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Museu (já) não é mausoléu

Cultura

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Praticar ioga rodeado de obras-primas, abordar a arte de uma perspetiva feminista ou visitar uma exposição completamente nu… Sim, é possível. Vale quase tudo para atrair mais gente aos museus

Vânia Maia

Vânia Maia

Jornalista

Os bilhetes esgotaram em 
48 horas. O entusiasmo pela exposição Discorde, Fille de la Nuit, sobre o impacto da História na arte contemporânea, não se devia, apenas, às obras dos artistas. A corrida à bilheteira deveu-se, antes, a um acontecimento inédito no Palais de Tokyo, um dos mais emblemáticos museus de Paris: uma visita guiada em modo naturista, ou seja, até o guia tinha de estar despido. A iniciativa, promovida pela Associação dos Naturistas de Paris, mobilizou mais de três mil pessoas no início de maio.

Nem todos os museus estão disponíveis para acolher eventos tão extremos, mas multiplicam-se as iniciativas que ajudam a desconstruir preconceitos sobre o que se deve esperar (ou não) de um museu. Festas pela noite dentro, dias abertos aos animais de estimação ou aulas de meditação são algumas das estratégias menos convencionais para atrair visitantes adultos (a criatividade sempre fez parte das iniciativas dirigidas às crianças). Portugal não é exceção, sobretudo quando se aproximam dois dias de atividades intensas (ver caixa).

As visitas nudistas ainda não chegaram a Portugal, mas o Museu da Farmácia, em Lisboa, criou um percurso temático dedicado à História da Sexualidade. Os participantes deparam-se, por exemplo, com um preservativo desenvolvido especialmente para prevenir a sífilis, um pioneiro vibrador medicinal de dínamos ou um cinto de castidade usado para proteger as operárias fabris de abusos sexuais.

Não é só o corpo que merece atenção, a mente também. Ioga, tai chi, chi kung ou dança oriental. Estas são algumas das atividades disponíveis quase em permanência na programação do Museu do Oriente, em Lisboa. Também há workshops de alimentação ayurveda (inspirada na medicina tradicional indiana) ou de estética e cultivo de bonsais. Todas estas atividades têm em comum a origem geográfica. “Temos a preocupação de garantir sempre uma ligação ao Oriente. É uma forma de prolongarmos a missão do museu enquanto espaço de encontro”, contextualiza Margarida Mascarenhas, responsável pelo Serviço Educativo do Museu do Oriente.

Os museus sacrossantos já lá vão. Agora, até há os que aceitam visitantes de quatro patas, como o Museu Nacional de Cinema de Turim que, à VISÃO, confirmou receber animais dentro das instalações, desde que “sejam pequenos e possam ser levados ao colo ou transportados em bolsas para animais de estimação”. Também os populares Dog Film Festival e Cat Film Festival, festivais dedicados aos filmes em que cães e gatos são os protagonistas, têm sido acolhidos em vários museus dos Estados Unidos da América que, até ver, só aceitam espectadores bípedes...

As bebidas alcoólicas também se tornaram ferramentas de atração. O Exploratorium, o museu de Ciência de São Francisco, EUA, organiza uma iniciativa dedicada à Ciência nos cocktails. Além de provar as bebidas, o público aprende como são fabricadas, se é problemático fazer misturas ou o que acontece ao cérebro quando se bebe álcool. Semanalmente, o museu transforma-se num bar e, enquanto os convidados bebem, assistem a palestras de cientistas, legisladores ou outros especialistas sobre temas tão polarizadores como o consumo de canábis.

Em território nacional, o deus dos prazeres vínicos é invocado no Teatro Romano, um dos polos do Museu de Lisboa, na última quinta-feira do mês, através da Hora de Baco, uma degustação de vinhos, patrocinada pela Adega de Pegões, que inclui concertos em pleno museu. Há quem o visite pela primeira vez motivado apenas pela experiência da prova, e, depois, se torne seu frequentador habitual.

E se há bebidas alcoólicas, também há festas, claro. Uma das iniciativas pioneiras a levar vida noturna para dentro dos museus saltou diretamente da ficção para a realidade. Após a estreia do filme À Noite no Museu (2006), o Museu Americano de História Natural, em Manhattan, onde se passava a trama, instituiu as pernoitas exclusivamente para adultos. Habitualmente esgotadas, apesar de custarem quase €300 por pessoa, incluem jantar volante, brinde com champanhe, sessões de cinema, jazz ao vivo e visitas guiadas à luz de lanternas.

Já o Palácio Pimenta, o polo do Campo Grande do Museu de Lisboa, instituiu um Baile Barroco de Carnaval, que inclui concertos e até aulas de dança de roda, fazendo justiça à herança barroca do edifício. Por ocasião do Dia Internacional dos Museus (sexta, 18 de maio), o baile foi multicultural e dedicado à diversidade da capital. “Procuramos promover eventos que estejam relacionados com a história do museu ou da cidade, potenciando 
o que temos para oferecer”, esclarece a diretora, Joana Sousa Monteiro.

