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Prova de fogo, um português no Burning Man

Cultura

Em abril acompanhámos Nuno Paulino, e a equipa do seu Artelier, nos bastidores da primeira participação de um coletivo português no mítico Burning Man. Agora que o festival começou - decorre até à próxima terça-feira, 3 de setembro, no deserto de Black Rock, no estado do Nevada, EUA - recorde esta grande aventura à volta de um objeto único: O Nome da Rosa, uma "escultura interativa e de fogo"

No interior de um velho armazém na Portela da Azoia, ali mesmo junto à A1, pouco a pouco, “a Deusa vai tomando forma”. No chão, já quase está concluída uma imensa figura de ferro com cerca de 600 quilos, inspirada na mitologia indiana e na rosa-dos-ventos portuguesa. A peça foi batizada de O Nome da Rosa, e, na última semana de agosto, vai erguer-se e ganhar vida no deserto de Black Rock, no Nevada, Estados Unidos da América, naquela que será a “primeira participação oficial portuguesa” no mítico Burning Man – festival de arte experimental e comunitário, assim batizado devido à queima da colossal efígie de madeira que encerra as festividades visitadas por milhares de participantes. “Estão aqui dois anos de trabalho”, sublinha Nuno Paulino, autor da obra e diretor do coletivo Artelier. “É um projeto de carreira, surgido na altura certa, no exato momento em que a nossa companhia está a celebrar duas décadas de atividade”, explica, ainda, o artista de 49 anos. A Artelier é, hoje, uma das mais conceituadas companhias nacionais de arte de rua – ou “arte pública”, como Nuno prefere dizer –, com inúmeros trabalhos de referência na área do video mapping e das esculturas de fogo, duas técnicas presentes nesta O Nome da Rosa.

A oportunidade para participar num dos mais famosos – e restritos – festivais de arte pública do mundo, como é o Burning Man, surgiu há dois anos, durante a Fresh Street – Conferência Internacional para o Desenvolvimento das Artes de Rua, que então se realizou em Portugal. “Um dos palestrantes foi o diretor de artes de fogo do Burning Man, que ficou muito impressionado com uma das nossas esculturas de fogo: uma espada de D. Afonso Henriques, na qual usámos uma técnica de chama muito lenta e contemplativa, desenvolvida por nós, chamada beam shape”, recorda Nuno à VISÃO. Momentos depois, já estavam os dois à conversa, com o norte-americano a tentar convencê-lo a participar. “Disse-me que o objetivo da viagem dele à Europa era precisamente conhecer artistas como nós e que a nossa arte fazia sentido no festival”, conta. Mas não basta um convite para participar no Burning Man: é necessário colocar as obras a concurso e ultrapassar uma apertada malha de seleção. A Nuno, convidaram-no, isso sim, para estar presente na edição do ano passado e aí fazer uma residência artística, com o objetivo de perceber como tudo funciona e quais as contingências de um festival de arte pública em pleno deserto (onde, aliás, cada um tem de levar o seu alojamento, mantimentos e água).

“Percebi que o Burning Man é uma galeria para a contemplação, mas criada de forma inclusiva para o seu público, pois as obras são quase todas comodificadoras e interativas”, salienta Nuno Paulino. E foi também durante essa estada nos EUA que ele teve a inspiração para a obra a apresentar a concurso. Antes de se deslocar para o deserto do Nevada, o artista português visitou Sausalito, cidade californiana geminada com Cascais, onde existe uma rosa dos ventos em calçada portuguesa. E foi desta que ele se recordou, quando, dias mais tarde, se perdeu no recinto do festival: “É uma área enorme que, à noite, quando tudo se incendeia, ganha outra dimensão. Andei completamente perdido durante horas e lembrei-me da tal rosa dos ventos.”

