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O que é que a K-Pop tem?

Cultura

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As novas bandas pop da Coreia do Sul estão a varrer os tops ocidentais, aplaudidas por uma multidão de fãs. Jovens, bonitos, maquilhados, produzidos, eis, talvez, os Beatles contemporâneos

Aquela primeira semana de junho foi um momento histórico para a K-pop, abreviatura pela qual é identificada 
a nova música pop coreana: os BTS conseguiram o feito de atingir o primeiro lugar do top norte-americano com 
o seu novo álbum, Love Yourself: Tear, ultrapassando nomes como Post Malone, Pink e Arctic Monkeys. Estes sete rapazes sul-coreanos fizeram história: foi a primeira vez que um artista asiático conseguiu tal proeza, tarefa difícil para discos cantados em língua não inglesa. A última vez que tal raridade aconteceu foi há 12 anos, em 2006, com os mais bem-comportados Il Divo. A dançar 
e a cantar, com o cabelo colorido como se fossem personagens de manga, 
os BTS (ou Bangtan Boys, como também são conhecidos) surfam a Hallyu, a denominada “onda coreana” que está a impor-se por toda a parte. A banda, que já comparam com os Beatles, transformou em excelentes performers Jin, Suga, J-Hope, RM, Jimin, V e Jungkook, todos com idades entre os 20 e os 25. 
E, quando se apresentaram pela primeira vez nos Billboard Music Awards, no ano passado, tomaram os Estados Unidos da América de assalto, elevando a K-pop 
a um novo patamar.

O segredo deste sucesso pode ser analisado sob vários prismas, mas a presença nas redes sociais e a proximidade com os fãs são apontadas como alguns dos fatores principais. Isso mesmo foi reconhecido nas duas últimas edições dos Billboard Awards: os BTS venceram o prémio atribuído pelo público de Top Social Artist, deixando para trás ícones como Selena Gomez e Justin Bieber.

Febre aguda

A revista Time considerou a BTS, em junho deste ano, a personalidade mais influente da internet. E quando a banda se apresentou no programa de Ellen DeGeneres, a popular apresentadora chegou a compará-la aos Beatles, tal 
a euforia provocada à entrada do estúdio de televisão, onde a banda foi ansiosamente aguardada por uma multidão de fãs, durante várias horas. Entre 
os admiradores assumidos do coletivo sul-coreano, contam-se estrelas como Tailor Swift e John Legend, que chegou a pedir-lhes um autógrafo, aquando da última visita da banda aos EUA.

Deste lado do Atlântico, a febre BTS também atinge altas temperaturas: em abril deste ano, quando o grupo 
anunciou as datas da sua próxima digressão mundial que, pela primeira vez, os trará à Europa, os bilhetes para os sete concertos de Londres, Amesterdão, Berlim e Londres praticamente esgotaram-se em poucos minutos. Para já, Portugal continua fora da digressão, até porque o preço dos bilhetes para 
os espetáculos, oscilando entre os 250 e os 500 euros, é quase incomportável para o mercado nacional. Mas, por cá, também têm uma imensa legião de fãs, tantos que a cadeia FNAC criou espaços exclusivos para a K-pop. “Reparámos que algumas lojas apresentavam vendas significativas deste género musical. Os clientes iam procurar discos específicos, que encomendávamos através do catálogo de importação, pois não há fornecedores nacionais destas bandas”, conta Inês Condeço. A diretora de comunicação da FNAC, para quem a K-pop “é um género musical com muito potencial de vendas e de notoriedade”, afirma ainda: “Quisemos mostrar aos fãs que estamos atentos às tendências musicais. Atualmente, apenas a FNAC comercializa este género musical no mercado português.” Quanto às preferências dos fãs nacionais, esta responsável não hesita: “BTS, claro.”

A história dos BTS começou em 2010, numa altura em que a K-pop dava os primeiros passos na sua internacionalização. Como é habitual nas bandas 
de ídolos sul-coreanas, como são conhecidas na Ásia, os seus sete membros foram selecionados através de um casting, onde demonstraram o seu talento para dançar, cantar ou rappar. O hip-hop está, aliás, na génese da K-pop: um estilo sem estilo, digamos, pelo modo como mistura sem preconceitos os mais variados géneros musicais. Um dos melhores exemplos desta esquizofrenia musical é I Got a Boy, tema cantado pelas Girls’ Generation, que se tornou um verdadeiro caso de estudo, por conseguir, em pouco mais de três minutos, passar por 13 estilos musicais diferentes, incluindo rock, pop, hip-hop e eletrónica. As Girls’ Generation, uma das mais populares girls’ bands da Coreia do Sul, também fizeram história em abril deste ano: foram o primeiro grupo 
de K-pop a atuar na vizinha Coreia do Norte, num concerto presenciado pelo próprio Presidente, Kim Jong-un.

