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Um Van Gogh pintado 62 mil vezes

Cultura

O deslumbramento visual de Loving Vincent foi conseguido através dos 62 450 mil frames pintados por mais de 120 pintores de várias nacionalidades

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Um novo recorde foi atingido em torno da obra do artista holandês: “Loving Vincent” (A Paixão de Van Gogh), o seu mais recente retrato cinematográfico, é o primeiro filme do mundo inteiramente pintado a óleo, com estreia nacional marcada para esta quinta-feira

Tudo começa com A Noite Estrelada e o céu azul-elétrico reconhecível, polvilhado de estrelas semelhantes a cometas rodopiantes, envolvidas numa dança antiga que domina um cenário noturno habitado pelo cipreste gigante debruçado sobre os telhados adormecidos de uma pacata aldeiazinha francesa, vista, ou melhor, inventada através da janela do hospício de Saint-Rémy-de-Provence. O asilo psiquiátrico, como então se chamava a esses depósitos para gente afligida por excentricidades várias, é o lugar onde Vincent van Gogh (1853-
-1890) se encerrou voluntariamente, depois da violenta discussão com o amigo artista Gauguin que causou o colapso nervoso mais famoso da história da arte ocidental: a 23 de dezembro de 1888, o pintor holandês navalhou a orelha esquerda e ofereceu-a a uma prostituta do seu bordel favorito. Foi no hospício que, à luz do claro dia provençal, Vincent pintou as estrelas noturnas daquela que é considerada uma das mais emblemáticas obras da arte moderna ocidental, hoje integrada na coleção permanente do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Ao irmão mais novo, Theo van Gogh, o artista escreveria, numa das centenas de cartas enviadas sobre este postal pictórico idílico: “Eu posso ver um campo cercado de trigo (...) acima do qual, durante a manhã, eu vejo o Sol nascer com toda a sua glória.”

A glória desce agora sobre outro cenário, o da sala escura de cinema. Os primeiros segundos de Loving Vincent (em português A Paixão de Van Gogh, com estreia marcada para quinta-feira, 19) revelam A Noite Estrelada como nunca se viu antes: uma paisagem em movimento, matéria iridescente onde as estrelas cintilam efetivamente e onde as nuvens rolam no céu. O quadro de Vincent van Gogh ganha vida.

Loving Vincent - A Paixão de Van Gogh é o primeiro filme do mundo inteiramente pintado a óleo
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Loving Vincent - A Paixão de Van Gogh é o primeiro filme do mundo inteiramente pintado a óleo

A Noite Estrelada domina a sequência de abertura do filme e implicou a utilização de três mil litros de tinta e um ano e meio de trabalho feito por três artistas - oito segundos de filmagem significaram quatro meses de trabalho a tempo inteiro
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A Noite Estrelada domina a sequência de abertura do filme e implicou a utilização de três mil litros de tinta e um ano e meio de trabalho feito por três artistas - oito segundos de filmagem significaram quatro meses de trabalho a tempo inteiro

A esplanada do café à noite, em Arles, animada por figuras em movimento
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A esplanada do café à noite, em Arles, animada por figuras em movimento

Um dos interiores mais famosos de Van Gogh, na película que demorou seis longos anos a ser concretizada
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Um dos interiores mais famosos de Van Gogh, na película que demorou seis longos anos a ser concretizada

Conversa entre o polícia Rigaumon e Armand Roulin, o filho do carteiro Joseph roulin, amigo de Van Gogh
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Conversa entre o polícia Rigaumon e Armand Roulin, o filho do carteiro Joseph roulin, amigo de Van Gogh

Joseph Roulin interpretado pelo ator Chris O'Dowd, apresenta uma semelhança quase total com a figura pintada por Vincent Van Gogh
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Joseph Roulin interpretado pelo ator Chris O'Dowd, apresenta uma semelhança quase total com a figura pintada por Vincent Van Gogh

Cena representativa das pontes sobre o Sena em Asnieres
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Cena representativa das pontes sobre o Sena em Asnieres

O carater megalómano do projeto atraiu atores reconhecidos, como Saoirse Ronan, duas vezes nomeada para os Oscars, aqui pintada como Marguerite Gachet
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O carater megalómano do projeto atraiu atores reconhecidos, como Saoirse Ronan, duas vezes nomeada para os Oscars, aqui pintada como Marguerite Gachet

