Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Idles, o amor é um gajo estranho

Cultura

Diana Tinoco

Guitarras, mosh, sorrisos e boas energias. No future? Vamos lá com calma…

20h10. Faltam 20 minutos para a entrada pontual dos Idles no Palco Sagres do NOS Alive 2019. Umas boas dezenas de pessoas aguardam já, lá à frente, a banda de Bristol; muitas outras vão chegando a bom ritmo. Sente-se expectativa no ar. E acontece algo, discretamente, que não é nada comum num concerto desta dimensão. Quase sempre, estes momentos são vividos à frente de um palco vazio (ou mesmo tapado, como na véspera, em Grace Jones) ou com alguns técnicos e roadies a verificarem cabos e ligações. E a ansiedade para ver os músicos entrarem em cena vai aumentando, muitas vezes alimentada a palmas, gritos e adrenalina. Ora, antes da atuação dos Idles, quem anda pelo palco, à nossa frente, são os próprios músicos dos Idles. Acordes de guitarras, uns gritos ao microfone, uns toques no baixo… Demoram-se por ali, nas calmas. É uma espécie de soundcheck já ao vivo, sem filtros, amuse-bouche (ou oreilles…) para o que aí vem. Na verdade é mais do que isso: é uma atitude. Nós somos como vós, é o que parecem dizer. Estamos aqui, é isto que temos para fazer, e não vamos entrar em jogos e encenações que contribuam para sermos idolatrados. Cenografia: os instrumentos em palco e uma tela atrás, com fundo cor-de-rosa, e a palavra “IDLES”.

E é também por tudo isso que, já com os corpos muito suados – do lado de lá e de cá -, nos soa completamente sincera aquela declaração ao público (que, noutros casos, facilmente soaria a conversa de circunstância): “Vocês é que são importantes, sem vocês nós não seríamos nada!”. Ou mais ainda: “Vocês dão-nos amor, nós respondemos com amor” (cito de cor, mas com confiança). As fronteiras entre público e músicos são literalmente estilhaçadas, logo desde início, com as (várias) passeatas demoradas dos guitarristas Mark Bowen e Lee Kiernan no meio do público.

Diana Tinoco

Isto é rock de guitarras em fúria, com bateria e baixo sempre possantes. Mas é, também, rock com algo a dizer, frases disparadas com sentido e sem ambiguidades. “Partilharem os vossos sentimentos com outros pode salvar-vos”, diz Joe Talbot, depois de dedicar uma canção a um amigo que teve uma depressão profunda. Danny Nedelko, o tema mais popular da banda, é antecedido por uma dedicatória às pessoas “mais corajosas da Grã-Bretanha: os imigrantes”. Nem falta um pequeno discurso a defender a importância do sistema público de saúde britânico… Os Idles inscrevem-se numa tradição, bem britânica, de rock com os pés bem assentes no universo das classes trabalhadoras, lutando contra injustiças e abusos de poder (“The best way to scare a Tory is to read and get rich”, cantam em Mother).

É fácil identificar esta sucessão rápida de canções cheias de energia e, por vezes, à beira do caos, com o universo punk. Mas esqueçam a parte do “no future” dos Sex Pistols… Uma banda com tanto amor para dar, e tantas preocupações com o presente, não se está nas tintas para o futuro (aí, serão sempre mais Clash do que Sex Pistols...).

Pouco mais de uma hora de atuação resulta numa celebração do melhor que o rock (essa música já clássica, com mais de meio século de vida…) tem para dar. É uma celebração, e rapidamente se chega ao momento em que em que o facto de uma corda da guitarra rebentar é um pormenor sem grande importância que só dá mais intensidade ao ritual. A liberdade é total, como se prova naquele mais do que improvável e magnificamente desafinado medley: Up Where We Belong, de Joe Cocker, Nothing Compares 2 U, de Sinéad O’Connor, From Her to Eternity, de Nick Cave…No final, o mosh pit não engana: à nossa volta só há sorrisos. E é ao vivo que melhor se percebe a justeza do título do segundo disco dos Idles: Joy as an Act of Resistance. Alegria, resistência e suor.