Mas o fenómeno K-pop começou há algumas décadas. Mal imaginava o rapper Seo Taiji a revolução que iria iniciar quando, em 1992, se apresentou num programa de talentos da televisão sul-coreana, em que foi destratado pelo júri: não sabia cantar nem dançar, vestia-se mal, as letras eram perigosas para a juventude sul-coreana, disseram-lhe. Mas a banda Seo Taiji and Boys tornou-se um verdadeiro fenómeno de popularidade junto 
da juventude sul-coreana, sedenta de uma música com a qual se identificasse. A ditadura da Quinta República sul-coreana já havia terminado, em meados dos anos 1980, mas as leis culturais do país ainda eram as do antigo regime, e músicas como Came Back Home, o primeiro grande êxito de Seo Taiji, sobre um rapaz em fuga 
de casa dos pais, nada tinham que ver com as canções patrióticas que eram a norma na insípida música pop do país.

Seo Taiji and Boys retiraram-se em 1996, no auge da carreira e após baterem todos os recordes de vendas na Coreia do Sul. Seguiu-se-lhes o surgimento 
de uma verdadeira indústria, impulsionada pelo empresário e antigo cantor Lee Soo Man, o primeiro a ver nesta música um produto para exportação e que começou por criar um grupo, H.O.T., que ocupou o espaço mediático deixado vago por Seo Taiji. Atualmente, ele é o presidente da SM Entertainment, uma das maiores agências e editoras de música da Coreia do Sul, que trabalha com algumas das bandas de K-pop mais conhecidas: H.O.T., Shinhwa, TVXQ, Super Junior, Girls’ Generation, SHINee, EXO e Red Velvet, entre outras. O sucesso foi tanto que o próprio Governo sul-coreano passou a encarar a K-pop como um assunto de Estado, com direito a orçamento exclusivo para promoção destes grupos.

“O número de fãs de K-pop está 
a aumentar cada vez mais e engloba, atualmente, quase todos os continentes, ultrapassando barreiras linguísticas e culturais. Este interesse estende-se ainda 
a outras áreas da cultura sul-coreana, como a língua e a gastronomia, o que acaba por projetar uma imagem positiva da Coreia do Sul no mundo. Na consequência disso, tem-se verificado um impulso nas exportações de conteúdos audiovisuais, 
de cosméticos e de muitos outros produtos sul-coreanos, graças à popularidade dos ídolos da K-Pop”, diz Jin Sun Lee 
à VISÃO. A diplomata da secção cultural da embaixada da Coreia do Sul em Lisboa confirma uma estratégia que vai além dos apoios orçamentais: “O Governo sul-coreano leva a cabo diversos eventos culturais, em parceria com centros culturais sul-coreanos no estrangeiro e com a Agência de Conteúdos Criativos da Coreia do Sul, com o objetivo de continuar 
a expansão desta onda coreana, designada por Hallyu.” Um dos mais importantes eventos contemplados é o K-Pop World Festival, organizado desde 2011 pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, que reúne fãs do mundo inteiro na cidade de Changwon, na Coreia do Sul, para concorrerem nas categorias de canto 
e performance. “Em 2014, aí participou a portuguesa Filipa Cardoso”, conta Jin Sun Lee. Em Portugal, estas eliminatórias acontecem, desde 2012, em lugares como o Museu do Oriente, o Teatro Maria Matos e o Espaço Lisboa ao Vivo, e a participação tem aumentado a cada ano.

Fábrica de ídolos

Ao contrário do que é a prática habitual no Ocidente, em que um artista dá nas vistas e só depois é contratado por uma editora, no universo da K-pop são os aspirantes a ídolos que procuram as agências. Aí, segue-se uma sucessão de castings e um período de treino que pode durar anos, sem os candidatos terem qualquer certeza sobre quando ou se alguma vez integrarão um grupo musical. Um modelo de funcionamento próximo do que, nos anos 1960, era praticado pela norte-americana Motown Records.

Nos últimos anos, estrearam-se centenas de bandas K-pop, algumas destas já com elementos estrangeiros, como japoneses, chineses e até australianos. Mas, além de saberem cantar e dançar, os membros dos grupos K-pop têm de corresponder a determinados padrões de beleza e de comportamento social. Cabelo, maquilhagem, guarda-roupa, pose, tudo é minuciosamente produzido. A componente visual 
é um fator determinante neste estilo musical, como se comprova pela observação dos telediscos, exemplarmente realizados e com efeitos especiais, de fazer inveja 
a qualquer blockbuster de Hollywood. 
E alguns destes performers tornaram-se também ídolos no mundo da moda – os BTS, por exemplo, já foram capa da edição norte-americana da revista Vogue.

As bandas K-pop são compostas por diversos membros, quatro no mínimo, mas também podem ser muitos mais, todos eles diferentes entre si, cada um com personagens e funções bem definidas: há o cantor, o dançarino, o rapper e, quase sempre, um elemento mais novo – que acaba por funcionar como mascote do coletivo. Os nomes escolhidos para batizar estes grupos são normalmente curtos, como se fossem compostos por siglas, de forma a serem facilmente assimilados pelo público estrangeiro. E as letras das canções? Contêm quase sempre pequenas frases em inglês, estratégia para tornar 
a música mais apelativa a quem não entende sul-coreano. Algumas bandas fazem também versões das músicas para os diferentes mercados asiáticos: é o caso dos EXO, que têm elementos que cantam em chinês, ou dos incontornáveis BTS, cujos álbuns costumam ter duas edições, uma cantada em sul-coreano, outra em japonês.

