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Hollywood em coro contra o assédio na gala dos Globos de Ouro

Cultura

Gabriel Olsen/ Getty Images

Com duros e sentidos discursos, mas também com piadas certeiras, esta edição dos Globos de Ouro ficará para a história não tanto pelos vencedores, mas pela condenação pública do assédio e abuso sexual de que são alvo as mulheres

Após os meses de enorme controvérsia e estupefação que abalaram Hollywood, o mundo do espetáculo exorcizou no domingo os seus demónios nos Globos de Ouro, gritando contra o assédio sexual contra as mulheres.

A passadeira vermelha fez antever o que se esperava, com o desfile de numerosos artistas de vestidos e trajes negros a servir de prólogo à crítica contra o machismo e abusos alimentada pelos movimentos "Me too" ("Eu também") e "Time's Up" ("Acabou-se o tempo") que continuaria durante toda a 75ª edição dos Globos de Ouro, os prémios de cinema e televisão atribuídos pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA), dos Globos de Ouro.

Oprah Winfrey, que recebeu o prémio Cecil B. DeMille, foi uma das que mais diretamente se pronunciou contra "os homens poderosos" que durante demasiado tempo dominaram o mundo, para afirmar, de seguida, numa mensagem de esperança, que "o seu tempo chegou ao fim" (Veja aqui o discurso de Oprah Winfrey)

Barbra Streisand, que deu os toques finais da noite ao anunciar o prémio de melhor drama, aproveitou a ocasião para recordar que foi a única mulher a ter ganhado o Globo de Ouro de melhor realização, um prémio que recebeu em 1984 pelo filme "Yentl".

"Isso foi há 34 anos. Amigos, acabou-se o tempo. Precisamos de mais mulheres cineastas e de mais mulheres nomeadas para melhor realização", afirmou, numa gala em que não havia nenhuma realizadora como candidata.

Por seu lado, Nicole Kidman, que foi distinguida como melhor atriz de minissérie ("Big Little Lies"), recordou no palco que a sua personagem de uma mulher maltratada representa os abusos que agora figuram no centro das conversas em Hollywood.

"Creio e espero que possamos suscitar uma mudança através das histórias que contamos e da maneira como as contamos. Mantenhamos vivo o debate", assinalou.

Já Frances McDormand, que conquistou o prémio de melhor atriz de drama por "Three Billboards Outside Ebbing, Missouri", afirmou sentir-se bem por participar numa noite como a de domingo e por ser parte de "um movimento tectónico na estrutura do poder" da indústria do cinema.

A noite começou desde logo com o humor cáustico de Seth Meyers que foi o mestre da cerimónia. Apesar de ter reconhecido antes da gala que provavelmente não seria "o ano mais divertido" para apresentar os Globos de Ouro, o ator e comediante acabou por sair airoso da difícil tarefa de abordar com piada o escândalo de assédio e abuso sexual que atingiu Hollywood.

"Boa noite às senhoras e aos e aos senhores que ainda restam!", afirmou, logo depois de subir ao palco.

"É 2018. A marijuana foi permitida finalmente [na Califórnia, para fins recreativos], mas o assédio sexual já não! Vai ser um bom ano", ironizou, prosseguindo com piadas alusivas a Harvey Weinstein, o influente produtor de Hollywood, cujas dezenas de denúncias por assédio e abuso sexual inspiraram o movimento "Me too" para incentivar as vítimas a denunciarem os seus casos, mas também a Kevin Spacey, num serão em que nem o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi esquecido.

Susan Sarandon e Geena Davis, as estrelas de "Thelma & Louise" (1991), criticaram, por seu turno, ao apresentar um prémio, a desigualdade salarial entre homens e mulheres no universo do cinema.

A gala teve momentos distintos, incluindo de humor, como um emocionado Guillermo del Toro, que conquistou o prémio de melhor realizador por "The shape of water", com o mexicano a implorar mais tempo para o seu discurso: "Baixem a música, rapazes. Precisei de 25 anos [para estar aqui]. Dêem-me um minuto", e também de surpresa. Foi o que sucedeu quando a lenda do cinema Kirk Douglas, de 101 anos, compareceu em palco para entregar um dos Globos de Ouro, recebendo uma enorme ovação por parte do público.

