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Sou apologista da ‘paulada’: não tento ser subtil, quero criar impacto, contrastar"

Cultura

Residentes da favela da Mangueira assistem ao fogo de artifício da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, no Estádio do Maracanã. O preço dos bilhetes para a cerimónia alcançou os 700 dólares, mais do triplo do salário mínimo no Brasil”

João Pina

O lançamento do livro de João Pina sobre a violência no Rio de Janeiro foi o pretexto para uma conversa de vida com este nómada do fotojornalismo, já a sonhar com o Tarrafal

O número na capa é 46750. Não é mera estatística, fria. É o total de homicídios cometidos durante o período (2007-2016) em que o mais prestigiado fotojornalista português no estrangeiro se enfarinhou na violência do Rio de Janeiro. Estamos habituados a ver as imagens de João Pina (Lisboa, 1980) destacadas na New Yorker, Washington Post, The New York Times, Le Monde, El País, Stern e outras publicações de referência. No próximo dia 18, sai o livro, cujo título é um número desatualizado, mas no qual mora um quotidiano perpétuo.

Em março último, João acompanhou, de forma obsessiva, a impressão da obra numa gráfica dos arredores do Porto. Diante de uma francesinha tardia saboreada na cidade onde viveu, desvendámos páginas da odisseia brasileira, mas muitas mais sobre o seu percurso, a sua experiência na Fundação Nieman de Jornalismo, em Harvard, e os seus sonhos e projetos que ainda alimenta.

Diz-se que o tema da violência urbana no Rio está gasto. O que há de diferente nesta abordagem?

Há poucos livros sobre o assunto. Tens Abusado, de Caco Barcellos, e Cidade Partida, de Zuenir Ventura. Não conheço mais. A minha narrativa é diferente, e não é. Para um carioca, esta guerra quotidiana é normal. 
Porém, o meu olhar é o de um estrangeiro que não é gringo e fala a língua. Queria conhecer a realidade a fundo: traficantes, polícias, tentar perceber porque é que morrem 60 pessoas num fim de semana, como é que um miúdo negro de 11 anos entra para o tráfico e morre aos 18, ou o que um evento como os Jogos Olímpicos faz à vida das pessoas e dos bairros. Há camadas de complexidade. Olhei para a violência de todas as formas, também do ponto de vista simbólico. Por razões históricas e estéticas, era importante para mim conceber e idealizar uma narrativa assim em livro.

Lucilia Monteiro

Como foi desconstruir aquela realidade?

Parto sempre para as coisas sem julgar. No Rio, a narrativa da Imprensa é feita de bons e maus, e isso chateia-me. A polícia mata mais de mil pessoas por ano. Diz-se que matou um “bandido” e pronto. Não há contraditório nem “alegado”. A narrativa mediática aumenta o problema, diaboliza o traficante e, por vezes, também a polícia. Mas a vox populi diz “bandido bom é bandido morto”... Queria um olhar diferente.

Como foi entrevistar Fernandinho Guarabu, veterano do tráfico no Rio?

Primeiro, nunca podemos pensar que somos mais espertos do que ele. Entrevistei-o e fotografei-o no quarto, onde havia a cama, um sofá, duas cadeiras e uma televisão grande (o Jon Lee Anderson fez depois o perfil deste para a New Yorker). Havia um sofá com uma kalashnikov novinha em folha. A voz tremia-me. No fim, quis fotografá-lo no sofá. Ele concordou e pediu a um dos seus homens para afastar o fuzil. “Ah, não, deixe estar”, sugeri. “Não”, reagiu ele. “A minha cara já é um fuzil.” Não vale a pena recorrer a truques...

Qual é a expectativa de um traficante quando se deixa retratar assim?

Estas figuras normalmente não falam; na verdade ninguém tenta ouvi-las. O Fernandinho é absurdamente inteligente, com um instinto de sobrevivência gigante, mas é vaidoso, gosta de aparecer – e de sair na New Yorker, coisa que deve ter causado um mal-estar enorme às autoridades do Rio. Obviamente, também jogamos com essa vaidade. Como temos acesso ao político? Não é a mesma coisa? É tudo uma questão de egos.

O recente homicídio da vereadora brasileira Marielle Franco simboliza o quê?

