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José Rodrigues dos Santos à procura da origem da vida

Cultura

José Caria

Ao 18º romance, o recordista português de vendas chega ao Espaço. Mas, na mais recente aventura do seu Tomás Noronha, o que lhe interessa mesmo é discutir a vida

José Rodrigues dos Santos é um homem meticuloso, um jornalista que se tornou no autor português mais lido em Portugal (com um total de mais de 2,3 milhões de livros vendidos) e que se envolve em todo o processo da edição de um livro seu. Faz sugestões para a capa, concebe o evento de lançamento – para o de Sinal de Vida estará neste sábado, 21, no Casino Lisboa um ator vestido de astronauta Neil Armstrong, como astronauta/mestre de cerimónias, sendo a apresentação do livro feita por Carvalho Rodrigues, que ficou conhecido como “pai do satélite português”. Neste que é o seu 18º romance, escrito num mês, à razão das já habituais dez páginas por dia, regressa às aventuras do historiador Tomás Noronha que os seus leitores conheceram, em 2005, nas páginas de O Codex 632.

Só na maioridade, ao 18º romance, é que chegou ao Espaço. Porque não antes, uma vez que se interessa tanto por temas de ciência?

Bom, o Espaço não é um tema assim tão evidente, uma vez que o meu personagem, o Tomás de Noronha, é um historiador. E, na verdade, a ideia de ir para o Espaço só me surgiu a partir do momento em que decidi tocar o tema da vida. Ao longo dos meus romances tenho tocado em vários temas da ciência, da física, matemática, climatologia... Neste caso, achei que havia um mistério muito interessante relacionado com vida: como é que a matéria inerte se torna matéria viva, com consciência, depois volta a ser matéria inerte, depois de novo matéria viva. Isso é um mistério, porque é matéria que se move com um propósito e que pensa sobre si mesma. É um tema fascinante, com ramificações importantes do ponto de vista filosófico. Se a vida é o acaso, um golpe de sorte, que é o que está implícito na teoria Darwinista, então pronto, não existe propósito no Universo. Mas se a vida é um fenómeno frequente no Universo, de facto, então aí nós começamos a chegar à conclusão de que é um imperativo cósmico.

Portanto, há uma intenção, faz parte do projeto do Universo?

Há um crescente número de biólogos que começa a acreditar que a vida realmente está espalhada por todo o Universo, incluindo no próprio Sistema Solar. Há biólogos que acham que houve duas géneses na Terra e que já foi encontrada vida em Marte, de facto, em 1976, com as missões Viking. Há uma experiência que dá um resultado claramente positivo. A NASA na altura não teve coragem de fazer esse anúncio. Na Terra, essa experiência seria absolutamente conclusiva, mas uma vez que se tratava de Marte, a NASA ficou um pouco nervosa em relação a fazer um anuncio categórico. Também se acredita que há em satélites de Júpiter e Saturno fenómenos de vida, sobretudo nas fontes hidrotermais de algumas das luas. E portanto, se o Sistema Solar, pelos vistos, está cheio de géneses de vida, então esta terá ocorrido várias vezes. Imagine-se o Universo inteiro! Significa que a vida é omnipresente, que faz parte dos planos do Universo.

É essa a sua visão?

Sim. Não estamos a falar do Deus da Bíblia ou do Alcorão. Não é nada disso. Mas antes de algo que está por detrás de tudo isto, cuja fonte nós não conhecemos de nenhuma maneira.

Criou a personagem Tomás Noronha com o objetivo de que viesse a ser tão polifacetado, que pudesse entrar em missões tão diferentes?

Não, não, absolutamente! O Tomás Noronha nasce no Codex 632 especificamente para aquele romance. No romance a seguir, Fórmula de Deus, precisava de um académico e decidi usar a personagem que já tinha. Um historiador possibilita uma vasta panóplia de interesses: História Medieval, Ciência, Arte, até Economia.

Tem sido fácil encaixá-lo, então?

São tudo aventuras de conhecimento. Já fiz outros romances históricos em que o Tomás não encaixa. Aí crio personagens próprias.

Este livro faz pensar muito n'O Contacto, do Carl Sagan. Serviu-lhe de inspiração?

