lana del Rey, mais por alguma melancolia juvenil transversal às palavras e ao modo de cantar. A sonoridade do hip-hop, com alguns laivos de trap, é algo bem presente, mas também é possível pensar nos baixos profundos e nas batidas secas de Trent Reznor (dos Nine Inch Nails). A própria Billie refere frequentemente como influência o trabalho do rapper Tyler, the Creator, um dos seus ídolos musicais; mas da lista dos artistas que mais admirou na sua breve vida fazem parte os nomes de Justin Bieber (“Não é uma boa sensação estarmos apaixonados por alguém que nem sabe que existimos...”), My Chemical Romance, Avril Lavigne, The Beatles, Lana del Rey...

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Contas feitas, a artista de 17 anos, com a preciosa ajuda do irmão, conseguiu criar uma sonoridade que a distinguia totalmente dos habituais, e recorrentes, fenómenos pop para teenagers, que muitas vezes parecem produtos desenhados a régua e esquadro para atingir um determinado target, e nada mais. Por isso, conseguiu chegar a vários universos, sem fazer da idade e da identidade teen a única porta de entrada no seu mundo. O baterista dos Nirvana e líder dos Foo Fighters, Dave Grohl, foi arrastado pelas suas filhas para um concerto de Billie Eilish. E ficou impressionado com o que viu. Depois de ter desorientado e surpreendido muita gente ao compará-la com os Nirvana, viu-se obrigado a explicar-se melhor num post no Twitter: “As minhas filhas andam a ouvir Bilie Eilish e estão a encontrar-se a elas próprias através da sua música. Há uma ligação total com elas. Fomos ver a Billie ao vivo e a relação que ela cria com o seu público é a mesma coisa que acontecia com os Nirvana em 1991. Toda a gente sabia as letras, palavra a palavra. Era como o nosso pequeno segredo. E a música dela é muito difícil de definir! Quando falo da música dela nem sei como chamar-lhe, não sei... Mas é autêntico. E posso muito bem chamar-lhe rock’n’roll. Não me interessa que instrumentos se usam, mas quando olho para alguém como Billie Eilish, eu penso, shit man..., o rock’n’roll está muito longe de estar morto!”

Na sua crónica diária no Público, Miguel Esteves Cardoso escreveu, na passada terça-feira, sobre a música de Ed Sheeran, sem poupar nas palavras: “Odeio a música de Ed Sheeran porque não tem nada lá dentro. É um plágio profundo de tudo. Já ouvimos esta música em milhares de elevadores e salões de manicure. Não é música, é regurgitação. O maior crime artístico é espalhar o tédio. O pior é que o tédio, como a papa Nestum, vicia, infantiliza, adormece os sentidos. Ed Sheeran é um produtor industrial de tédio, um poluidor incontinente das ondas hertzianas.” Lendo isto, é lícito pensar que, no campeonato dos artistas que, hoje, tocam para multidões, Billie Eilish é o exato oposto de tudo isso.

Do alto dos seus 15 anos, Billie respondia à revista Vanity Fair sobre a sua abordagem quanto à escrita de canções: “Tentar escrever o que nunca ninguém escreveu, ter uma abordagem que nunca ninguém teve.”

E agora, Billie?

São algumas características aparentemente contraditórias (há algo mais teen do que isso?) que fazem de Billie Eilish não só uma estrela pop como uma espécie de representante de uma certa adolescência do século XXI, entre a angústia e o entusiasmo, o medo e o prazer, o tédio e a excitação na era das redes sociais.

Há nos vídeos e no imaginário de Billie Eilish um lado soturno e assustador (lágrimas negras, uma estética de filme de terror, aranhas, umas costas cheias de seringas espetadas...) mas, ao mesmo tempo, não é assim tão difícil vê-la sorrir e rir nas suas atuações e entrevistas (o próprio disco começa com uma intro de 13 segundos que acaba numa boa gargalhada da cantora). É uma miúda que pode dançar de modo livre e aparvalhado mas que tem a inteligência e o descaramento de dar respostas como esta (ao New Musical Express): “Odeio quando pessoas mais velhas me perguntam o que é que eu sei sobre o amor. Eu sei mais do que elas porque estou a vivê-lo pela primeira vez enquanto elas não o sentem há muito tempo. Isso não significa que é mais, ou menos, forte, mas é definitivamente um sentimento diferente. Eles estão habituados a corações partidos, dor e querer morrer, mas para alguém mais jovem tudo isso é novo e aterrorizador.” É alguém que se expõe nas suas fragilidades (fala dos seus terrores noturnos ou admite que foi diagnosticada com a síndrome de Tourette), mas não faz disso o seu discurso principal. Usa, frequentemente, as redes sociais (e, neste momento, tem quase 36 milhões de seguidores no Instagram) como se não fosse uma celebridade distante e global, mesmo que, depois, se arrependa disso. Tem fãs obcecados por todo o mundo, mas recorda-se bem de estar na posição contrária (mesmo que se ria, hoje, quando pensa no seu profundo amor por Justin Bieber...). Por tudo isto, é fácil para um adolescente de hoje identificar-se com esta figura, mais genuína do que o habitual em artistas desta dimensão.

Sim, foi tudo muito rápido. Em dezembro, Billie Eilish cumpre 18 anos de vida e já tem o mundo a seus pés. Como é que a miúda se vai aguentar? Com a louca aceleração dos nossos dias, não falta muito para que todos perguntem, a cada passo: e agora, Billie, o que vem a seguir?

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