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Street art no feminino: Elas sobem aos andaimes e desfazem ideias feitas

Cultura

Cinco artistas que marcam a nossa paisagem urbana, provam que a arte pública há muito deixou de ser um território masculino

José Carlos Carvalho

Tamara Alves
O corpo visceral

Animalidade, Natureza, erotismo e poesia, eis a sua fórmula


A primeira palavra que disse ao mundo? “Bicho.” Facto que ganha simbolismo perante os seus desenhos de mulheres etéreas, em êxtase e comunhão com a Natureza, cercadas por lobos, pássaros ou flores. “Gosto de assumir a nudez, quero que os corpos digam algo”, assume Tamara Alves, 34 anos, algarvia de Portimão. Acrescenta: “Os animais, influenciados pela tatuagem e pela ilustração japonesa, surgiram-me porque dão força: o rugido de um tigre grita mais forte do que um humano. O meu trabalho foca-se muito no instinto animal; as rotinas adormecem-no, mas é importante escutar e respeitar a nossa natureza. A Natureza é perfeita.” Encontrar um mural desta artista proporciona uma sensação surreal. E ecoa a “epifania” poética provocada pelos seus escritores preferidos, onde inclui o Al Berto de Lunário. “Tinha 20 anos quando descobri Allen Ginsberg e a Beat Generation, e até aí pensava que a poesia tinha apenas bons sentimentos, palavras bonitas. Com estes autores, percebi que se podia dizer coisas de forma visceral.”

Então estudante de pintura na ESAD, nas Caldas da Rainha, ela preferia usar portas, cartão, vidros de carros, já fascinada pela “estética da rua”. “Pintar na rua era tabu, tinha de se ter uma crew [grupo]... Os outros faziam tags, eu comecei a fazer colagens, usando o spray como ferramenta. Tinha já o tema da mulher melancólica, a dançar, retirada do meu bloco de esboços.” O desenho, afirma, é para ela mais importante do que a cor. Os seus modelos são os amigos. Já desenhou no País inteiro: os groupies da street art (sim, existem) seguem-na, mas também já teve uma senhora, territorial, a sussurrar-lhe: “Tu trabalhas para o diabo.” A artista sabe o que quer: “A street art é para todos, interessa-me o seu lado solidário e comunitário, levar a arte a bairros desfavorecidos, inspirar miúdos. Eu não quero fazer arte decorativa, quero intensidade. Se nos dão uma parede e não aproveitamos esse poder, é um desperdício.”

Vanessa Teodoro (aka The Super Van)
O antivazio

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O caos de “bonecos” criados num preto e branco gráfico é a sua marca


Esta sul-africana de nascimento e designer de formação esteve quase uma década em agências de publicidade, até perceber que a ilustração era o que queria fazer. Hoje, Vanessa Teodoro trabalha num universo em expansão: murais, lenços, camiões do lixo, malas, cerâmicas, exposições, e até carros (intervencionar um Jaguar E-Pace está na lista das encomendas). The Super Van nasceu nos trabalhos de rua. “O desafio dos grandes formatos obriga-me a sair da minha zona de conforto”, afiança. Aí, criou a sua multidão de “bonequinhos”, bocas de lábios vermelhos, padrões africanos, contrastes cromáticos − tudo pelo “horror ao vazio”. “Sinto-me influenciada pelo movimento da pop art e dos traços gráficos e fortes do Keith Haring”, assume. E não desdenha uma intenção feminista, patente, por exemplo, nos murais dedicados a Frida Kahlo (em Lisboa) ou à igualdade de género (em Almada): “Gosto de retratar figuras femininas fortes. Sou a favor de haver mais mulheres a entrarem em festivais de arte urbana, a serem representadas por galerias e a serem valorizadas por colecionadores, independentemente do género.” E porquê o número ainda reduzido de mulheres? “É uma área fisicamente exigente: baldes, latas, andaimes, gruas, vento, chuva, piropos inadequados dos cavernosos que passam... E tem sido maioritariamente um boys club, mas não sinto sexismo por parte dos artistas. A sociedade é que tem a ideia de que a street art é algo mais subversivo, logo mais masculino”, opina. E Vanessa dispensa outras ideias feitas, como a do artista antissistema: “Vem dos artistas old school do graffiti essa ideia de que o ilegal é que é a verdadeira essência da arte de rua, e que se, trabalhares numa galeria ou para uma marca, és ‘vendido’. Mas, hoje, até esses artistas viraram para o ‘lado negro da Força’, porque há contas para pagar...”

Mariana Dias Coutinho
Invasão poética

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Luis Barra

As marcas do tempo como ferramenta de trabalho


“A minha metodologia consiste em apropriar-me de materiais que desconheço, explorando a sua materialidade até aos limites”, diz a artista plástica, nascida em 1978, formada em Conservação e Restauro, agora a viver com o marido e os três filhos em Odemira, lugar onde cofundou o projeto A-F-Á-B-R-I-C-A (centro criativo antidespovoamento da região). Foi a vontade de superar limites que conduziu Mariana Dias Coutinho para o espaço público: “O meu primeiro mural [nas Janelas Verdes, em 2013] aconteceu na continuidade de um trabalho de pinturas sobre papel que culminou na necessidade urgente de as expandir para fora do espaço do atelier, foi um momento revelador.” Outros murais surgiram, como as obras resultantes do convite da GAU (Galeria de Arte Urbana da Câmara Municipal de Lisboa), para homenagear poetas que viveram no bairro da Graça. Quem desce o Miradouro do Monte, encontra logo o seu retrato de Florbela Espanca.