Talvez, em certos aspetos. Li o Contacto quando era adolescente. Mas o romance mais parecido com este, no qual pensei quando escrevi, foi o Rendez-Vous com Rama, do Arthur C. Clarke. Há um filme chamado Life, que estreou quando já estávamos em fase de revisão do livro, e que também tem alguns pontos paralelos. A questão é que esta é uma matéria muito evidente, é um grande tema. Eu quis tratá-lo à minha maneira, com aquele elemento que aprecio e não encontro em outros romances − é também por isso que os escrevo − que é a mistura entre ficção e não ficção. Mas uma mistura feita de tal maneira que o leitor percebe claramente o que é ficção e o que não é. É isso que eu trago de novo. Não a mistura em si, mas a forma como a faço.

Os seus livros são muito cinematográficos. Escreve a pensar na tela?

É essa a minha intenção. Faço cinema na cabeça de cada leitor. São livros ambiciosos, grandes produções que cada leitor faz na sua cabeça. Temos o Tomás no Space Shuttle, toda aquela panóplia, a Terra toda envolvida, Times Square cheia de gente, as pessoas com cartazes “We Love ET”, a Torre Eiffel... É uma história de fôlego. Não é uma pequena história, de uma pessoa que tem um problema familiar.

É à escala global?

Exatamente. Diz-se: “Ah, a escrita tem de ser a literatura sobre a escrita”. Eu admito essa interpretação mas não é minha. Para mim, a literatura é sobre a mensagem, o que se conta. O Ian McEwan disse-me uma vez: “Para mim as palavras têm que ser transparentes como a água”. Faço minhas essas palavras. Isto é, quando o leitor está a ler, a certa altura já não está a ver as palavras, está a ver a situação. As palavras são apenas um instrumento que nos conduz para as imagens, é isso que eu quero fazer.

Ou não seria um homem da televisão.

Sim, o facto de ser uma pessoa de televisão obriga-me a escrever por imagens, faz muito parte da minha escrita.

O que é que falta para se fazer um filme com base num livro seu. Um grande produtor?

Sim. Há aí uma série de projetos a andar, vamos ver o que é eles dão. Neste momento o produtor do Luc Besson quer fazer a adaptação da Fórmula de Deus mas não sei se isso virá alguma vez a acontecer. Já foi feito o anúncio público, com press release e tudo. Agora saiu Valerian, o filme baseado na personagem de banda desenhada. 
O seguinte poderá ser a Fórmula de Deus. Mas isso é outro campeonato.

Este livro é muito familiar. Quem já leu os outros reconhece imediatamente a semelhança entre a estrutura e até entre as personagens. Recorre a uma espécie de fórmula?

Como quem lê a Agatha Christie, os livros do Poirot. Há uma estrutura comum.

É uma escrita a pensar nos leitores que já tem, nos fiéis?

Não só. Em cada livro ganho novos leitores. Também é uma obra a pensar no mercado internacional, daí os temas serem tão universais. Nos livros históricos não, aí penso à escala portuguesa, entra o Salazar, a Guerra Colonial, o Gulbenkian. Já nos romances em que entra o Tomás Noronha os temas são comuns a toda a gente. E eu procuro ter ideias novas que sejam de rutura.

O que veio primeiro, o seu interesse pela Ciência ou isso aconteceu porque tinha o objetivo de a usar no enredo?

O primeiro romance em que toco na Ciência é a Fórmula de Deus, que nasce de uma ideia que tive no Brasil. Estava um miúdo sueco na praia a ler um livro chamado The God Particle (A Partícula de Deus) e começámos a falar sobre isso. Uma partícula, o Bosão de Higgs, que cria a matéria. Pensei que era um bom tema para um livro. Nessa altura já tinha feito a minha tese de doutoramento, para a qual tive de estudar física quântica, por causa da questão da verdade, segundo a qual a realidade objetiva não existe em si. Então comecei a perceber que havia elementos na Ciência que tinham pertinência para a questão da existência de Deus. Foi aí que me ocorreu escrever um romance sobre o que a Ciência já tinha descoberto acerca da existência de Deus.

O rigor científico é uma 
preocupação.

