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Embaixador da Polónia critica entrevista de João Pinto Coelho à VISÃO

Cultura

Lucilia Monteiro

O diplomata enviou ao escritor e à VISÃO uma carta aberta na qual considera as declarações do vencedor do prémio Leya "infundadas, fora do contexto histórico", e baseadas em "generalizações injustas". João Pinto Coelho promete reação dentro de dias.

Estava prometida para breve e confirmou-se. Na sequência da entrevista de João Pinto Coelho à VISÃO, a propósito do seu novo romance Os Loucos da Rua Mazur, o embaixador da República da Polónia, Jacek Junosza Kisielewski, enviou esta sexta-feira uma carta aberta ao escritor e à VISÃO que publicamos na íntegra. Releia também aqui os artigos da polémica (CLIQUE AQUI), incluindo a entrevista (CLIQUE AQUI) do autor.

Carta do embaixador da República da Polónia, Jacek Junosza Kisielewski

"Excelentíssimos Senhores,

Foi com tristeza e desaprovação que li o artigo do Dr. Miguel Carvalho na edição da Visão do dia 16 de novembro, sobre o novo livro do Sr. João Pinto Coelho “Os loucos da Rua Mazur”. O livro está disponível nas livrarias desde o dia 21 de novembro, não o li, e não me refiro ao mesmo. No entanto, tenho que me referir às declarações incluídas no artigo, das quais muitas são infundadas, fora do contexto histórico, e baseiam-se nas generalizações injustas.

Ao falar do contexto histórico é preciso lembrar que desde setembro de 1939 a Polónia tornou-se uma vítima do terror em massa por parte da Alemanha nazi e das autoridades comunistas da União Soviética que colaboravam com alemães até 1941. O Reich alemão exterminava consequentemente os judeus europeus, supondo também a eliminação física da maioria dos polacos, deixando alguns para servirem como os escravos da “raça superior” alemã. Assim, durante mais que cinco anos da ocupação, a sociedade polaca foi privada da sua dignidade e vivia num medo constante, sabendo que em qualquer momento qualquer pessoa, ou os seus familiares, poderiam ser levados pelos alemães para um campo de concentração, assassinados na rua ou até em sua própria casa. É difícil encontrar uma família polaca que não tivesse perdido alguém próximo durante a guerra. Para não procurar muito longe: o avô da minha esposa foi morto a tiro num campo de concentração na Alemanha, e a mãe dela foi forçada a trabalhar para um alemão quando tinha apenas 12 anos.

Lembramos e apreciamos o livro anterior do Dr. João Pinto Coelho “Perguntem a Sarah Gross”, que descreve de uma forma objetiva e equilibrada o mal causado à Polónia pelo ocupante alemão nos anos 1939-1945. Tanto mais custa-me aceitar as declarações tiradas daquele contexto, pois é difícil exigir dos leitores da Visão que se lembrem daquela realidade trágica, tão distante no espaço e no tempo.

É injustificada a declaração que o crime em Jedwabne foi executado pelas “pessoas iguais a nós”. As investigações conduzidas pelo Instituto da Memória Nacional nos anos 2000-2004, baseadas nas audições das 111 testemunhas que viviam naquela altura, mostraram que os instigadores desse assassínio foram quatro antigos colaboradores do NKVD soviético do período da ocupação soviética de Jedwabne, que tentaram dessa maneira apagar o seu passado e ganhar credibilidade aos olhos do novo ocupante alemão. Dois deles, Jerzy Laudański e Karol Bardoń, tornaram-se depois gendarmes alemães, sendo posteriormente condenados com a sentença do tribunal polaco ainda no período da dominação soviética.

Nesse contexto, a declaração que havia 20 cidades como Jedwabne é igualmente injustificada. Não há dúvida que os judeus polacos foram exterminados pelo ocupante alemão também fora dos campos de extermínio e dos guetos. Se o caso da tragédia em Jedwabne, que é o caso mais bem investigado até agora, levanta ainda muitas dúvidas quanto ao seu desenvolvimento e responsabilidade, como se pode generalizá-lo falando de “este e outros episódios semelhantes em mais de uma vintena de cidades polacas”, ou que os responsáveis são os “vizinhos cristãos”? A regra do processo judicial no mundo civilizado é condenação apenas das pessoas, cuja culpa foi provada. É este princípio que deve também orientar o jornalismo fiável e de referência.

