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Oito fotos marcantes da vida de Lena d’Água comentadas pela própria

Cultura

Orgulha-se da sua memória fotográfica. Na primeira pessoa, Lena d’Água percorre recordações de várias épocas a partir de imagens de um álbum só seu. Começando num retrato de 2019, que assinala o seu regresso aos discos – 'Desalmadamente' chegou há um mês às lojas com dez novas canções, todas assinadas por Pedro da Silva Martins –, avançamos em direção a histórias de outros tempos

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2019

O Pedro da Silva Martins telefonou-me, no final de 2016, a convidar-me para cantar uma canção dele no Festival da Canção de 2017. Pouco antes, eu tinha sido convidada pelos They’re Heading West para aquelas sessões, nos últimos domingos do mês, na Casa Independente – ensaiaram cinco ou seis temas meus e um do Zeca Afonso, O Homem Voltou, e foi giríssimo, aquilo soava tão bem! Depois, o Benjamim convidou-me para ir cantar, com ele, ao CCB, o Sempre que o Amor me Quiser, no Dia da Música. Grande boa onda, eu a sentir-me da idade deles... Por isso, quando o Pedro me ligou eu disse-lhe que sim, achei graça e ri-me muito, aos gritos mesmo. “Pelo menos, ainda não tenho 80 anos!”, respondi-lhe. A verdade é que ainda ninguém se tinha lembrado de convidar-me para o festival. Eu sugeri que a banda para essa participação seria os They’re Heading West e o Benjamim com o António Vasconcelos. Quando fomos a casa do Pedro, ele tinha três canções feitas para selecionarmos uma. Lá escolhemos o Nunca Me Fui Embora. Depois, já no estúdio, o Pedro apareceu lá, com a guitarra dele, e tinha umas 18 canções escritas para mim! Decidimos não ficar por ali. Nos meses seguintes, eles foram à aldeia, fizemos experiências... Foi um trabalho de dois anos e tal.
Agora, eu amo este disco, o Desalmadamente! E estou pronta para ir para os palcos com a minha “desalmada banda”, como eu lhes chamo.

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1972

Tinha 16 anos e, aí, estava nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian. Tinha começado a namorar, os primeiros beijinhos na boca... Só beijos e abraços, que eu nessa altura era muito bem-comportadinha. Era o Zé Manel, esse meu primeiro namorado, nunca mais soube nada dele. Nessa época, nos tempos da minissaia – e esta até era bem jeitosa para aquela altura, antes do 25 de Abril... –, eu era catequista e boa aluna. Não me passava pela cabeça vir a ser cantora. Primeiro, quis ser astronauta; à data dessa fotografia, queria ser paleontóloga, gostava de arqueologia, de estudar as raízes das pedras e dos povos. Depois ainda fiz um semestre do curso de Sociologia, mas o 25 de Abril salvou-me daquilo... Poderia ter sido muitas coisas, gostava de letras e também de ciências.

Por acaso, aí já tinha a minha viola. Recebi uma quando fui dispensada dos exames do 5º ano [atual 9º]. Tocava umas músicas da Melanie Safka. Lá no meu bairro [de Santa Cruz, em Benfica] começaram mesmo a chamar-me Melanie Safka, e lembro-me de que, às tantas, eu já andava chateada com essa história...

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1978

Esse já foi o meu último concerto com os Beatnicks, quando fizemos a primeira parte do Jim Capaldi, no Coliseu. Logo a seguir, saí da banda, e quando foi esse concerto até já estava separada do meu marido [Ramiro Martins, baixista dos Beatnicks].

A minha passagem pelos Beatnicks durou cerca de dois anos, foi um tempo incrível. Fui lá parar por amor. Apaixonei-me pelo Ramiro à primeira vista, numa festa no parque de campismo, no Carnaval; achei-o lindo, nem sabia que era músico... Para poder estar com ele, tinha de ir aos ensaios da banda, com a minha malhinha, a fazer tricot. E acabei a fazer uns coros. Aí, estou a tocar pandeireta, sempre toquei, ainda hoje continuo a tocar. Depois casámo-nos e tivemos uma filha. Primeiro, vivemos juntos em casa dos meus pais; uns meses depois de a Sara nascer, fomos viver para um apartamentozinho na Amadora. Acabei por sair dos Beatnicks, mas a banda ainda continuou mais uns tempos.

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1980

Eles eram muito divertidos, tanto o Luís Pedro [Fonseca] como o Zé [da Ponte]. Era sempre uma risota pegada... Tinha sido ouvida a cantar nos Beatnicks e começaram a chamar-me para fazer trabalhos de estúdio, coros, publicidade... Foi nessas sessões em estúdio que conheci o Luís Pedro e o Zé. Ao fim de um ano e meio, já tínhamos canções para fazermos um álbum e eu é que pus o nome à banda: Salada de Frutas. As nossas vozes ligavam muito bem. E eles era muitos criativos. Tinha uma relação amorosa com o Luís Pedro. Fomos namorados durante uma meia dúzia de anos, mas nunca vivemos juntos nem tivemos filhos.
Aí, estava com 24 anos, tinha uma filha com quatro e... continuava com cabelo de catequista. Nunca tive nenhuma atração pelas coisas da fama e das lantejoulas, isso não presta para nada, não dá felicidade. A música é que importa, sou como aqueles senhores carecas e com óculos a tocarem violino numa orquestra. Uns tempos depois, os outros dois músicos que chamámos para a banda, para podermos tocar ao vivo, começaram a ficar chateados porque a imagem dos Salada de Frutas era sempre a Lena d'Água e, numa Festa do Avante!, juntaram-se ao Zé e decidiram que prescindiam “dos serviços da cantora”. Foi um escândalo! Saiu na primeira página de vários jornais. Ainda por cima depois do êxito incrível do Robot... O Luís Pedro saiu comigo, formámos os Atlântida e logo a seguir gravámos o Vígaro Cá, Vígaro Lá, dedicado a esse episódio, por eles terem continuado a usar o nome Salada de Frutas.