Em Loving Vincent, os corvos presentes em obras icónicas ganham movimento, voando sobre a paisagem
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Em Loving Vincent, os corvos presentes em obras icónicas ganham movimento, voando sobre a paisagem

Entre as obras mais valorizadas assinadas por Van Gogh, está Retrato do Dr. Gachet, vendido em 1990 por 159 milhões de dólares. Figura importante nos últimos dias de vida do pintor, o médico é interpretado por um ator da série A Guerra dos Tronos, Jerome Flynn
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Entre as obras mais valorizadas assinadas por Van Gogh, está Retrato do Dr. Gachet, vendido em 1990 por 159 milhões de dólares. Figura importante nos últimos dias de vida do pintor, o médico é interpretado por um ator da série A Guerra dos Tronos, Jerome Flynn

O deslumbramento visual de Loving Vincent foi conseguido através dos 62 450 mil frames pintados por mais de 120 pintores de várias nacionalidades
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O deslumbramento visual de Loving Vincent foi conseguido através dos 62 450 mil frames pintados por mais de 120 pintores de várias nacionalidades

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Loving Vincent é um projeto da ordem da utopia: trata-se do primeiro filme do mundo inteiramente pintado à mão, à maneira de uma meticulosa obra a óleo. A maioria das suas cenas são representações de 94 quadros reais assinados pelo pintor modernista, e de outras 31 pinturas cujo formato foi adaptado, agora animadas por um sopro cinematográfico. E cada fotograma, tal como cada personagem, surge no ecrã como elementos de uma animação pintada à maneira de Van Gogh – cobertos com os traços expressivos e empastelados dos pincéis grossos e trinchas inclementes de uma pintura emocional. E, claro, há aquelas cores...

Um festival de tons intensos e vibrantes, fiéis à característica paleta do holandês, que assim revelava a sua paixão pela Natureza em modo saturado – os amarelos dos campos de girassóis e de trigo, os ocres das paisagens, os azuis de céus primaveris ou plúmbeos, esses verdes intensos que Van Gogh utilizou igualmente na representação do seu minúsculo quartinho em Auvers-sur-Oise... Estão todos lá, movimentando-se perante os nossos olhos: os campos de Chaponval oscilam na brisa, os corvos voam alvoroçados na célebre tela Campo de Trigo com Corvos (1890), A Casa Amarela anima-se com Van Gogh a agitar-se à sua porta, Esplanada do Café à Noite desperta com gente a agitar-se nas cadeiras... Como se algum pincel invisível os estivesse a misturar e a animar, segundo a segundo − e alguém esteve mesmo, mas não assinou tela alguma.

Este filme é, na verdade, uma biografia narrada através de uma longa sucessão de obras icónicas, como se se tratasse da maior exposição antológica alguma vez organizada sobre Vincent. Uma ressurreição impressionante que transforma este objeto cinematográfico fora do comum num filme-acontecimento por direito próprio, dada a ambição visual e a resiliência exigida para concretizar a original ideia. Afinal, nunca uma película foi concebida, criada e construída assim: Loving Vincent é, a olho nu, a soma de 62 450 mil frames pintados segundo a técnica de Van Gogh por mais de 120 pintores, vindos do mundo inteiro (os candidatos iniciais superaram os quatro mil...), durante seis longos anos.

Loving Vincent exigiu três fases de produção. Primeiro, filmaram-se os atores reais em fundos verdes, segundo a técnica do chroma key. Depois, seguiram-se edição e efeitos visuais, incluindo a adaptação de vários quadros verticais de Van Gogh às medidas e ao formato horizontal. Por fim, houve o processo de pintura frame a frame. Um exército dedicado, instalado em três estúdios (dois na Polónia, um na Grécia), enxameados por filas e filas de pequenos compartimentos, espécie de microestúdios, cada um com o seu Van Gogh particular a trabalhar afincadamente para produzir os 88 minutos de filme. A sequência de abertura implicou três mil litros de tinta e um ano e meio de labor a uma equipa de três artistas. Oito segundos de filmagem significaram quatro meses de trabalho a tempo inteiro.

Uma atração por Vincent

A veia megalómana do projeto atraiu atores insuspeitos a aceitarem ser uma espécie de desenhos animados extraordinários, como foi o caso da irlandesa Saoirse Ronan, com duas nomeações aos Oscars pelos filmes Expiação (2007) e Brooklyn (2015), ou do veterano dos teatros polacos, Robert Gulaczyk, que aqui se estreou no cinema, interpretando Van Gogh.

Antes dos prodígios técnicos, houve a devoção de Dorota Kobiela, realizadora polaca de filmes de animação, autora de curtas premiadas, incluindo The Little Postman (2011), referido como “o primeiro e único filme de animação de pintura estereoscópica”, que teve a ideia original de Loving Vincent. Tudo porque queria combinar as suas duas paixões, pintura e cinema.

Juntou-se-lhe o britânico Hugh Welchman, produtor de Peter and the Wolf, vencedor do Oscar para melhor curta-metragem de animação em 2008. Ambos perceberam que este filme feito a óleo poderia ser mais do que uma curta-metragem após esperarem três longas horas numa fila para verem uma exposição dedicada ao pintor.

Van Gogh é, ainda hoje, uma história fascinante da arte moderna que muitos têm tentado contar (ver caixa). O pintor não tinha a elegância mansa de Matisse nem era o boémio frequentador de cabarés como Toulouse-Lautrec. Filho-desapontamento para pais que teriam gostado de o ver seguir o negócio da família, Vincent foi despedido dos ofícios, falhou as notas de acesso a uma carreira eclesiástica perseguida por pressão do pai, e expulso da comunidade mineira para onde fora desterrado, por excesso de solidariedade cristã: dava aos mineiros alimentos, roupas, dinheiro, mas não castigos piedosos. Aos 27 anos, Van Gogh não sabia o que fazer da sua vida.

Foi o irmão mais novo, Theo, marchand de arte, que o empurrou para a pintura. Em dez anos, criou mais de duas mil obras, incluindo os cerca de 860 quadros a óleo, na sua maioria produzidos nos últimos dois anos de vida. Postumamente, as suas pinturas quebraram recordes de vendas: sete quadros seus, vendidos entre 1990 e 2015, superaram os 730 milhões de dólares. Entre estes, incluía-se Retrato do Dr. Gachet, vendido em 1990 por 159 milhões de dólares (recorde absoluto durante muito tempo). Em vida, o artista vendeu pouquíssimo, sobrevivendo à custa do apoio de Theo. E ninguém consegue contar melhor esta incrível história de vida do que os próprios irmãos Van Gogh, cuja relação epistolar contempla um espólio com mais de 900 cartas – tesouro que tem alimentado as muitas biografias e filmes dedicados ao pintor holandês, incluindo Loving Vincent.

O filme ambiciona ser mais do que um portento visual, explorando a tese de que Van Gogh pode ter sido assassinado. A teoria dominante é que Vincent disparou um tiro sobre si próprio nos campos onde pintava, tendo-se refugiado no seu quartinho onde viria a morrer dois dias depois, a 29 de julho de 1890, tendo Theo à sua cabeceira. Da pistola e do material de pintura, não se encontrou rasto. Esta tese é, aqui, trabalhada como uma investigação policial: Armand Roulin (Douglas Booth), filho do carteiro Joseph Roulin (Chris O'Dowd), amigo de Vincent, é incumbido pelo pai de entregar a última carta que o artista tinha escrito ao irmão. A missão revela-se difícil, já que Theo morrera, um ano depois de Vincent, arrastado pela dor da perda irreparável e pela doença. Sem saber a quem entregar a missiva, Armand transfigura-se em detetive involuntário, seguindo pistas, ouvindo testemunhas, deparando com opiniões contraditórias sobre o artista: a admiração da alegre Adeline Ravoux (Eleanor Tomlinson), filha do dono da estalagem que abrigou Vincent; a hostilidade beata da governanta do Dr. Gachet, Louise Chevalier (Helen McCrory); a perplexidade do comerciante de tintas Pére Tanguy (John Sessions); a aceitação do barqueiro (Aidan Turner); o afeto invejoso do médico Gachet (Jerome Flynn). Os flashbacks das situações vividas por Vincent apresentam-se a preto e branco, para descansar os olhos da exuberância visual e para não desvirtuar a veracidade artística: as cenas do filme que Van Gogh não pintou foram inspiradas em fotografias de época.

É a própria história de Vincent que resgata a emoção desejada. Afinal, o deslumbramento visual oferecido por este estranho objeto cinematográfico não é autossuficiente