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U2: O declínio de uma fã

Cultura

Sónia Calheiros

Danny North

Uma boa dose de nostalgia e serenidade na contagem decrescente para o concerto desta noite no Altice Arena, em Lisboa, o primeiro da banda irlandesa no nosso País num recinto fechado

Tive nove meses para ouvir Songs of Experience, o último álbum dos U2, o 14.º de estúdio editado em dezembro de 2017. Mas não o fiz, sei apenas que tem uma música intitulada You’re the Best Thing About Me, simplesmente porque gosto da frase. Diga-se de passagem que também não dei muita importância a Songs of Innocence (2014)... São precisamente estes dois álbuns que dão o mote para a digressão mundial Experience + Innocence iniciada em maio, nos Estados Unidos da América, e que a 31 de agosto aterrou na Europa, num palco de Berlim, onde Bono perdeu a voz.

Agora este domingo e segunda-feira, 16 e 17 de setembro, passa pela Altice Arena, no Parque das Nações, em Lisboa – a primeira sala fechada onde os U2 atuam no nosso País. Ando aqui a pensar que, pela primeira vez, não vou cantar todas as músicas do princípio ao fim do concerto. Sinto uma espécie de remorsos e se, por um lado me culpo, achando que devia ter ouvido os álbuns, por outro, bato no meu próprio ombro, condescendente, sabendo que serei surpreendida pelas novas canções.

Para quem já fez de tudo para ver os U2, de todas as vezes que passaram por Portugal, à exceção do Festival Vilar de Mouros (1982), este é o início do declínio de uma fã. Aos 17 anos, em 1993, para conseguir os cinco mil escudos que o bilhete custava (os bilhetes para os U2 sempre foram caros, apesar de agora esse valor equivaler a pouco mais de €43), tive de realizar uma tarefa doméstica. Limpas todas as portas lá de casa, que ficaram um brinco, recebi o dinheiro e fui a uma dependência bancária comprar o bilhete, sem filas, nem medo que esgotasse. Uma vitória.

Era o tempo dos primeiros concertos realizados em estádios, em Lisboa; por ano, só uma ou duas bandas passava pela capital, na maioria das vezes no antigo Estádio de Alvalade. Já o dia do concerto era sagrado. Este calhou a um sábado, 15 de maio de 1993. Saí de casa de manhã a falar e só voltei de noite, ainda em êxtase, mas afónica de tanto ter cantado, gritado, emocionado. Abertas as portas do estádio, corri tanto que consegui ficar mesmo junto à passadeira do palco, tão perto da banda, que nessa noite descobri como os olhos de Bono eram azuis. Não havia telemóveis entre nós e os ídolos de uma geração. Era preciso guardar as imagens e os sons no baú das recordações, pois não havia Youtube ou dvd’s para mais tarde recordar. Só no dia seguinte, o noticiário da hora de almoço mostrava um pequeno excerto das três primeiras músicas. Até à próxima vez. E foram várias (1997, 2005 e 2010) que para conseguir comprar bilhete me obrigaram a pernoitar em bombas de gasolina, a gastar o plafond do cartão de crédito no mercado paralelo, a esperar horas infindáveis numa fila num centro comercial, a dormir na Figueira da Foz para assistir aos dois concertos de Coimbra, tal era a lotação esgotada da zona. Em 2005, já adulta e a trabalhar na VISÃO há seis anos, fui assistir à cerimónia em que o Presidente da República da altura, Jorge Sampaio, condecorou os U2 com a Ordem da Liberdade. No Palácio de Belém, debaixo do mesmo teto com a minha banda favorita, com o olhar muito próximo e um acenar tímido da minha parte, já havia telemóveis e Internet, mas a emoção bloqueou-me o pensamento e não registei o momento para a posteridade. Só no meu baú de recordações.