A exposição sai à rua

Tornar figuras públicas embaixadoras dos museus está a generalizar-se como uma forma de influenciar futuros visitantes – ou não vivêssemos na sociedade do espetáculo. O Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, apresenta esta semana a iniciativa 12 Escolhas, no âmbito da qual uma dúzia de personalidades escolheram outras tantas peças, com inteira liberdade, criando 
12 percursos alternativos pelo museu, que serão revelados ao longo de um ano. 
O primeiro, inaugurado no Dia Internacional dos Museus, é da responsabilidade do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Haverá um desdobrável com textos destes “curadores emocionais”, justificando as suas escolhas, além de informação histórica sobre cada uma das obras selecionadas. “O museu nunca está visto”, salienta o diretor do MNAA, António Filipe Pimentel. “A cada visita, veem-se sempre coisas diferentes.” 
E é essa singularidade que os percursos pretendem demonstrar.

O MNAA tem tradição na aproximação ao grande público. Já expuseram peças das suas coleções em centros comerciais e, em 2015, reproduziram três dezenas das suas obras-primas e penduraram-nas em ruas do Chiado, do Bairro Alto e do Príncipe Real. Curiosamente, as poucas que desapareceram não foram vandalizadas, mas levadas para bairros de contextos socialmente vulneráveis, “também eles dignos de as receberem”, sublinha António Filipe Pimentel. Agora, “o museu não é um roadshow”, alerta. “Deve comunicar, mas não banalizar.

Deve seduzir através da paixão pelo conhecimento, equilibrando o rigor e a compreensão, mas sem facilitar.” Daí o perigo de procurar museus puramente celebrativos de determinados acontecimentos ou épocas históricas. 
O espírito crítico é indispensável. Nesse sentido, o MNAA organiza visitas subordinadas a temas tão pertinentes como os testemunhos da escravatura presentes nas suas obras. A exposição temporária Explícita. Arte Proibida?, que será inaugurada esta semana, inclui nus masculinos e femininos, fomentando o debate em torno de uma questão amplamente discutida: pode a arte ser censurada?

É difícil contabilizar até que ponto estas estratégias contribuíram para o aumento dos visitantes do MNAA, que duplicaram nos últimos sete anos. Aliás, os museus, os monumentos e os palácios tutelados pela Direção-Geral do Património Cultural bateram recordes no ano passado. Pela primeira vez, receberam mais de cinco milhões de visitantes num só ano, o que representa um crescimento de oito pontos percentuais relativamente a 2016, facilmente explicável pelo atual magnetismo turístico do País.

Os revolucionários do museu

A startup norte-americana Museum Hack é especialista em revolucionar os museus. No ano passado, 20 mil pessoas participaram nos seus tours. À VISÃO, o fundador, Nick Gray, nega que as novas gerações sejam desinteressadas: “Na sua maioria as pessoas que fazem visitas connosco são millennials. Esta geração quer ir aos museus e quer que captemos a sua atenção, mas temos de o fazer de maneira diferente do passado.”

“Diferente” é o adjetivo que melhor assenta à empresa. Os seus tours mais populares são as visitas feministas, focadas nas artistas presentes nas coleções e nas razões da sub-representação das mulheres no mundo da arte, e o nome é revelador: Badass Bitches Tour (qualquer coisa como “cabras destemidas”…). Os percursos são adaptados às coleções de cada um dos seus parceiros, entre os quais está o Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque, o qual já acolheu visitas dedicadas às suas obras de arte que refletem a temática lésbica, gay, bissexual e transgénero. Chegaram a fazer tours dedicados à forma como a realidade inspirou a série 
A Guerra dos Tronos, estabelecendo paralelismos, por exemplo, entre o real Colosso de Rodes e o ficcional Titã de Bravos. O museu recebe, ainda, despedidas de solteiro que podem incluir uma digressão por seis mil anos de História segundo a representação na arte dos… rabos.

Terão sido os museus inevitavelmente capturados pela pura diversão? “Muitos visitantes dão prioridade ao entretenimento e não à educação”, defende o fundador da Museum Hack. “Os nossos tours são entretenimento, mas é óbvio que também ensinam”, sublinha.

O artista plástico Pedro Portugal escreveu recentemente um artigo de opinião em que identificava sinais da decadência das grandes superfícies culturais: “O departamento de marketing é hoje o mais poderoso na gestão destas estruturas; é estratégico na economia da atenção destas sempre mais caras superfícies culturais que se aumente a circulação de artistas 
celebridades e a arte seja apresentada como um lifestyle equivalente à música pop.” Aliás, a Museum Hack promete “toneladas de selfies com obras-primas”... Está visto que os museus já não são o que eram. Nem os seus visitantes.