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"Vivemos o tempo mais estranho da Humanidade. Nunca o ser humano foi tão estúpido como agora’"

Cultura

O escritor espanhol que mais livros vende em todo o mundo está de regresso com nova aventura de Lourenço Falcó, o seu ex-traficante de armas, assassino a soldo e eterno sedutor que atua nos bastidores da Guerra Civil Espanhola. Personagem e cenário que permitem a Arturo Pérez-Reverte mostrar como nada é a preto-e-branco. Ontem e hoje

João Lima

Picasso afirmava que, quando a inspiração chegar, ela irá seguramente encontrá-lo a trabalhar. Arturo Pérez-Reverte, 67 anos, o escritor espanhol que mais livros vende em todo o mundo, poderia subscrever a célebre afirmação. “Não sou um artista, sou um escritor profissional”, diz-nos no seu jeito sempre provocatório e desafiador. É da escola do jornalismo de guerra, onde militou durante 21 anos. Na literatura, encontrou uma nova vida, mas o empenho e a entrega mantiveram-se. Estreou-se com O Hussardo, em 1986, e desde então tem publicado a um ritmo impressionante, incluindo séries de grande êxito, como a do capitão Alatriste. Com Sabotagem, encerra uma trilogia situada na Guerra Civil Espanhola e protagonizada pelo espião Lourenço Falcó, a personagem ideal para baralhar o leitor e o levar a gostar de um bom “sacana”.

Com Sabotagem, regressa à Guerra Civil Espanhola. É um período histórico que lhe interessa particularmente?
É um momento muito importante na História de Espanha e de toda a Europa, mas não posso dizer que me interessa particularmente. Aliás, tenho escrito sobre todas as épocas. No próximo mês de setembro, vou até lançar um romance que se passa no século XI...

Porque escolheu então esse momento histórico para lançar esta sua personagem, Lourenço Falcó? Por ser a origem da ascensão de Franco?
Se não tenho uma relação forte com a Guerra Civil Espanhola, menos ainda tenho com Franco. Há escritores espanhóis que fazem uma carreira inteira à sombra do franquismo, com uma necessidade imperiosa de se mostrarem contra ou a favor, em tudo ou em determinados aspetos. Não me meto nessa luta. Não faço julgamentos literários. Queria contar uma história de espiões, numa Europa turbulenta. A Guerra Civil Espanhola e o franquismo são apenas o pano de fundo do romance.

Não há guerra sem bons espiões?
Sim, claro, mas no caso dos anos 30 do século passado não é só a guerra, a espanhola que está a explodir e a mundial que chegará na década seguinte. São também as tensões que então se viveram entre fascismo, comunismo, socialismo, anarquismo. Havia muitas fronteiras, físicas e ideológicas, e muita gente a tentar ultrapassá-las, incluindo espiões. É o cenário perfeito, um contexto histórico fascinante.

Nesta trilogia protagonizada por Lourenço Falcó, tem passado por várias cidades. Porquê?
É parte da geografia da Guerra Civil Espanhola, que se jogava em várias frentes. Em Lisboa, pela fuga pelo Tejo, que retrato no primeiro capítulo do volume anterior, Eva, e agora Paris, onde apoiantes dos dois lados do conflito, franquistas e republicanos, se moviam, encontravam e espiavam. A Guerra Civil Espanhola foi a explosão inevitável de um conjunto muito alargado de problemas que se acumularam ao longo do século XIX. E o que a tornou mais terrível para nós foi justamente este apoio e a influência do estrangeiro que ambos os lados beligerantes receberam. Quis que tudo isto estivesse espelhado no livro, mas não como uma tentativa de explicar a História ou de detalhar um acontecimento concreto. É apenas um romance.

Bem, a componente ficcional é muito clara: Falcó tenta destruir Guernica, a célebre pintura de Picasso...
Pareceu-me uma ambição divertida. Falcó não tem uma ideologia concreta, é meio amoral e uma homem sem escrúpulos, o que faz dele um ótima personagem. Confrontá-la com o ícone cultural e político do século XX tornou-se uma provocação muito estimulante.

Qual a sua relação com o quadro?
Admiro-o muito, sem dúvida. Não é nada de pessoal [risos]. Gosto mais de outras pinturas que Picasso fez, mas é uma das suas grandes criações. Para os franquistas, e para Falcó neste contexto, era o símbolo do inimigo. Era preciso destruí-lo, combater o adversário em todos os campos, incluindo a cultura.

Na apresentação do livro, em Paris, em 2018, chegou a dizer que “Picasso não pintou Guernica por patriotismo, mas por muito dinheiro”...
Ninguém pode negá-lo. Conheço a vida e obra de Picasso muito bem, que estudei para a escrita de outros romances e livros. Nada disso diminui a obra. Apenas diz que em toda a sua vida Picasso soube defender-se e preservar-se muito bem. Nunca se meteu em confusões, embora nunca tenha deixado de afirmar, na pintura, o seu ponto de vista. Mesmo aquela anedota que se conta – um soldado alemão pergunta-lhe se foi ele que fez aquilo, apontando para Guernica, ao que Picasso responde: “Não, foi você” – não acredito que tenha acontecido. Picasso não era um herói, mas era um artista imenso, um republicano de coração. E nunca pisou Espanha durante a guerra civil. Daí o carácter alegórico da pintura, mais do que descritivo.