Começava assim a tomar forma o projeto O Nome da Rosa, Bio-etich machine: uma instalação interativa feita à base de energia solar, que “representa os quatro pontos cardeais, com a Deusa Mãe no centro, simbolizando a procura por novas direções”, descreve Nuno. Nas palavras da companhia Artelier, trata-se de uma “escultura interativa e de fogo”, que pretende ser “uma presença inspiradora de dia e de noite, geradora de bioenergia por ação do Sol e da interação humana”, toda ela “construída com materiais sustentáveis”. A simbologia da rosa dos ventos, que faz “uma ligação a Portugal”, funciona também como uma “metáfora para os tempos atuais, uma época em que há pessoas a voltarem a votar em fascistas e a acreditarem que a Terra é plana. É uma peça para questionar isto tudo, mas também para indicar um novo rumo”. Um simbolismo evocado sempre que se incendiar a peça: através de uma lente, um raio de Sol acenderá uma lamparina de azeite, “tipicamente portuguesa”, que servirá de ignição à chama. “O objetivo é demonstrar que há outras soluções energéticas, como este raio de Sol, que chega à Terra em seis segundos para acender a chama sagrada. É algo científico, que extravasa a arte”, defende Nuno Paulino.

Inicialmente, a escultura portuguesa foi pensada para ficar pendurada numa grua, mas a logística seria demasiado complexa, dizem os seus responsáveis, e a solução foi transformá-la num totem, assente numa estrutura metálica equipada com pedais, por sua vez ligados a um dínamo, assim permitindo ao público iluminar a obra – que pode também ser virada, com recurso a uma roda de leme. Movimentos mecânicos posteriores permitir-lhe-ão, igualmente, procurar o Sol. Afinal, como realça Nuno, “trata-se de uma deusa e, portanto, move-se”.
Para criar a figura “inspirada numa deusa de Goa”, foi utilizado um software de mapping, que gerou um mapa geométrico com as dimensões precisas da peça. Esta grelha foi posteriormente desenhada no chão do armazém onde agora nos encontramos, para facilitar a moldagem “de forma rigorosa e de acordo com o projeto digital”.

Foram mais de 800 as obras a concurso para o Burning Man, depois reduzidas a 360 numa segunda fase, até finalmente se chegar à seleção final de 60 peças distinguidas pelo júri com a Honoraria Grant, uma bolsa de apoio à criação, instituída pelo próprio festival, no valor de €10 mil. Das finalistas, só 12 eram originárias de fora dos Estados Unidos da América: oriundas de apenas cinco países, entre elas estava O Nome da Rosa, de Portugal. “É claro que é um orgulho. Trata-se do maior festival de artes performativas do mundo, o principal festival mundial de arte em paisagem e cultura alternativa, e nós vamos ser os primeiros portugueses a estar lá. Aliás, fomos os primeiros a concorrer e ganhámos”, declara o diretor da Artelier. Para conseguir ultrapassar os exigentes critérios do júri, o coletivo liderado por Nuno Paulino teve de provar ter uma série de competências, preenchendo um longo e elaborado questionário. Um dos itens, por exemplo, tinha que ver com a demonstração de prática anterior em artes do fogo: Nuno enviou-lhes imagens do trabalho Luz do Sagrado, que a Artelier desenvolve há algum tempo em diversos monumentos nacionais, como o Convento de Mafra, onde atuaram aquando da celebração dos 300 anos do edifício. “Temos 20 anos de experiência nesta área, embora em Portugal ainda nem sequer exista regulamentação para as artes do fogo e só há dois anos é que tenham começado a existir apoios para as artes de rua”, alerta o artista. Mas as questões mais complexas de responder foram as relacionadas com a sustentabilidade da obra: “O festival tem um conceito leave no trace [não deixar rasto] e é muito exigente a esse nível. Para a rosa dos ventos, temos um biodiesel próprio, que queima sem deixar marcas, e como a escultura é quase toda de ferro, desenvolvemos um pente de íman, para, no final, passar pelo terreno de modo a não deixar qualquer vestígio da nossa passagem pelo local.”

À equipa-base de oito elementos que concebeu a peça, juntar-se-á, no terreno, “um staff alargado com cerca de 30 pessoas”, diz Paulino. Mas o acampamento à volta de O Nome da Rosa pretende ser muito mais do que uma mera retaguarda logística, assumindo-se como “uma embaixada do pensamento, um ponto de encontro com outros artistas e com a comunidade portuguesa” presente no local. Agendadas já estão também algumas conferências no espaço Ágora do festival norte-americano, ao qual foi dado o nome de Conversas da Rosa: “Teremos art camps sobre temas como as novas adições da sociedade, que tanto podem ser a tecnologia ou os combustíveis fósseis, ilustração de ficção científica, Inteligência Artificial, alterações climáticas ou arte pública.”

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