E os vencedores foram....

Mas como os Globos de Ouro são prémios, falemos então de vencedores: O filme "Three Billboards Outside Ebbing, Missouri" conquistou quatro galardões, roubando o brilho a "The Shape of Water", favorito para os prémios de cinema e televisão.

O filme de Martin McDonagh, impôs-se em quatro das seis categorias para os quais estava nomeado: melhor drama, melhor atriz (Frances McDormand), melhor ator secundário (Sam Rockwell) e melhor argumento (Martin McDonagh).

A película "The Shape of Water", que somava sete nomeações para os Globos de Ouro, não foi, no entanto, além de dois prémios: o de melhor realizador (Guillermo del Toro) e o de melhor banda sonora (Alexandre Desplat).

Já o britânico Gary Oldman confirmou os prognósticos, conquistando o prémio de melhor ator de drama pelo papel em "Darkest Hour", enquanto James Franco foi distinguido como o melhor ator de comédia por "Um desastre de artista".

Saoirse Ronan triunfou como melhor atriz de comédia por "Lady Bird", filme realizado por Greta Gerwig que também venceu o prémio de melhor comédia/musical, ao passo que Allison Janney foi distinguida como melhor atriz secundária pela sua interpretação em "I, Tonya".

O prémio de melhor canção foi para "This Is Me", de "O grande showman", escrita por Benj Pasek e Justin Paul, a dupla que deixou a sua marca no ano passado com "La La Land".

O galardão de melhor filme de animação foi para "Coco", da Pixar, enquanto "In The Fade" (Alemanha e França), de Fatih Akin, arrecadou o de melhor filme estrangeiro.

Os Globos de Ouro, prémios do cinema e da televisão atribuídos pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, são vistos habitualmente como uma antecâmara dos Óscares, cujas nomeações vão ser anunciadas no próximo dia 23, estando a cerimónia de entrega marcada para 04 de março.

Lista dos vencedores da 75.ª edição dos Globos de Ouro, entregues na noite de domingo no hotel Beverly Hilton, em Los Angeles:

Cinema

Melhor drama: "Three Billboards Outside Ebbing, Missouri"

Melhor comédia/musical: "Lady Bird"

Melhor ator de drama: Gary Oldman ("Darkest Hour")

Melhor atriz de drama: Frances McDormand ("Three Billboards Outside Ebbing, Missouri")

Melhor ator de comédia/musical: James Franco ("Um desastre de artista")

Melhor atriz de comédia/musical: Saoirse Roan ("Lady Bird")

Melhor ator secundário: Sam Rockwell ("Three Billboards Outside Ebbing, Missouri")

Melhor atriz secundária: Allison Janney ("I, Tonya")

Melhor realizador: Guillermo del Toro ("The Shape of Water")

Melhor argumento: Martin McDonagh ("Three Billboards Outside Ebbing, Missouri")

Melhor banda Sonora original: Alexandre Desplat ("The Shape of Water")

Melhor canção original: "This is Me", de Benj Pasek e Justin Paul ("O grande showman")

Melhor filme de animação: "Coco", de Lee Unkrich e Adrian Molina.

Melhor filme estrangeiro: "In The Fade", de Fatih Akin (Alemanha/França)

Televisão:

Melhor série dramática: "The Handmaid's Tale"

Melhor série de comédia/musical: "The Marvelous Mrs. Maisel"

Melhor minissérie: "Big Little Lies"

Melhor ator de série dramática: Sterling K. Brown ("This is Us")

Melhor atriz de série dramática: Elisabeth Moss ("The Handmaid's Tale")

Melhor atriz de comédia/musical: Rachel Brosnahan ("The Marvelous Mrs. Maisel")

Melhor ator de comédia/musical: Aziz Ansari ("Master of None")

Melhor atriz de minissérie: Nicole Kidman ("Big Little Lies")

Melhor ator de minissérie: Ewan McGregor ("Fargo")

Melhor ator secundário de série televisiva: Alexander Skarsgård ("Big Little Lies")

Melhor atriz secundária de série televisiva: Laura Dern ("Big Little Lies")

Prémio Carreira Cecil B. DeMille: Oprah Winfrey