Tem falado, nalgumas entrevistas, de uma certa traição dos intelectuais no que às guerras diz respeito. Em que sentido?
No sentido de injustiça histórica. As guerras, sobretudo as civis, são maioritariamente combatidas pelos mais desgraçados, os camponeses, os incultos, presentes nos dois lados do conflito. Muitos até combatiam com a convicção que criaram, por uma fé que sentiam, mas no fim são os intelectuais que se apropriam da História e a relatam. Há o caso muito conhecido de Miguel Hernández, poeta e dramaturgo espanhol, morto mais tarde pelos franquistas, que esteve na frente de batalha. Quando ia à retaguarda, deparava-se, como contou, com vários intelectuais que nunca iam para a primeira linha. Contentavam-se em passear as suas pistolas, a vadiar pelos bares e cafés com as suas namoradas, sem correr riscos. Viviam dos privilégios da República, sem lutarem por ela.

Falcó é, pelo contrário, o avesso disso.
Exato. É um ser paradoxal, para os nossos dias. Neste momento, os heróis têm de ser todos democratas, feministas, defensores dos animais, cheios de bondade. Devem ainda salvar baleias sempre que possível, nunca fazer coisas más e representar as minorias. É o reino do politicamente correto...

... Que recusa nos seus livros?
Sempre. A minha proposta é exatamente a oposta, levar o leitor a gostar de uma pessoa que é a negação disso tudo. Um sacana amoral, violento, capaz de matar, até de estar mais próximos dos fascistas. E funcionou.

Porquê?
É difícil explicar, nunca saberemos. Mas talvez porque não o inventei de todo. Fui jornalista de guerra durante 21 anos, estive em lugares em que o politicamente correto não entra. Compus as personagens a partir de pessoas que conheci. Além disso, ao contrário do que vejo por aí, um escritor não pode cair em anacronismos. Falcó vive num mundo perigoso, hostil. Não havia ONG, nem os princípios que hoje procuramos seguir. É preciso fazer dele um homem do seu tempo. Seria ridículo ter uma personagem nos anos 30 a comportar-se com os critérios morais do século XXI. E, no entanto, há quem o faça... Já vi legionários a fazerem coisas impensáveis para a mentalidade do Império Romano. Todo o romance começa com uma boa investigação histórica.

A questão do politicamente correto, num romance como este, está ligada à violência. Há aqui uma denúncia dessa brutalidade que ainda vemos hoje em dia?
Em parte, sim. Vivemos num mundo violento, desde sempre. A violência não desapareceu. Em muitos aspetos e em diversos lugares, continuamos em guerra. Vivemos uma ficção muito comum à que se vivia antes da II Guerra Mundial. Os ricos estão cada vez mais ricos, a classe média desapareceu, cada crise é maior do que a anterior. A prosperidade europeia das últimas década parece estar a chegar ao fim e ninguém dá por isso. Mas estas são conclusões do cidadão, não do escritor. Cabe ao leitor tirar as suas conclusões. Não sou um Sócrates das ideias, nem quero mudar o mundo para melhor; se quisesse talvez pertencesse aos Médicos sem Fronteiras, talvez fosse sacerdote ou capitão de um barco que resgata migrantes no Mediterrâneo. Essa não é a missão do romancista.

E qual será a missão do romancista?
Como dizia no início, contar uma boa história. Daí que não tenha nenhum compromisso com a bondade moral. Se queres mostrar a condição humana, tens de reconhecer que ela é boa e má, bela e feia. Os meus romances não melhoram o mundo, quando muito ambicionam estimular a imaginação do leitor. Dou-lhes um conteúdo honrado, honesto, legítimo. A realidade como a vejo e conheço. Não sou um romancista teórico, o meu material não vem só da leitura. Tenho a minha vida, as minhas recordações, as pessoas com quem me cruzei. Vi matar, torturar, violar – em muitas guerras. Não escrevo encostado ao balcão de um bar, a beber copos com outros escritores. Não tento enganar ninguém. A vida é um lugar cheio de filhos da puta.

Com a velocidade do mundo digital e das redes sociais, essa realidade tenderá a piorar?
Não estou otimista, de facto. Vivemos o tempo mais estranho da História da Humanidade. Nunca o ser humano foi tão estúpido como agora. Há mais informação, mas estamos menos informados. Tudo é explicado a preto-e-branco, quando qualquer pessoa com experiência de vida sabe que o mundo é uma coleção de cinzentos. Podemos ser bons e maus no mesmo dia, com poucas horas de diferença. Mesmo na Guerra Civil Espanhola, quando te aproximas mais, quando chegas à dimensão dos homens e das mulheres que vivem e decidem, apercebes-te de que nos dois lados havia interesses, ambições, ajustes de contas, ressentimentos. Os meus romances e personagens movem-se nessa ambiguidade.

É esse contexto de ignorância que explica fenómenos como o de Trump?
O ser humano atual exige simplicidade, o que é terrível. Antes queríamos explicações, análises intelectuais, respostas dos sábios para encontrarmos o caminho da liberdade e da democracia. Agora é o contrário. Qualquer análise complexa assusta. Os discursos não podem ter mais do que os 240 caracteres de um tweet. E os canalhas aproveitam-se disto.

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