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Viagem ao mundo da beleza sem filtro de Alexander McQueen

Cultura

Steve Eichner/ Getty Images

Chamaram-lhe o “hooligan” da moda britânica. Nascido no East End londrino, no seio de uma cultura operária e urbana, criou, em pouco mais de uma década, uma marca mítica e um universo próprio que não temem contrariar as regras do glamour e do bom gosto. Aos 40 anos, pôs um ponto final em tudo

Maria João Martins

“O amor não vê com os olhos, mas com a mente.” Esta frase, extraída de Sonho de Uma Noite de Verão, a comédia mais celta de Shakespeare, está inscrita na lápide de Lee Alexander McQueen, sobre uma campa rasa, na ilha de Skiye, na Escócia, tal como estivera tatuada na pele do designer que se suicidou aos 40 anos, na véspera do funeral de sua mãe, em fevereiro de 2010. Arrepiante? Tanto melhor, pois era exatamente esse o efeito que McQueen gostava de produzir. Herdeiro de um imaginário próximo das grandes histórias de amor e de morte devoradas pelos leitores vitorianos, fossem eles a operária fabril ou a própria Rainha de Inglaterra, declarava-se evidentemente apaixonado pela humana condição de mortal: “É importante encarar a morte porque ela é parte da vida. É uma coisa triste, melancólica, mas romântica ao mesmo tempo. É o fim de um ciclo, tudo tem de terminar, e é isso que nos deixa espaço para coisas novas.”

Nascido a 17 de março de 1969, no East End londrino, “assombrado” pela lenda de Jack, o Estripador, e outras histórias de arrepiar, Lee McQueen era o sexto filho de um taxista e de uma professora de Ciências Sociais. Diz-se que, aos três anos, já desenhara um vestido na parede da casa, mas, seja isso factual ou apenas uma das muitas narrativas que formam o seu mito, a verdade é que ainda adolescente já concebia saias e vestidos para as irmãs mais velhas, que faziam furor numa juventude urbana que, por esses anos, se rendia aos encantos da estética punk. Tímido, passou discretamente pela escola (que abandonou aos 16 anos), sem revelar qualquer interesse especial, a não ser pelas artes visuais, mas esse facto não o impediria de andar à deriva durante algum tempo, até que a mãe lhe sugeriu que procurasse trabalho na mítica Savile Row, a artéria londrina mundialmente associada à excelência na arte da alfaiataria.

Imagine-se, pois, a cena digna de um filme de Ken Loach: um rapaz balofo, maus dentes, de sweatshirt sem griffe nem história, evidente sotaque cockney, entra porta adentro de um desses templos cheio de fatos em padrão príncipe de Gales, causando uma estupefação digna de uma versão enviesada de My Fair Lady. Mas, ao contrário do que faz o professor Higgins à pobre Eliza Doolittle, ninguém se propôs transformá-lo numa versão mais... suitable. Pediram-lhe apenas que mostrasse o que sabia e logo era admitido como aprendiz da firma Anderson & Sheppard. Seguiu-se a Gieves & Hawkes e a empresa de figurinismo para teatro, Angels and Bermans.

O sabor da provocação

Poderia ter sido o princípio de uma carreira tão estável como discreta nos bastidores da royalty britânica, mas a Alexander isso não lhe bastava. Rumou a Milão, sem dinheiro nem outra bagagem além da determinação: queria trabalhar com o seu ídolo, Romeo Gigli, e conseguiu-o. Tal como os mestres alfaiates de Savile Row, o italiano compreendeu de imediato que estava perante um sobredotado, um executante de exceção. Com estas credenciais (e o investimento financeiro de uma tia que trabalhara em moda), entrou na Saint Martins, onde se tornou uma celebridade ainda em plena formação.

Por essa época, e sem dinheiro, foi a utilizar materiais que encontrava, roubava ou pedia, aqui e ali, ou a recorrer aos apoios sociais que recebia em detrimento do seu próprio conforto, que a stylist e socialite Isabella Blow o descobriu, em êxtase. Comprou-lhe toda a primeira coleção – Jack the Ripper Stalks his Victims – e propôs-se apresentá-lo às pessoas certas. Como um Pigmaleão, sugeriu-lhe que adotasse o nome de Alexander em vez de Lee, porque sugeriria mais mistério e exotismo. A aposta foi totalmente ganha.

Tornou-se rapidamente the next big thing da moda britânica, o correspondente ao que Damien Hirst era, também por essa altura, nas artes visuais. Desenhou o guarda-roupa de David Bowie para a digressão mundial de 1996-1997 (é dele a casaca com a bandeira britânica, The Union Jacket, usada pelo cantor na capa do álbum Earthling) mas também colaborou com Bjork, ao assinar o vestido topless, com pérolas, que ela usou no videoclip de Pagan Poetry.

