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"Temos tudo para o turismo: infraestruturas, instalações hoteleiras, serviços de apoio... Não cuspam nesta sopa que nos está a alimentar"

Cultura

Álvaro Covões, Diretor da produtora de espetáculos Everything is New

João Lima

Leia ou releia a entrevista a Álvaro Covões, Diretor da produtora de espetáculos Everything is New, que esta semana realiza o festival Nos Alive, em Lisboa

Durante anos, acreditava-se que os festivais de verão nunca esgotavam. O Nos Alive foi o primeiro a provar que isso não era verdade e, em 2017, esgotou mesmo os bilhetes para os três dias (os próximos 6, 7 e 8 e julho) com três meses de antecedência. Álvaro Covões, 54 anos, é a cara por trás do sucesso deste evento que, desde 2007, se instalou no Passeio Marítimo de Algés e que foi atraindo cada vez mais público estrangeiro. 
É também membro da Associação de Turismo de Lisboa, instituição a que gostaria de presidir.

Há turistas a mais em Lisboa?

Não. Só quem não viaja é que pode achar isso. Temos é um grande problema: há uma grande concentração de turistas em apenas dois ou três bairros da cidade. Já devíamos ter criado mais conteúdos para espalhar os turistas por vários espaços. Mas estamos a milhas de termos turistas a mais.

As queixas que se vão ouvindo na cidade têm mais a ver com essa concentração, é isso?

Em Portugal é sempre assim! Se há comércio, é porque traz pessoas para o bairro que sujam e fazem barulho; se não há comércio, é porque não há ninguém nas ruas e aumenta a insegurança... Nunca estamos satisfeitos. Está-se a criar essa ideia do “turismo a mais” nem sei bem porquê. Lisboa sempre foi uma cidade de turismo, desde o tempo dos nossos avós. Mas nessa altura era mais turismo interno e havia quatro lugares obrigatórios: o Coliseu, com circo e teatro de revista, o Parque Mayer, o Jardim Zoológico e a Feira Popular. 
O entretenimento era fundamental no turismo. Em 1974 Lisboa tinha o dobro dos teatros que tem hoje. Dizemos que estamos mais desenvolvidos, mas sempre aprendi que um bom índice para avaliar o desenvolvimento de uma cidade é o número de teatros.

Tem-se repetido que Lisboa devia aprender com os erros de cidades turísticas como Veneza ou Barcelona...

Temos de agradecer a Deus não termos aqueles recursos naturais que dão muito dinheiro, como o petróleo ou minérios, mas termos a dádiva deste jardim à beira mal plantado, quase a única grande faixa verde da Península Ibérica, a costa atlântica gigantesca e fabulosa. Temos o prazer de comer, uma gastronomia rica, única... Ou seja: não podemos cuspir na sopa. Todo este milagre económico deve-se ao turismo. No tempo da troika, lembro-me de alertar que Portugal só tinha uma indústria com capacidade para, em menos de 24 horas, triplicar a produção sem gastar mais um centavo: o turismo. Ao contrário de todas as outras indústrias que exigiam investimentos pesados e lentos, temos tudo: infraestruturas, instalações hoteleiras, serviços de apoio... Por isso eu digo: não cuspam nesta sopa que nos está a alimentar a todos.

E os problemas com uma mudança muito rápida no mercado de habitação em Lisboa?

O homem, por natureza, quer melhorar as suas condições de vida, e quem pode aproveita as oportunidades, isso é mesmo assim... É assim que um povo fica mais rico, a ganhar dinheiro e não sentado à espera que apareça um poço de petróleo. Desde criança que ando muito pela Baixa e lembro-me da vida que tinha quando as empresas estavam lá todas, os bancos, seguradoras, jornais... Era um fervilhar, uma coisa única. E assisti à desertificação da Baixa. Um fenómeno, aliás, que aconteceu em muitas grandes cidades. Agora tem turistas, tem vida. Eu prefiro assim. Claro que temos de encontrar um ponto de equilíbrio porque os turistas, para continuarem a vir, querem sentir autenticidade.

Não estaremos a correr o risco de criar uma bolha de novos hotéis e alojamentos turísticos que um dia vai rebentar?