Simboliza um extremar da situação no Rio. Marielle era uma mulher nascida na favela, que subiu a pulso na vida, formada em Sociologia, e que virou política para dar voz às atrocidades cometidas diariamente contra a população das mais de mil favelas daquela cidade. Ela dava também uma atenção importante às mulheres e à comunidade LGBT. Sendo ela política eleita e tendo sido executada em pleno centro do Rio, a poucos metros da prefeitura, isto é de uma simbologia enorme. Porém, as reações, de enorme mobilização e consternação, dão-me esperança. Da adversidade surgem mudanças. Esperemos que este assassínio sirva, pelo menos, para abrir os olhos a quem não quer ver.

Em que momento sentiste que querias ser fotógrafo?

Fotografo desde miúdo, na brincadeira. Comecei com uma máquina que era um porta-chaves, oferecida pela minha avó. Aos 11 anos, comprei a primeira máquina, uma Point & Shoot, da Fuji. Fotografava tudo e um par de botas. O meu avô paterno, Viriato Moura, era o fotógrafo da família e dizia que nunca me tinha visto tão entusiasmado com um objeto. No liceu, pedi aos meus pais a primeira Reflex. Sentia-me o rei da selva! Ia para Francelos fotografar os campeonatos de surf, fotografava uns concertos, fazia trinta por uma linha...

A influência familiar está presente no teu livro sobre os presos políticos portugueses 
– Por Teu Livre Pensamento – e no Condor, sobre as ditaduras sul-americanas. Carregas sempre essas biografias?

Nunca os conheci, mas cresci com dois mitos: o meu avô Guilherme Costa Carvalho e o meu bisavô Luís. Os meus avôs maternos estiveram presos, a minha mãe adormecia-me a cantar o Hino de Caxias. Era a minha canção de embalar: “Longos corredores em trevas percorremos/ Sob o olhar feroz dos carcereiros”, e por aí adiante. Tinha três anos e meio e ouvia falar da tortura do sono e da clandestinidade. Obviamente, podemos escolher o que fazer com isto. Os meus irmãos optaram por coisas diferentes, mas, no meu caso, a história familiar fez com que me envolvesse neste tipo de trabalhos até ao pescoço.

Quando é que começaste a ganhar consciência e maturidade política?

Ainda ando à procura da maturidade política, entre o sonho e a razão, e a tentar perceber onde acaba a utopia e começa a realidade. A consciência política começou cedo. Sou de uma família hiperpolitizada, e o meu pai [Joaquim Pina Moura] foi do Comité Central do PCP. Esteve 30 anos na política ativa, tornou-se uma figura pública. Ainda criança, tive de incorporar e até defender-me disso, pois, por vezes, não eram só elogios. 
O período da queda do Muro de Berlim e as expulsões no PCP são relevantes nas minhas memórias. Vi o meu pai a datilografar a carta de demissão do PCP. Ele entregou-a logo a seguir à derrota da esquerda nas eleições de 1991, e eu fiz-lhe uma pergunta clássica de criança: “Mas porque só sais agora, quando perdeste?” Jamais esqueci a resposta: “Era fundamental estar presente na derrota. Não saio porque o PCP perdeu, mas por haver coisas contra as quais estou.” Ele pensava além do óbvio, era muito bom nisso.

Depois aproxima-se do PS...

Em 1995, quando Guterres o chamou para o governo, eu já tinha outra maturidade, mas passei a ser o “filho do ministro”. Senti uma pressão manhosa. Nessa altura, andava de patins, com uns calções laranja muito largos, e diziam-me para não usar aquela cor. Era o que mais faltava! [risos] Os dramas de uma criança de 14 ou 15 anos eram estes. Não era saber se a EDP ia ser privatizada ou nacionalizada.

Que importância dás à memória num tempo de imediatismo 
e de superficialidade?

Muita, cada vez mais! Tenho uma paixão pelos esquecidos da História, mas é preciso ir mais longe no entendimento do passado. Com Putin e Trump, arriscamo-nos a voltar aos anos 30 do século XX. Na Fundação Nieman, já sou conhecido por ser politicamente incorreto. No dia da apresentação, levantei-me e disse: 
“Sou o João Pina, gosto de lugares tramados e, por isso, é que vim para os Estados Unidos da América”. [risos] Se Obama ainda fosse Presidente, não me interessava tanto estar ali.

Qual é o país que lida melhor 
com as suas memórias negras?

Talvez a Argentina, embora também seja vítima de si própria e dos seus ciclos políticos. Mas ali o passado e a memória, e a forma como lidamos com ela, são uma preocupação constante, por vezes exagerada.

Nesse capítulo, Portugal 
fica mal na fotografia?

Podemos começar pelo mais gritante – a sede da PIDE transformada em condomínio de luxo –, e ir por aí abaixo: manuais escolares que não contam a História toda, o mito de que fomos grandes e agora somos uma porcaria. Não se desconstrói isto, não se faz autocrítica. Há uma doutrina do esquecimento em relação ao que foi grave. A escravatura e a guerra colonial são exemplos disso. Ainda ouvimos dizer que Salazar não foi assim tão mau. Se calhar, é o que ouviremos daqui a uns anos sobre o governo de Passos Coelho. Afinal, “só” meio milhão de portugueses teve de deixar o País, não é? Desculpar o indesculpável é uma atitude muito portuguesa. Se calhar, é também isso que me faz querer olhar para o lado terrível das coisas...

Há algo que te interesse explorar na nossa História?

Ando há anos a pensar num projeto sobre o Tarrafal. Mas só arranco com dinheiro suficiente, caso contrário será mais uma odisseia. Quero investigar, ir a Cabo Verde, processar tudo na minha cabeça, fazer um livro e uma exposição, mas preciso de desenrascar fundos, bolsas ou um mecenas. A história da minha família passou por lá. O meu avô Guilherme esteve preso na “frigideira”, no Tarrafal. O meu bisavô foi visitá-lo e fez as únicas fotos não oficiais que existem. Quero contar essa história, falar de outros prisioneiros, pegar também nos africanos que lá estiveram. Tenho o guião na minha cabeça.

Procuras uma verdade 
quando fotografas?

Não sou obcecado pela verdade. 
A verdade é relativa. Ser homem, branco, ter uma máquina fotográfica e ser um estrangeiro condiciona, desde logo, diversas situações. A fotografia deve interrogar-nos. Sou apologista da “paulada”: não tento ser subtil, quero criar impacto, contrastar. Tenho um ponto de vista e não abdico dele, mas admito que mude com o tempo. Não parto para um trabalho com uma ideia preconcebida. Quero mostrar a algumas pessoas que, afinal, até estão bem na vida e talvez não devessem queixar-se tanto. Se, com o meu trabalho, conseguir que alguém se indigne ou fique consternado ao ponto de provocar alguma mudança, ótimo! Podem não gostar do meu trabalho, mas a indiferença choca-me.

O tempo jornalístico, da atualidade, ainda te paga as contas?

O 46750 é o primeiro caso em que as imagens não foram feitas com o objetivo inicial de editar um livro. Começou como reportagem e evoluiu para um projeto maior, com 45 mil imagens feitas ao longo de dez anos. Há várias imagens no livro feitas para jornais e revistas, mas o jornalismo já não paga contas. Em 2008, trabalhei 60 dias para o New York Times, uns 25 para a Stern, e por aí adiante. No ano passado, os dedos de quatro mãos chegam para contar o que fiz. É uma grande quebra, mas também representa a minha própria evolução. Já não sou tão proativo, não procuro fazer reportagens só para publicar. Ganhei experiência, expus-me a histórias que me surpreenderam, mas agora o meu tempo e os meus recursos são mais limitados e eu quero usá-los onde me interessa.

Que partes do mundo 
te mudaram mais?

Nunca tinha pensado nisso. Inegavelmente a América Latina, onde passei grande parte dos últimos 15 anos. Ali, as pessoas reinventam-se na adversidade, é tudo urgente, e isso é muito inspirador. Fazer o Condor aguçou a minha forma de ver as coisas, e o terramoto no Haiti também me marcou imenso. Somos mudança todos os dias. “Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”, cantava o Chico Science. Tenho muita curiosidade por sítios novos. O meu trabalho é a desculpa para chegar a eles. Não vivo para fotografar. Fotografo para ir a lugares, conhecer pessoas e aprender com elas.