Com ou sem a luva de falcoaria (um passatempo de gosto medieval que os unia) de Isabella Blow a conduzi-lo, Alexander McQueen cedo mostrou ter um universo muito próprio, de que não abdicava em prol do comércio ou do gosto dominante. Apaixonado pelos mestres da pintura flamenga do século XV, pelas referências da literatura gótica oitocentista ou pela paisagem natural, humana e mítica da Escócia, de onde viera a família de seu pai, glosou esses temas de uma forma mais orgânica e essencial do que meramente decorativa. Mostrara logo ao que vinha, quando na primeira coleção usara pedaços de cabelo humano no interior de casacos, repetindo um gesto muito frequente no culto vitoriano dos mortos, quando era hábito guardar uma última madeixa junto à fotografia de quem já partira. A beleza agreste da corrupção dos corpos por oposição ao brilho e ao glamour do mundo da moda, em que se movia, fascinava-o. Como se o rapaz pobre do East End, “quase um hooligan”, tal qual se ouve no documentário que chega às salas no próximo dia 4 de outubro, gritasse aos senhores muito bem-postos na fila da frente: “Vindes do pó e a ele regressareis.”

Nem mesmo no auge da fama e do sucesso McQueen abdicou da provocação, que parecia ter tomado como missão sua. Fazia-o nas coleções mas, sobretudo, nos desfiles em que as apresentava e que eram, na verdade, muito mais do que roupa bonita em corpos bonitos. Em 1994, The Birds fez correr muita tinta. Para homenagear o cineasta Alfred Hitchcock, enclausurou público e a imprensa num armazém mais ou menos decrépito, com a banda sonora constituída apenas por sons de pássaros e acidentes de carros. Também foi nesse momento que apresentou calças de cintura extraordinariamente descida (The Bumpster), já que, alegadamente, queria atirar nádegas e pelos púbicos à cara da todo-poderosa editora de moda Anna Wintour e seus sequazes.

A polémica subiu de tom com a coleção Highland Rape, de 1995, quando o criador pôs na passerelle modelos em situação de fuga, as roupas desalinhadas e rasgadas, as lentes de contacto opacas a mostrar o negrume que um predador, que nunca vemos, lhes fizera descer sobre a alma. Levantaram-se vozes contra tamanha violência e a alegada misoginia de McQueen. Em sua defesa, ele diria que toda a coleção pretendia evocar a violação contínua dos ocupantes ingleses sobre a Escócia, mas acabaria por admitir que lidava também com as sombras da sua infância, já que ele próprio e a sua irmã mais velha teriam sido alvos de contínuos abusos por parte do marido desta.

Contemplação do abismo

Este homem que testava permanentemente os limites técnicos e mentais da sua arte, este iconoclasta que jurou ter escrito obscenidades no forro dos casacos do príncipe Carlos (o que os seus patrões de Savile Row desmentiriam), foi, aos 27 anos, convidado a assumir a direção da histórica casa Givenchy, cujas criações ele punha na secção “roupa para velhas com dinheiro.” Com a sua trupe barulhenta, calçada com botas da tropa, mudou-se para Paris e tomou a Avenue Montaigne de assalto. As primeiras críticas da exquise imprensa francesa, pouco à vontade com a chegada dos britânicos às tradicionais maisons de couture (John Galliano, outro sobredotado, estava então na Dior), não são simpáticas. Porém, McQueen não se deixa intimidar. Aos jornalistas dirá então: “Quero que as pessoas saiam de um desfile meu deslumbradas ou horrorizadas; quero é que sintam uma emoção.”

Manteve-se na Givenchy até 2000, sem nunca ter abandonado a própria empresa, em Londres. O trabalho intensificava-se de forma assustadora, e McQueen não era homem para delegar o mínimo pormenor. Tornou-se ansioso, obsessivo, consumia doses crescentes de drogas que lhe permitiam suportar tamanha pressão. Querendo expandir o negócio, cedeu 51 por cento da Alexander McQueen à Gucci, mantendo, no entanto, o controlo criativo das coleções. Dois anos depois, lançou o primeiro de dois perfumes e, em 2003, recebeu da rainha Isabel a Ordem do Império Britânico. Em 2004, apresentava a primeira coleção para homem e, em 2006, a sua linha mais acessível: McQ.

Era como se tivesse calçado os malditos sapatos vermelhos da história infantil: não conseguia parar, cada vez mais irascível e tirânico, mais rico, mais elegante e, no entanto, cada vez mais sombrio. O predador de si mesmo. Em 2001, a coleção Voss foi apresentada num espetáculo perturbador, em que as modelos desfilavam no interior de uma caixa de vidro, culminando tudo com a abertura de um cofre gigante onde, reclinada sobre um canapé, estava uma mulher nua e obesa, coberta de traças.

Mesmo em Paris, entre champanhe e macarons, ele nunca perdera o fascínio pelo lado negro da beleza: continuava a ser o miúdo que não resiste a desmanchar os brinquedos para ver do que estes são realmente feitos.

Em 2010, a morte da sua mãe, vítima de cancro, foi mais do que conseguiria aguentar. A 11 de fevereiro desse ano, depois de encher a casa de velas numa montagem cénica digna dos seus desfiles, enforcou-se, deixando um gentil pedido de desculpas aos irmãos. O mito de Alexander McQueen acabara de começar. Tanto no Metropolitam Museum of New York (em 2011) como no Victoria & Albert, na sua amada Londres (2015), a exposição Savage Beauty pulverizou recordes de afluência. Confirmava-se a profecia que o próprio fizera ao mundo no princípio da carreira: “Deem-me tempo e eu dar-vos-ei a revolução.”