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Ana Stilwell: uma digressão entre fraldas e acordes

Para a digressão Life Trip, Ana Stilwell leva na bagagem a viola, os CD e a família. Uma voz doce para uma sonoridade entre o folk, o country e um jazz maternal

Enquanto o marido põe a prancha de surf no tejadilho da autocaravana, Ana Stilwell arruma uma catrefada de sacos com fraldas, fruta, ovos, salada, roupas e alguns medicamentos. Na viagem do fim de semana anterior, a cantora e compositora de 32 anos esqueceu-se em casa de todos os perecíveis no frigorífico e do seu pijama. “Para uma pessoa desarrumada como eu, viajar numa autocaravana é uma aprendizagem”, brinca.

Depois das primeiras apresentações em Coimbra e no Porto – onde se sentiu de novo adolescente ao ver-se num bar, com a guitarra na mão e a beber uma caipirinha –, a digressão Life Trip rumou ao Algarve, até à Guia, para um showcase na FNAC do AlgarveShopping, e um concerto no Bafo de Baco, em Loulé. Esta semana, já fez paragem em Évora, no Teatro Garcia de Resende (sexta-feira, 8) e no Clube Ferroviário, em Lisboa, faz este sábado, 9, o lançamento oficial deste seu segundo disco. As gémeas de 8 anos, Carminho e Madalena, já ajudam a tomar conta do benjamim Eduardo, 1 ano; Marta, 3 anos, é a irmã do meio. Para se entreterem, levam na mochila as cartas do Uno, folhas brancas para pintar com lápis de cor, um ou outro peluche e no computador portátil vários filmes para verem à noitinha, quando a mãe cantar no bar.

“Agora sei mais de fraldas do que de bandas novas, mas isso não faz de mim menos cantautora”, garante. Por vezes, a sua mais recente descoberta musical é algo antigo e que fica a ouvir durante seis meses. No carro, tem o último disco de Luísa Sobral, de quem é amiga, lengalengas infantis e Leonard Cohen. Descobriu tarde o autor canadiano e nunca o conseguiu ver ao vivo, mas já fez uma versão de Ain’t No Cure For Love e consegue ouvir vezes sem conta temas como Closing Time, Famous Blue Raincoat e Chelsea Hotel.

Disco feito em casa
À primeira vista, teria sido mais fácil Ana Stilwell fazer-se à estrada só com a guitarra atrás. Porém, a cantora fez questão de nesta road trip ter a família por perto, sem existir uma medição de forças entre o papel de mãe e a importância da música na sua vida. “Antes tentava compartimentar, agora não”, diz. Até houve quem lhe dissesse que não ia conseguir fazer carreira porque dava prioridade aos seus quatro filhos. Ana questionou-se várias vezes sobre que tipo de cantora era e que tipo de mensagem queria passar. Mas, na verdade, muita da sua inspiração vem mesmo dessa vivência familiar. Porquê descartá-la em tempo de concertos?

Depois da estreia com Take My Coat (2013), álbum que classifica mais nostálgico, apesar do tom alegre do single Dibba Dee Doo, dedicado ao marido, Life Trip, uma produção independente, foi preparado em casa, com os seus filhos e os dos restantes músicos a ouvirem as canções até à exaustão. Sempre estudou em inglês, por isso tem mais facilidade em escrever e cantar nessa língua, a mesma dos diários da sua adolescência. O single Fiz-te a Ti, escrito para a filha de três anos, marca a sua primeira música em português. Amor Herdado, outro tema assumidamente sobre maternidade, escrito para o mais novo, conta com arranjo musical do pai de Ana, que também a acompanha ao piano. Recentemente, Ana Stilwell começou a ter aulas de piano, na tentativa de mudar a composição das cordas da viola para as teclas. A maior parte das ideias surge quando vai no carro sozinha, depois escreve as letras com uma melodia que nem sempre se revela como a música final.

Uma vida rodeada de crianças

Ana Stilwell sabia que queria viver da música, mas como achava que não conseguia, por insegurança total, foi estudar Jornalismo. Filha da jornalista e escritora Isabel Stilwell, conhecia bem o ambiente das redações do jornal Diário de Notícias e das revistas Pais & Filhos e Notícias Magazine; até costumava ir com a mãe ver as provas finais das páginas antes de seguirem para a gráfica. Aos 18 anos, no fim do segundo ano de Jornalismo mudou-se para Londres para estudar canto em teatro musical, enquanto trabalhava como auxiliar num jardim de infância. Ainda hoje, as técnicas do teatro musical dão-lhe ferramentas para se libertar. Incentivada pelos professores, ao regressar a Lisboa, foi estudar voz, teoria musical, solfejo e harmonias no Hot Clube. Ao mesmo tempo, arranjou emprego numa creche e estudava na universidade para educadora. Sempre rodeada de crianças, Ana derrete-se com a sensibilidade e a maneira como elas olham o mundo. “Como mãe e mulher, este é o meu assunto. Sou uma cantautora que mais do que pensar na harmonia musical, são as histórias que importam.”

Depois dos filhos e da música, o esqui é outra paixão. Quem a quiser ver feliz é levá-la para montanhas cobertas de neve. Em Sintra, perto de casa, também costuma fazer escalada junto ao Castelo dos Mouros. Ana não tem dúvidas: “A adrenalina dos concertos é comparável à da escalada.”