Claro! Tenho essa preocupação. 
E o leitor sabe disso. Quando o Tomás se apaixona por uma rapariga isso é ficção. Quando está escrito “Einstein criou a Teoria da Relatividade e esta diz que ... ” não se trata de ficção. Isso está muito claro. As pessoas que leem livros têm um determinado nível de educação, percebem-no perfeitamente. Quem lê livros nunca é burro.

Este livro parece ser mais negro do que os outros...

Até que ponto é que os livros têm de ter finais felizes? Os meus leitores sabem que os meus livros têm sempre finais mistos, ambíguos.

Curiosamente o Dan Brown acaba de lançar um livro com uma temática semelhante, Origem. Concorda com a comparação?

Bem, o livro do Dan Brown é sobre inteligência artificial. E há uma grande diferença entre nós. Onde o Dan Brown vê uma coisa boa, eu vejo uma ameaça. Para mim é o princípio do fim da Humanidade tal como a conhecemos.

Tem uma visão catastrofista da vida?

Não é catastrofista. É evolucionista. A evolução é feita de espécies que aparecem e desaparecem. E a espécie humana vai desaparecer.

É algo que o angustia?

Não. Nada. É assim.

Também não será no nosso tempo.

Mmmh... Não sei. As sociedades desenvolvidas são envelhecidas. Se toda a Humanidade chegar ao bem estar ninguém vai querer ter filhos. Porque é muito chato, dá muito trabalho... Vamos extinguir-nos, lentamente. Por opção, por preguiça, por egoísmo, comodismo. Não estou sequer a fazer uma crítica. 
É assim. Numa sociedade sem dor, perde-se a capacidade de sacrifício. Para o doutoramento estudei a guerra – era sobre reportagem de guerra – e todos os estudos mostravam que os melhores combatentes eram os agricultores.

Porque estão habituados a sofrer?

Pois, porque no dia a dia são os que sofrem mais. O soldado da cidade é muito menos resiliente, está habituado a uma vida confortável. Contaram-me a história de um grupo de comandos que eram dos melhores combatentes. Até que lhes ofereceram, como prémio, uma viagem. Passearam, divertiram-se, e quando regressaram à guerra já não eram capazes de combater. Tinham medo.

Comodismo é uma coisa de que não se pode acusá-lo, com este ritmo de trabalho...

Ah! Mas eu não trabalho. É só prazer! [Risos]. Uma maneira de passar a vida toda sem trabalhar é fazer aquilo de que gostamos. Isto não é trabalho. Escrever é um prazer. Não compreendo os escritores que dizem que escrever é difícil, doloroso. Até posso compreender racionalmente, mas não emocionalmente. É como um pintor dizer que sofre a pintar ou um músico que sofre a compor.

De onde retira prazer, na escrita, do contacto com os leitores, da observação do resultado final

Da escrita, de contar uma história. Dá-me prazer e procuro dar prazer aos leitores. Sou jornalista desde os 17 anos e para mim é inconcebível não escrever, faz parte de quem eu sou. Se eu não escrever durante algum tempo, sinto-me mal.

Dá-lhe prazer, mas é um processo que acaba por simplificar, recorrendo ao mesmo tipo de personagens e de estrutura narrativa em cada livro.

Cada história, cada romance, tem as suas próprias exigências. É o romance que pede determinadas características. A história apresenta-me exigências. 
A literatura não é sobre forma, é sobre o conteúdo. Qual é a mensagem que quero passar? É esta. E a seguir penso como vou fazer isso. E é aí que entra a questão da eficiência. Como passar a mensagem de forma a que o leitor se interesse e compreenda. Como vou falar sobre física quântica de maneira a que se interesse e compreenda? É este o meu trabalho como romancista. 
A mente humana é uma mente narrativa. Nós gostamos de histórias. É por isso que as pessoas gostam tanto dos meus livros. E até faço isso em televisão, uso a narrativa. Ao contar histórias, as pessoas retêm mais. Os políticos, às vezes, irritam-se muito comigo porque eu conto as coisas de uma maneira que as pessoas depois retêm.

Há alguns boatos acerca do seu método de escrita. Incomoda-o?

Há boatos de que não sou eu que escrevo o livro, que tenho um escritor fantasma, que recorro a uma equipa. Criou-se uma certa mitologia. Acaba por ser engraçado e até lisonjeiro.

Entrevista publicada na VISÃO 1285 de 19 de outubro