Não me parece. Isto era uma tristeza. Quando recebemos aquele Congresso Internacional dos Rotários não havia camas suficientes em Lisboa, havia gente a dormir quase no Algarve... Nós somos pequeninos. Agora estamos a tornar-nos um bocadinho maiores, é natural que haja uma multiplicação de camas disponíveis. Foi o que aconteceu nos Açores quando as companhias low cost começaram a voar para lá. Mas isto significa riqueza. A batalha, agora, é qualificar o turismo, ou seja, trazer pessoas que têm mais dinheiro para gastar.

Ainda há, portanto, margem para crescer...

Isto é o futuro... O mundo do século XXI é o mundo dos serviços e do turismo. Trabalhamos para nos realizarmos, e porque precisamos, mas estamos sempre a pensar no que fazer com os nossos tempos livres. 
À escala mundial isso significa... turismo. E é verdade que Lisboa está um bocadinho mais na moda, mas basta ir ali até Madrid para perceber o que é mesmo estar na moda, não tem nada a ver... Portugal deve ser o único país da Europa ocidental onde ainda se pode beber na rua um bom café expresso por 60 cêntimos. Isso um dia acaba, infelizmente.

Numa entrevista à VISÃO em 2013 falava de um hábito que tinha mudado: as pessoas compravam bilhetes para um festival como o NOS Alive muito em cima do acontecimento... Agora, esgotaram com três meses de antecedência. 
O mercado alterou-se assim tanto em quatro anos?

Não. O que aconteceu é que não era nada comum, antes, os grande festivais esgotarem nem sequer um dia. Como os espaços são grandes achava-se que cabia sempre mais alguém... Mas há uma lotação, claro. O Alive foi o primeiro a conseguir esgotar alguns dias com antecedência. Agora, as pessoas têm a preocupação de não deixar a compra para a última hora porque arriscam-se a não ter bilhete. Mas sei que vivo num País onde muitos jovens gostavam de ir a um festival como o Nos Alive e não têm a mínima possibilidade económica de o fazerem. Há muita gente que mal tem dinheiro para comer... É uma realidade portuguesa e acho que se faz, ainda, muito pouco para acabar com isso. Aliás, um jovem estudante, em Portugal, tem muita dificuldade em começar a fazer pequenos trabalhos, a aproveitar a vida, ser livre, ter a oportunidade de se sentir gente. Porque as pessoas quando não têm dinheiro e não podem consumir não são gente, no sentido de poderem pensar “a vida é fantástica!”. Temos um sistema legal completamente obtuso e injusto que faz com que os jovens não sejam empreendedores. A partir dos 16 anos acho que devíamos incentivar os jovens, nem que seja duas horas ao fim de semana, algumas horas semanais, a trabalharem, a conseguirem pocket money, a sentirem-se realizados. Nesta sociedade, infelizmente, é mesmo assim: é preciso ter algum dinheiro para nos sentirmos pessoas iguais às outras. Depois ouvimos nos discursos políticos, da esquerda à direita, que os portugueses têm de ser mais empreendedores... Mas como é que é possível? O sistema funciona ao contrário e começa logo a cortar as pernas aos miúdos. Eu até acho que é de propósito. Os jovens, hoje, aos 18 anos, não têm consciência política. As taxas de abstenção são brutais e isso é muito preocupante. Conseguiram isso, parabéns à Terceira República, nem o Salazar tinha conseguido...

Começa a ser um lugar comum falar do grande número de estrangeiros no Alive. Este ano repete-se?

Quem nos ajudou a esgotar foi, de facto, o público estrangeiro. Em primeiro lugar os britânicos, depois os espanhóis e a seguir os franceses. Este ano temos confirmadas 83 ou 84 nacionalidades e 21 mil estrangeiros presentes [unique visitors]. No ano passado houve mais, mas a verdade é que nunca esgotámos com tanta antecedência, por isso deixaram de conseguir comprar... O nosso objetivo também não é ter o máximo de estrangeiros possível. O objetivo é vender os bilhetes todos, de preferência a portugueses.

Há essa prioridade? Mas investem muito em publicidade no estrangeiro...

Acho que fomos a primeira marca portuguesa a fazer uma campanha no metro de Londres. