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Se o Palácio de Belém falasse…

Cultura

Sim, agora até fala, mas já foi de poucas palavras. Porém, não é disso que trata um eloquente livro de Filipe Luís, mas sim da História (e, sobretudo, das histórias pouco ou nada contadas) dos Presidentes eleitos desde 1976

Sabe que Marcelo Rebelo de Sousa, quando era rapazola, tinha um gozo enorme em tocar a todas as campainhas do prédio onde morava a família de António Guterres, e depois fugir rapidamente deixando pelos cabelos os pais do amigo? E que o já meio espigadote Cavaco Silva conduziu um camião pelas curvas e contracurvas da serra algarvia sem ter carta de condução? E que, na sua primeira entrada no Palácio de Belém, Ramalho Eanes ia de camuflado e pistola em punho? E que Jorge Sampaio foi conduzido a uma reunião secreta num local misterioso? 
E que…? Bem. Quando acabam as histórias e começa a História? A resposta é um “ovo de Colombo” (e cá está uma história da História…): nunca. Porque a maiúscula não cai do céu aos trambolhões e só conquista o direito a existir através da soma das muitas minúsculas com que se tecem os episódios ora dramáticos, ora burlescos, mas sempre comoventes, do nosso passado coletivo.

A obra, apresentada esta quinta-feira, em Lisboa, é da autoria de Filipe Luís, editor executivo da VISÃO e responsável pela secção de política

A obra, apresentada esta quinta-feira, em Lisboa, é da autoria de Filipe Luís, editor executivo da VISÃO e responsável pela secção de política

O leitor já percebeu que o tema são Presidentes da República. Vem a propósito de um livro de Filipe Luís, editor executivo e responsável pela secção de política nacional da VISÃO, além de comentador em vários canais de TV, que agora apareceu com chancela ?!Desassossego, do grupo Saída de Emergência. Escusado seria dizer, por tão estafada ser a imagem, que as histórias são como as cerejas – aquelas cerejas a espreitarem de cartuchinhos cinzentos em que Cavaco espatifava o seu magro pecúlio quando era estudante em Faro.

Concretamente, do que trata o livro é dos cinco “inquilinos de Belém” eleitos depois da normalização da vida democrática, em 1976. Por isso se chama Presidentes que mudaram Portugal. 
É certo que António de Spínola e Francisco da Costa Gomes também assentaram arraiais no palácio comprado há trezentos anos por D. João V ao conde de Aveiras, que foi ninho de amores (digamos assim) de D. Carlos e D. Amélia, onde os convidados estrangeiros de marca ficavam alojados e onde Manuel de Arriaga instalou, em 1912, a sede da Presidência da República – mas quer o militarão do monóculo, quer o discreto e adaptável mediador entre contrários que foi capaz de evitar a guerra civil no “Verão Quente” de 1975 foram Presidentes de uma República democrática sem terem recebido o aval popular do voto nas urnas. Os eleitos (e nunca a palavra foi tão certeira como esta) são pois os cinco “supremos magistrados da nação” que se lhe seguiram: Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio, Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa.

Muitas das histórias que Filipe Luís nos conta são razoavelmente conhecidas, outras menos. Mas mesmo as primeiras, se não forem recordadas de vez em quando, podem cair no buraco do esquecimento. E depois, há que pensar nos leitores novos (que não é o mesmo que novos leitores), aqueles que, não tendo vivido os acontecimentos narrados, se arriscam a deambular pela vida nacional em estado de sonambulismo, quase sempre sem entenderem o essencial da vida cívica que se desenrola à sua volta e da qual parece não fazerem parte, prolongando um equívoco que, alterando valores e prioridades, retira à existência a pitada de sal que lhe dá sabor.

Alcazar e Tapioca

O livro começa com um episódio que parece ter por cenário uma república das bananas. O tenente-coronel Ramalho Eanes, de camuflado e pistola regulamentar Walther, aterra de helicóptero no Palácio de Belém disposto a apurar, na sua faceta de homem de ação, de que lado estava Costa Gomes face ao golpe das forças radicais de esquerda desencadeado de madrugada. Quebra-se o suspense. Afinal, estavam ambos do lado dos “moderados”, e pôde assim começar a ser reconstruída a Democracia portuguesa (é este o nome habitualmente dado ao regime em que desde então vivemos, embora haja quem opte pelas designações de II República, admitindo que a ditadura não merece tal distinção, ou de III República – sendo esta última a opção de Filipe Luís).

Um tanto inesperadamente, Eanes congregaria mais tarde os votos da maioria dos portugueses, quando se tratou de eleger pela primeira vez na nossa História um Presidente em sufrágio universal direto. Convém a este propósito lembrar que os Chefes de Estado da ditadura só teoricamente eram sufragados e que na I República era o Congresso de Deputados, equivalente à atual Assembleia da República, que os elegia. Eanes, entre 1976 e 1986 verdadeiro inquilino de Belém (porque lá morava mesmo e lá nasceu o seu segundo filho), teve o mandato mais movimentado e rocambolesco de todos. Antes de sofrer sucessivas revisões, a Constituição de 1976 conferia ao Presidente um grau de intervenção bastante alargado, permitindo-lhe formar governos de sua iniciativa. Depois de quatro décadas de ditadura e de dois anos de revolução era preciso, mais do que “arrumar a casa”, aprender a viver em democracia, e como sabemos as aprendizagens são muitas vezes traumáticas. Mas aquele homem incapaz de sorrir em público saiu-se bem, brandido a toda a hora os argumentos da Lei Fundamental que jurara cumprir. As histórias contadas são muitas, e, como diria o outro, é lê-las…

De fato e gravata

Com Mário Soares, o primeiro civil na Presidência desde 1926, inaugura-se um período diferente, cujo ponto mais marcante, ainda como primeiro-ministro, foi a assinatura das adesão à CEE, hoje UE. O popular Bochechas, socialista burguês e laico, nada tinha que ver com o tenso e mais tradicionalista Eanes, que subira a pulso na vida bebendo por vezes o seu calicezito de fel.

as muitas histórias contadas no livro a respeito de Soares não podia faltar a da bofetada (o próprio diz que foi uma paulada) de que foi alvo na Marinha Grande, quando teve a coragem de entrar de peito aberto num bastião comunista que lhe era hostil, agressão que, no entanto, inverteu a seu favor o andamento dos ponteiros da História. Curioso: coisa parecida tinha-se já passado anos antes com Eanes, quando, em pleno Alentejo, com uma ressonância de tiros ao fundo, saltou para o tejadilho do automóvel de campanha e, de mãos nas ancas, se expôs às pedradas, balas ou chumbadas que não chegaram a atingi-lo. “Temos homem…”, terá nessa altura comentado Soares, o mesmo Soares que mais tarde faria dele o seu inimigo de estimação. Vem tudo contado no livro, tintim por tintim.

Como também vêm contadas as reuniões conspirativas do futuro ex-secretariado do PS, num certo sótão de Algés, contra o histórico mas muitas vezes controverso líder socialista; ou a reunião, num local secreto dos arredores de Paris, em que Jorge Sampaio, para lá transportado num carro de cortinas corridas, à velha maneira dos palpitantes Mistérios da Estrada de Sintra, foi um dos poucos não comunistas presentes; ou ainda o ultrassecreto encontro de Álvaro Cunhal com Melo Antunes em casa de Nuno Brederode Santos (que enquanto ao dois falavam tomou banho e depois se meteu na cama a ler), antes do desencadear do 25 de Novembro.

Carmen Miranda perguntava, e respondia, “o que é que a baiana tem”. Nós podemos fazer uma pergunta retórica semelhante aplicada à Presidência da República e responder ao mesmo estilo: tem gente como nós tem, tem graça como ninguém, tem tudo o que rei não tem