Resiste a definir-se como street artist, tem outras bússolas: “Procuro ter uma abordagem de constante interrogação, de iluminação da questão fenomenológica sobre o Ser, com particular atenção aos temas da desigualdade, questões de género, ecologia e sociedade de consumo.” E o seu método é singular: Mariana fascina-se pelas manchas e fissuras deixadas pelo tempo nas paredes, acrescentando-lhes pinceladas pretas (nada de spray) ou raspando-lhes a superfície. Assim emergem figuras delicadas, reminiscentes do Barroco, do Renascimento ou da arte sacra, ou homenagens literárias (como Desassossego, já desaparecida). “A arte urbana como prática crítica interroga a cidade e o modo como esta tem sido socialmente construída, representada e vivida. É esta a minha reflexão, a sua possibilidade de ser tanto inflexão como espelhamento.”

Maria Imaginário
Corações independentes

Diana Tinoco

Humor, biografia e catarse são os seus principais ingredientes


No tempo em que Lisboa ainda não fora descoberta como paraíso turístico, entre 2005 e 2009, Edna pôs mãos à obra: “Entristeciam-me os prédios abandonados, e queria subverter este ambiente cinzento, criar uma imagem positiva, adocicar a cidade.” Surgia Maria Imaginário, tag [assinatura] para a série Delicious: dezenas de tartes, gelados e doces que coloriram a cidade. “A aceitação foi grande. Não havia um dono indignado. As pessoas reconheciam o meu trabalho, que as fazia sorrir, e ofereciam-me lanches, escadotes...” Aprendiz de street art, acabou muitas vezes na esquadra, perante a polícia “incrédula”: “Uma rapariga não entrava no estereótipo do graffiter.” Foi uma das razões que a afastaram das ruas: “Fiquei farta de ter de me mostrar sonsa, de ouvir as conversas machistas e discriminatórias do ‘devias era estar em casa...’”

A artista de 32 anos, que estudou ilustração na Ar.Co e trabalhou em part-time em lojas de roupa e dando aulas de desenho a crianças, sabe que os seus doces já quase desapareceram das paredes, “É bom haver mudança, ideias novas. Eu sou pelo gozo de fazer e de seguir para o próximo projeto”, atira. Tanto assim é que introduziu novos temas no seu trabalho, como o Coraçãozinho de Merda (catarse para um desgosto amoroso), em 2010, ícone que chegou a pintar, “com tintas de construção improvisadas e a esconder-me de cinco em cinco minutos”, num muro na Palestina. Hoje, o seu trabalho tornou-se mais conceptual, biográfico e irónico: “A ferramenta fundamental é a cabeça, não as mãos.” Maria reinventou suportes (quer “explorar o chão em vez da parede”), expõe em galerias e ambiciona fazer instalações imersivas: “Quero que o público entre na bolha, no meu universo fofinho mas agridoce.”

Catarina Monteiro (aka Glam)
Bestiário à solta

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Da obra bidimensional à tridimensional e vice-versa


“A minha estética define o meu percurso: é uma fusão entre ilustração, graffiti, animação, elementos da cultura anime japonesa, o movimento do paper craft, a escultura, a manualidade do hand-made, o trabalho de autor...” É também a história de vida que transformou a lisboeta Catarina Monteiro, 32 anos, na artista urbana Glam. Estudante de design gráfico na Escola António Arroio e nas Belas-Artes, ela sentia-se “fascinada” pelos graffiti: “Era uma espécie de movimento secreto, misterioso, em que ninguém sabia quem eram os artistas.” A técnica do spray interessava-a, fazendo-a espreitar os projetos nos cadernos dos colegas. “Um dia comprei umas latas de spray sem dizer a ninguém, escolhi um nome e, à noite, fiz um desenho perto da minha casa: as letras do nome em 3D. Fui para casa toda contente.” Passado pouco tempo, fundava uma crew de raparigas: OGA (isto é, “only girls allowed”), que Maria Imaginário também integrava, motivada pela adrenalina de marcar “os sítios mais importantes”.

Mas Catarina queria, diz, um trabalho de autor: pintou murais, interessada na “ideia de reabilitação dos espaços”; descobriu a escultura em papel e os paper toys; experimentou arte tridimensional em madeira (e tirou o curso de carpintaria na Fundação Ricardo Espírito Santo); chegou aos sólidos geométricos, criações complexas e originais na cena da street art. Hoje, as ferramentas acumulam-se em casa e os acidentes fazem parte do processo: “Ando sempre com cortezinhos...” Agora, a trabalhar numa instalação para o Amadora Festival Poesias de Rua, integra-se numa tendência bem contemporânea. “Continuo a querer fundir pintura com arte urbana e escultura, a trabalhar muito com madeiras recicladas; é uma nova corrente de artes plásticas que está a ganhar um impacto enorme.” Não é por acaso que tem o incentivo do amigo Bordallo II. No entanto, Glam recusa qualquer rótulo ecológico preponderante: “Cada peça tem a sua própria mensagem.”