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Dias da Música: Purcell e Shakespeare, uma ligação natural

Cultura

O público não faltou em mais uma edição dos Dias da Música, no Centro Cultural de Belém, este ano dedicado a Shakespeare

D.R.

Ambos os artistas - Purcell e Shakespeare - são expoentes de génio, versatilidade e vida, como se viu no espetáculo do CCB que apresentou The Fairy Queen no domingo passado

Luís M. Faria

Este ano, os Dias da Música, o festival anual do Centro Cultural de Belém (CCB) que sucedeu à Festa da Música, teve como tema William Shakespeare ("o doce poder da música", dizia o subtítulo), o dramaturgo do Renascimento que é o maior escritor de língua inglesa. Uma boa escolha, sem dúvida. Não deve haver nenhum autor mais associado à música do que Shakespeare. Não só pela quantidade de citações sobre o tema que aparecem na sua obra como pelo próprio facto de esta ser um tecido contínuo de música verbal, transportando em si imagens, sentimentos e sobretudo ação, com um colorido e uma mestria inigualáveis. Não menos versátil foi Henry Purcell, o maior compositor inglês, que ao longo da sua curta carreira - morreu em 1695, aos 35 anos - escreveu grande música em todos os géneros. O grosso da sua obra, porém, é vocal, e dentro da música vocal não-religiosa ocupam lugar de destaque cinco obras teatrais, das quais The Fairy Queen é sem dúvida a mais encantadora. Inspirada na peça Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare - mas tomando liberdades consideráveis, tanto a nível do texto como da estrutura - ela é aquilo que se chama uma semi-ópera, combinando partes faladas com episódios de música e dança. Dada a riqueza de fantasia do material de origem, onde uma série de pares e complicações amorosas se misturam com fadas e com situações cómicas, as possibilidades musicais são óbvias, e Purcell aproveita-as genialmente. O grupo La Paix du Parnasse, que esteve no passado domingo à tarde no CCB, não apresentou a obra inteira. Mas nos excertos que se ouviram houve lugar para registos muito diversos, desde o episódio cómico inicial sobre um poeta bêbado (interpretado com verdadeira graça pelo barítono André Henriques) até às passagens celebratórias e a outras que falam do silêncio e do mistério. Pelo caminho, algumas das árias mais justamente célebres de Purcell: Come All Ye Songsters, One Charming Night, O Let Me Ever, Ever Weep... Alguns trechos duram não mais do que um ou dois minutos - até menos, num ou noutro casos - mas o efeito de magia é inesquecível. Os cantores - além de Henriques, eram as sopranos Ana Quintas e Claire Debono, o contratenor Carlo Vistoli e o tenor Marcel Beekman - em geral não desmereceram, e o mesmo se aplica aos músicos do Paix du Parnasse, sob a direção musical de António Carrilho. Também aí não faltou vitalidade nem colorido, com opções felizes, por exemplo, na colocação de instrumentos em palco. Será um cliché, mas podemos dizer que o concerto foi uma festa dentro da festa dos Dias da Música. No dia anterior, tínhamos assistido a outro concerto não menos especial, a um nível diferente, quando os Tallis Scholars, um dos principais grupos corais ingleses, atuaram na Sala Luis de Freitas Branco. Além de obras religiosas de William Byrd e Orlando Gibbons, dois mestres do tempo de Shakespeare, a verdadeira revelação (para nós) foram as Três Canções de Shakespeare de Ralph Vaughan Williams, um compositor moderno que relançou a tradição de grande música inglesa adormecida desde Purcell. Aquelas três peças, onde as dez vozes dos Tallis Scholars renovaram continuamente as paisagens sonoras, com subtileza infinita, ajudam a explicar porquê. Ficou a urgência de (re)visitar toda a obra coral desse compositor.