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1981

Isto é no Rock Rendez-Vous, toquei lá, várias vezes, com os Atlântida. Aquilo enchia sempre... Com os Salada de Frutas, acho que foi só desta vez. Era uma banda incrível, com uma sonoridade incrível, mas não tenho grandes recordações do ambiente nessa altura...
Tinha uma filha pequena, por isso não frequentava o Rock Rendez-Vous. Ensaiava com as minhas bandas, fazia os concertos e depois ia para casa, não ia ver bandas nenhumas – a não ser que fosse naqueles festivais que se faziam, em Praças de Touros, com os UHF, os Táxi, por exemplo... O que acontecia muito nessa altura era irmos tocar a algum sítio em que havia um grupo de baile que começava a noite e entrava em palco outra vez a seguir ao nosso concerto, para as pessoas dançarem.
Por acaso, lembro-me de ir ao Rock Rendez-Vous quando ainda não se chamava assim e era um cinema, o Universal. Vi lá o Bonnie & Clyde e O Couraçado Potemkine – uma seca do caraças, nunca mais acabava!

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1983

Isso foi num programa de televisão transmitido em direto em Portugal e em Espanha, uma coisa que nunca tinha acontecido. Lá ao fundo está o Luís Pedro Fonseca, o resto da Banda Atlântida não se vê. Era em frente aos Jerónimos – este ano vou lá cantar outra vez, mas é numa cena muito fixe, com outros cantores, de que ainda não posso falar.
Lembro-me de que aqui estava a cantar o Papalagui. Este foi o ano em que o Luís Pedro produziu, e fez os arranjos, do disco Fado Bailado, do Rão Kyao, que foi um grande sucesso. Acabou mesmo por sair da Banda Atlântida para ir tocar com o Rão. Também já estávamos a ficar um bocado cansados um do outro... Não era fácil estarmos juntos numa relação afetiva com tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo; desgasta, é preciso muito cuidado. Para o lugar do Luís Pedro entrou o José Marinho e a banda ainda sobreviveu mais algum tempo... Em 1985, decidi mesmo acabar com os Atlântida. Era muito peso, ainda por cima sem o criador original aquilo já não fazia muito sentido. E eu sentia--me cansada da repetição, com este meu espírito de querer fazer sempre coisas diferentes, inventar coisas... A partir daí, comecei a usar músicos avulso, sem nome de banda.

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1994

Na década de 90 houve o espetáculo As Canções do Século, do maestro Pedro Osório, com as outras duas cantoras, a Helena Vieira e a Rita Guerra. Fizemos uma série de concertos.

Aqui, estou numa homenagem à Natália Correia, em Leiria, um ano depois da sua morte. Estava a ler um soneto da Natália – aquele: “Creio nos anjos que andam pelo mundo...” – com o Pedro Osório ao piano. Depois, ainda fiz isso mais vezes, noutros palcos. Conheci a Natália nos últimos anos da vida dela, quando ela teve a ideia de fazer um grande espetáculo com artistas de todos os géneros, na Aula Magna, pela descida do IVA nos livros. Era uma mulher espetacular, com uns olhos! Ainda fui convidada para um jantar no Botequim, e ela cantou nessa noite.
Nesse tal espetáculo na Aula Magna escolhi cantar o Redondo Vocábulo, do Zeca Afonso. Liguei à Natália e disse-lhe que queria uma harpa a acompanhar-me. E ela respondeu-me: “Oh, meu amor! Oh, minha querida! Eu queria mesmo uma harpa neste espetáculo e não sabia como fazer!” Lembro-me tão bem, até estou a arrepiar-me.

Rita Carmo

2014

Antes, houve a fase do Hot Club. Em 2007, editei o Sempre, Ao Vivo no Hot Club de Portugal – adoro esse disco! –, mas não tenho boas imagens dessa altura... Esse foi o ano em que saí de Lisboa e comprei a minha casinha na aldeia, perto do Bombarral. Lá fui, lá me adaptei, com altos e baixos. Neste momento, tenho ali um punhado de amigos, pessoas mesmo amigas. Nunca fico desamparada.

Aqui, são fotos bem produzidas, da Rita Carmo. Conheci este pessoal em 2010. Fui convidada para fazer uma coisa fora do costume em Lisboa, no Nimas, numa bienal de várias artes. E estava em Peniche, sentada ao pé da fortaleza, a falar disso ao telefone com uma amiga ligada há muitos anos à música e ela disse-me: “Tive uma ideia! Tenho aí uns amigos que são músicos, vou apresentar-tos.” No Nimas, exibiram primeiro um documentário sobre mim, Bela Adormecida, e depois eu entrei em palco com esta banda – ainda sugeri o nome Lena d’Água e os Amigos de Peniche, mas eles não quiseram. São excelentes músicos de rock’n’roll: o João Guincho, na guitarra, o Pedro Cação, na bateria, e o Paulo Franco, no baixo. Infelizmente não fizemos muitos concertos, mas lançámos um disco com um som muito fixe, gravado nas Caldas da Rainha: Carrossel [assinado por Lena d’Água & Rock’n’Roll Station].

Rita Carmo