Continuas a trabalhar para referências da Imprensa mundial. A redução de orçamentos editoriais está associada a mentalidades mais pequenas e a formas redutoras de ver o mundo?

A América Latina é o contrário disso: ali pensa-se muito à frente e com recursos muito limitados. Faz-se excelente jornalismo com poucos meios. El Estornudo, um projeto de jornalismo narrativo independente, sem dinheiro, que acaba de ser banido de Cuba, é feito por malta que saiu da universidade e que não queria trabalhar no Granma ou na Juventud Rebelde. Com projetos maiores, o problema é maior, claro. Não há milagres. Projetos alicerçados em visões jornalísticas antigas acabarão por morrer. Outros, baseados na parvoíce absoluta e em conteúdos ligeiros, dão tiros nos pés. Depois há exemplos como os da Stern. Dizem: “Já não temos dinheiro para te mandar 25 dias para o Brasil, mas queremos continuar a publicar reportagens dos quatros cantos do mundo. Se conseguires uma história em oito dias, compramos.” Ok, seja, mas não cedes à estupidificação global. Quanto dinheiro se gastou na ideia de que íamos todos escrever, fotografar e fazer vídeos? No que deixaste de investir por causa disso? 
A New Yorker não mudou uma vírgula no que fazia e continua a ser relevante como sempre.

O facto de agora quase não publicares em Portugal é um problema de orçamento?

No atentado ao Charlie Hebdo, um jornal português ligou a uma fotógrafa francesa, minha amiga. Ela não podia trabalhar para eles, mas disse que eu estava em Paris e livre. “Ah, o João não. É muito caro.” Ninguém ligou. Há o mito de que sou muito caro. Não é verdade. Achas que cobro mais do que uma fotógrafa em Paris? Em que planeta é que estas pessoas vivem?! Têm o direito de contratar quem quiserem, mas não digam que é um problema de orçamentos. Nunca discuti questões de dinheiro. Interessa-me publicar cá e, sobretudo, que tratem bem o meu trabalho. Mas as portas estão a fechar-se, e as pessoas estão de cabeça perdida.

Que outras linguagens 
e processos te interessam?

Quero dominar o cinema documental. Estou a explorar isso em Harvard. É muito interessante, mas também frustrante. Precisei de dezenas de horas para fazer dez minutos. Fiz escrita de não-ficção também. As coisas que me interessam vão muito além da fotografia. No livro sobre o Rio, quis uma coisa fora do baralho: convidei a poeta Viviane Sales, nascida e criada na favela Cidade de Deus, para escrever para as imagens. Gosto de quebrar barreiras.

Como subvertes os comodismos 
e vertigens do teu trabalho?

Criando equilíbrios, mantendo a cabeça sã. Não quero ser o Mário Sá-Carneiro da fotografia. Tento alternar trabalhos, não me fechar. Já decidi, por exemplo, que este livro é o meu último trabalho a preto e branco, pois já estou demasiado confortável nessa linguagem.

Viajas imenso, não tens por hábito fixar-te. A que lugar chamas “casa”?

Sou nómada, de muitos lugares, entre eles Portugal, onde tenho família e muitos amigos. Moro onde monto casa. Vivi em Lisboa, Porto, Nova Iorque, Buenos Aires, Paris e agora Cambridge, no Massachusetts. Pertenço a muitas cidades. Não me perco em muitos lugares do mundo nem morro de fome em várias línguas. É uma sensação ótima, não me choca viver de mala feita, mas há muitos lugares onde gostaria de viver, e Portugal seria um deles, se tivesse um projeto de vida. 
Há muitas coisas que me interessam aqui. Em termos de memória, então, 
é melhor nem falar! Há uns meses, estive na Torre do Tombo e levaram-me ao oitavo andar. Fiquei louco! Pensei: “Eh, pá, deem-me um salário e 30 anos que já não saio daqui.”

Completa a frase: o jornalismo terá futuro se...

... estivermos atentos ao que se passa à nossa volta, à vida, na nossa rua ou no mundo, e não ao que as tendências, consultores e outros doutores dizem que será o futuro. Há jornalistas e projetos independentes a ganharem prémios, gente nova a pensar fora da caixa, o que faz dos problemas virtudes. Nesse aspeto, a Europa está muito atrás, tem uma engrenagem muito perra.