O maior exército clandestino na história da Europa, Armia Krajowa polaca, executava de forma persistente pessoas que denunciavam judeus. Nos mosteiros e orfanatos geridos pelas freiras polacas escondia-se crianças judias. Será que o motivo, como as vezes escrevem outros autores, era o desejo de as “converter para a fé cristã”? Não, essas pessoas arriscavam as suas vidas para que aquelas crianças sobrevivessem à guerra.

Um abuso ainda maior é uma tentativa de criar correspondências entre este trágico passado e a presente crise migratória, que “remete para o período pré-Holocausto quando quase todos os países fecharam as portas aos judeus”. Isto não é verdade em relação à Polónia, quer a Polónia de pré-guerra, quando viviam no nosso país mais que 3 milhões dos judeus polacos, quer a Polónia contemporânea que abrigou atualmente um segundo maior grupo de imigrantes extracomunitários na UE (depois do Reino Unido), de meio milhão, na maioria ucranianos.

“Em Varsóvia ressurgem vagas inquietantes de discursos xenófobos […] com o aplauso patriótico do Governo”. Será que esta afirmação se refere a alguns cartazes racistas exibidos durante a Marcha de Independência de 11 de novembro, que, entretanto, foram condenados pelo Presidente, Primeira-Ministra, dois Vice-Primeiros-Ministros e Ministro dos Negócios Estrangeiros, e em consequência dos quais as autoridades policiais e judiciais polacas já iniciaram investigação?

Ainda mais perturbante é a afirmação que “se fosse judeu, neste momento não me sentia confortável na Polónia”. Polónia antes da II Guerra Mundial foi pátria de uma comunidade multiétnica e de grande diversidade religiosa, e onde um lugar particular ocupavam, desde mil anos, os judeus. O Museu da História dos Judeus Polacos “Polin” inaugurado em 2013, um lugar singular a nível mundial e que até hoje foi visitado por 2,3 milhões de pessoas, é dedicado precisamente à rica história dos judeus no nosso país e ao seu desenvolvimento cultural. Desde o início deste ano Polónia foi visitada por 150 mil judeus de Israel e centenas de milhares que vivem em diáspora. Nos últimos anos Polónia tem apoiado também o renascimento da cultura judaica no nosso país, entre outros através da organização dos festivais internacionais tais como Łódź Czterech Kultur (Lodz de Quatro Culturas), Warszawa Singera (Varsóvia de Singer) ou Festival da Cultura Judaica em Cracóvia, um dos maiores e mais antigos festivais deste tipo no mundo. É necessário ter consciência de como é prejudicial a declaração citada neste contexto. Os judeus devem visitar a Polónia, porque a sua história milenária na Polónia é um elemento crucial da identidade da nação judaica e polaca.

Não tenho expetativas que ao escrever sobre a II Guerra Mundial na Polónia vão ser mencionados apenas os casos de heroísmo, que foram muitos. Naquela altura a Polónia foi o único país na Europa onde a ajuda aos judeus implicava automaticamente pena de morte. Apesar disso, entre 26 513 pessoas distinguidas pelo Instituto Yad Vashem encontram-se 6 706 polacos, ou seja mais de 25%. Conhecemos pelo menos centenas de casos documentados de assassínio de pessoas individuais, ou até das famílias completas, acusadas de esconder judeus. No ano passado inaugurámos em Markowa o museu dedicado a estes heróis, principalmente à família Ulma (a mãe grávida, o pai e 6 filhos) fuzilada pelos ocupantes alemães. Esse não foi o caso único. Mais uma vez não procurando muito longe: o meu pai contava-me uma história semelhante que aconteceu na aldeia onde os meus pais sobreviveram à guerra.

O artigo fala do mal que nas situações extremas pode-se revelar numa pessoa “igual a nós”, contudo, peço mais fiabilidade, e apelo para não recorrer às generalizações fáceis. 72 anos após a guerra esse tipo de narrativa causa prejuízos não só à nação polaca, mas também aos portugueses, habitantes de um país tão distante àqueles acontecimentos, tanto no espaço e tempo, como também tendo em conta a própria história. É principalmente aos leitores portugueses que se deve apresentar um fundo histórico fiável, pois só assim o discurso sobre o mal que se revela “nas pessoas iguais a nós” vai ganhar sentido. Nós, os polacos, lembramos este fundo histórico muito bem, e por esta razão as declarações publicadas no artigo em questão foram recebidas na imprensa polaca de uma forma negativa e emocional.

Com os melhores cumprimentos,

Jacek Junosza Kisielewski

Embaixador da República da Polónia na República Portuguesa"