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Conan Osíris na era dos extremos: Uma nulidade excêntrica ou um génio visionário?

Cultura

Arte? Lixo? Luxo? Ouvimos várias vozes para ajudar a situar este caso raro na música popular portuguesa. Conan Osiris divide opiniões e vai representar Portugal no festival da Eurovisão de 2019, em Telavive

No princípio... é a estranheza. Em muitos casos, a rejeição. E uma pergunta a disparar na cabeça: isto é a gozar ou é a sério? Para muitos portugueses, o embate com a voz, a figura e a música de Conan Osiris aconteceu na primeira semifinal do Festival da Canção, a 16 de fevereiro, com a canção Telemóveis. Para muitos outros, a descoberta aconteceu ao longo de 2018, à boleia do disco Adoro Bolos (que chamou a atenção da crítica) e das suas primeiras atuações (depois de assistir a um dos primeiros concertos de sempre de Conan Osiris, no Capitólio, em Lisboa, a 7 de abril do ano passado, o jornalista Carlos Vaz Marques escrevia na sua página de Facebook: “Vocês nunca viram nada assim, garanto-vos.”; nos comentários a esse post encontrava-se uma visionária que se apressou a teclar: “No festival da canção era sucesso garantido!”). Para uma ínfima minoria, a descoberta terá acontecido antes, já que o músico começou a editar em 2014 (o EP Silk, onde só cantava numa das sete faixas, Amália).

A “memória genética”

Conan Osiris é a figura de quem se fala, as redes sociais tornaram-se rapidamente um campo de batalhas, com posições extremadas sobre o assunto. E tudo isso aconteceu, no que toca ao Festival, ainda antes de Conan Osiris ter ganho um lugar na Eurovisão – foi o segundo classificado da primeira semifinal, atrás da canção Perfeito, com letra de Boss AC e interpretada por Matay, mas foi o mais votado pelo público. Era já então inegável que se apresentava como um claro favorito para a final, que aconteceu este sábado, 2, em Portimão, e o fenómeno traduzia-se bem, por exemplo, no canal oficial do Festival no YouTube, com Telemóveis a deixar muito para trás qualquer das outras sete finalistas

O hype chegou a ponto de antes da vitória de sábado já haver quem discutisse se Conan Osiris deveria, ou não, boicotar a certamente polémica final da Eurovisão que este ano se realizará em Telavive, de 14 a 18 de maio. “A canção israelita ter ganho no ano passado em Lisboa foi um gigantesco bombom para o Governo de Israel. Entretanto, o bombom foi sendo recheado, está uma bomba calórica. Se Conan ganhar – e estamos num ponto em que parece impossível outra coisa, porque toda a luz parece extinguir-se perto de Conan –, Portugal dará um contributo bombástico ao bombom-bomba. A Israel, aliás, dá imenso jeito vender arrojo na ‘diversidade’”, escreveu a cronista Alexandra Lucas Coelho.

Nos muitos comentários esgrimidos nos últimos dias, online mas também numa mesa de café ou restaurante perto de si, Conan Osiris tão depressa é associado ao lado mais trash da música popular (fenómenos mais ou menos bizarros como Maria Leal e Zé Cabra são várias vezes citados) como é comparado a artistas como António Variações, Paulo Bragança ou mesmo Pop Dell’Arte. Como é possível, entre o ruído de mil e uma novidades, numa era pós-pós-moderna em que tudo parece permitido, equivalente e aceitável, a música de um homem provocar reações tão extremadas?

O musicólogo, professor e sumidade em assuntos de fado Rui Vieira Nery não tem dúvidas: “Não tem nada em comum com esse lado trash da música pimba, nem nada que ver, também, com o nacional cançonetismo de vozes muito certinhas.” Sobre Telemóveis, é claro: “Não gosto da canção, é pobre tanto a nível musical como da letra, uma coisa adolescente, repetitiva.” Mas... “O intérprete parece-me interessante. A técnica vocal faz lembrar [António] Variações, com muitas ornamentações à volta de cada nota, melismática. Ouve-se ali a memória genética da cultura mediterrânica: tem flamenco, Magreb, fado, coisas do Próximo Oriente...” E acrescenta: “Tenho curiosidade de ouvir mais coisas do Conan Osiris, se fosse completamente desinteressante para mim, isso não aconteceria.”

Um deslumbrado Miguel Esteves Cardoso foi mais longe, nas páginas do Público, fazendo lembrar os entusiasmos (e embirrações) dos tempos da sua Escrítica Pop: “Ouvi-lo cantar é como assistir a uma discussão interminável e irresolúvel sobre as origens do fado: está lá o canto cigano, o canto andaluz, o canto magrebino. Estão lá os visigodos, os romanos e os mouros. Está lá toda a gente que passou por aqui e todas as terras onde vivemos e como reagimos e como a nossa língua se formou e como está a mudar agora enquanto Conan Osiris canta. Está lá toda a gente que entrou pela rádio, pela internet, pelos ouvidos quando se andava pelas ruas e se ouvia uma mulher a cantar. Conan Osiris contém multidões, séculos, futuros próximos.”