Música de intervenção

Sendo um estilo aparentemente tão 
formatado, tanto na forma como no conteúdo, não é de estranhar o sucesso dos BTS – são um dos poucos grupos 
de K-pop a escrever e a produzir os próprios temas. As suas letras fogem igualmente aos habituais lugares-comuns 
da pop para adolescentes, amor e desamor, abordando questões como a autoconfiança e a autoestima, sempre com uma componente de crítica social muito presente. 
“Não são como os outros grupos, eles falam de assuntos realmente importantes”, afirma Maria Belo, 13 anos, vestida com uma camisola do grupo que a identifica como Army, o nome pelo qual são conhecidas as fãs dos BTS. E são muitas as que existem no liceu de Carcavelos, onde Maria estuda e onde a rivalidade com as Exo-L (isto é, as fãs dos EXO) se estendeu da internet para o espaço físico da escola. “Deixamos recados umas às outras nas casas de banho da escola”, confessa esta aluna do 8º ano. Já Karina Vitrova, também de 13 anos, não tem tanta companhia para falar de grupos como os BTS, EXO 
e NCT na Escola Amato Lusitano, em Castelo Branco. “Aqui, não há muitas pessoas que ouçam esse género musical, apenas o meu grupo de amigos”, diz. Esta aluna do 9º ano começou a ouvir K-pop através da mãe de uma amiga. Foi amor à primeira audição: “Não há palavras para descrever o porquê de eu gostar deles. São sentimentos que não sei explicar! É um amor muito grande, apesar de nunca ter visto estes grupos ao vivo. Talvez seja porque as músicas falam sobre assuntos que a maior parte dos outros artistas pop ignora.”

A portuense Inês Teixeira é, aos 
22 anos, talvez uma das fãs portuguesas mais antigas de K-pop, género que começou a ouvir em 2010, “quando andava no 11º ano”. O interesse pela cultura asiática começou ainda em criança, através 
da manga e do anime (banda desenhada e desenhos animados japoneses). Um dia, enquanto vagueava pela internet, tropeçou na K-pop: “Apaixonei-me logo, por ser uma sonoridade diferente e nova, sem os estereótipos da música ocidental.” Os seus artistas favoritos são “mais antigos, como Shinee, Big Bang, Super Junior, TVXQ 
e Infinite”, e, apesar de também gostar 
de grupos mais recentes, como BTS 
e EXO, faz questão de lembrar que “houve um caminho antes deles”. O encanto pela K-pop foi tal que Inês tirou um curso 
de língua sul-coreana, em horário pós-laboral, na Faculdade de Letras do Porto (também há em Lisboa, na Universidade Nova). A palavra hallyu, a tal onda coreana, está lá na página online da instituição, em jeito de piscadela de olho aos fãs de K-pop. Hoje, a paixão de Inês pela Ásia transformou-se também em profissão: trabalha como compradora de acessórios de moda para uma marca portuguesa 
de vestuário, o que a obriga a viajar regularmente para o continente, que ela aprendeu a amar através da música. Afinal, a K-pop consegue mesmo mudar a vida das pessoas.

K-pop 
para leigos

Glossário básico para surfar 
o fenómeno

K-pop
 Abreviatura de korean pop, música pop coreana, embora o termo seja hoje usado para descrever a pop sul-coreana moderna, inspirada no hip-hop e no R&B norte-americano

Hallyu
 Significa “onda coreana”, expressão criada para explicar a crescente popularidade da cultura sul-coreana no Ocidente, impulsionada pela música mas não só

Aegyo 
Caracteriza um artista “naturalmente fofo”, na forma como canta, como sorri ou como fica bem nas fotografias

Sunbae Identifica um artista há muitos anos no ativo

Hoobae
 Significa um artista acabado de entrar na indústria

Lightstick 
Bastões iluminados que o público usa nos concertos de K-pop. Cada grupo tem o seu próprio lightstick, com nome, cor e símbolo oficial

Sasaeng
 Fãs fanáticos e desrespeitosos, que perseguem ou invadem a privacidade dos artistas de K-pop

Maknae 
Elemento mais novo de um grupo

Trainee
 Aspirantes a ídolos em período de treino nas agências

Bias
 Um dos termos mais usados pelos fãs, identifica o elemento favorito de um grupo

O lado negro 
da K-pop

O suicídio do vocalista dos Shinee, em 2017, levantou questões sobre esta máquina 
de fazer estrelas

Para proteger os artistas da exploração das editoras, dos contratos abusivos e da pressão exercida sobre eles, foram criadas, em 2009, leis especiais 
que limitam o tempo 
de duração dos contratos. Ainda assim, a discussão sobre 
a pressão exercida pelo mercado continua bem viva, especialmente desde que foi noticiado o suicídio, num apartamento em Seul, no final do ano passado, de um dos membros 
dos Shinee, uma 
das mais conhecidas bandas de K-pop. 
Kim Jong-hyun morreu aos 27 anos 
– a mesma idade com que desapareceram músicos ocidentais como Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Winehouse.