Vítor Rua, fundador dos GNR e uma das forças criativas, ao longo dos anos, da música experimental dos Telectu, fez questão de gravar e disponibilizar publicamente um vídeo para mostrar, numa espécie de aula prática, que “fazer um êxito como este, que chega a dois milhões e tal de pessoas, não é tão fácil como andam para aí a dizer...” Reconhece a Conan Osiris o talento de ter criado um estilo próprio imediatamente identificável – “é o que qualquer artista ambiciona e há muitos que andam uma vida inteira a tentar fazer isso e não conseguem...” – e faz questão de lembrar que ele “tem uma linguagem original e não apareceu agora, teve um disco muito bom em 2016, outro em 2017.”

A sombra de Variações

As referências a António Variações, essa espécie de extraterrestre que irrompeu pela música popular portuguesa há cerca de 40 anos, são uma constante. Quisemos, por isso, ouvir a opinião de David Ferreira – ex-editor (durante anos ligado à EMI – Valentim de Carvalho) e atual realizador radiofónico, sendo responsável por muitas deliciosas histórias e redescobertas no programa David Ferreira a Contar, na Antena 1 – e um dos grandes responsáveis pelo lançamento da fulgurante e breve carreira de Variações. David já tinha ouvido, à sua volta, prós e contras a propósito de Conan Osiris, mas ainda não tinha tido curiosidade suficiente para ir ouvi-lo... Depois de carregar, finalmente, no play e ouvir Telemóveis, faz questão de alertar: “Não me sinto capaz duma opinião que valha a pena ler...” Ainda assim, aí vai (com autorização, claro): “Posso adiantar que há ali coisas engraçadas, em especial na letra, e a rádio hoje está cheia de canções com letras sem graça nenhuma. A voz não me é agradável – para já, pelo menos.” Quanto às comparações com Variações, é sucinto: “A comparação prejudica-o: no que possam ter em comum, a originalidade e a coragem são todas do Variações.”

Talvez as comparações com o autor de Canção do Engate ou É P’ra Amanhã façam sentido no que toca a algumas reações que ambos provocam, mais ainda do que às suas práticas artísticas. “Este maxi single que inclui um tema tornado famoso por Amália Rodrigues (Povo que Lavas no Rio) ameaça tornar-se o mais sério candidato ao prémio de mau gosto do ano. Mas apoia-se numa fórmula bem concebida, que consiste na utilização de um discreto suporte harmónico e rítmico (sintetizado) sobre o qual a voz debita a sua parte. A instrumentação suporta-se. A voz é que não. No entanto, há que reconhecer que nada disto é importante, pois um insistente trabalho promocional não tardará a instalar este soluço nos tops, de onde não sairá senão no fim do verão”, escrevia o crítico musical Trindade Santos em 1982 (citado no livro de Manuela Gonzaga, António Variações, entre Braga e Nova Iorque). Voltaria ao ataque: “É bem possível que António tenha ascendido ao grau fundador da ordem do pop português com esta sua pérola” mas... “nem uma novena de bons propósitos me fará suster o gesto que o infernal uivar de António provoca, alvorotando os meus ouvidos abusados: desligá-lo imediatamente e sem remorsos.”

Muitas das ferozes críticas lidas por aí a Conan Osiris podiam decalcar estas declarações, quase palavra a palavra, 37 anos depois.

Sem culpas

Rodrigo Leão, talvez o mais brilhante dos autodidatas da música portuguesa contemporânea, lembra-se de lhe mostrarem o vídeo de Celulitite, de Conan Osiris, em 2018. A sua reação será exemplar do que acontece com muita gente: “Primeiro estranhei e a impressão não foi muito boa. À segunda audição, pensei: há aqui qualquer coisa...” Sobre Telemóveis diz: “Gostei mais do que estava à espera; é comercial no bom sentido. Ele tem muita personalidade e carisma e eu valorizo muito tudo o que sai daquelas canções todas iguais que há por aí. Há, mesmo, ali qualquer coisa!”

A radialista e comunicadora Inês Meneses confessa: “Fiquei apaixonada à primeira.” Na antena da Radar, a qualquer hora, era fácil, a partir de novembro de 2017, ouvir Conan Osiris, com os novos temas saídos do disco Adoro Bolos. “Havia demasiado mundo numa pessoa que não tinha pensado o mundo”, diz Inês à VISÃO. “Houve tanta gente a ser verdadeira num tempo em que temíamos a verdade por ela nos trazer consequências… E agora, um rapaz simples como o Tiago/Conan decide ser ele com o seu linguajar próprio, o seu estilo, a sua verdade e há meio mundo interessado em condená-lo? Não percebo”, acrescenta.

Para os mais distraídos: mas quem é, afinal, este tipo? Conan Osiris é o nome artístico de Tiago Miranda, com 30 anos completados em janeiro. Nasceu em Lisboa, já viveu no Cacém e estudou design gráfico em Castelo Branco, onde também se interessou por moda. Durante anos, trabalhou numa sex shop. Em termos musicais, é totalmente autodidata, usando sobretudo para as suas composições programas de computador como o famoso Fruity Loops. Definir a sua música é uma missão difícil: tão depressa soa a kuduro e a outros ritmos de dança africanos como a fado, músicas do mundo (com destaque para os sons do Magreb e do Oriente), canto cigano, pop, hip hop, música eurodance de carrinhos de choque, ambient, cordas à Bollywood... Se há coisa que o músico detesta, como é fácil intuir, é a expressão “guilty pleasure”. Aqui não há culpas.

Talvez Tiago Miranda, aliás Conan Osiris, repetisse de bom grado estas palavras de António Variações: “Prefiro ser uma surpresa a ser uma certeza.”

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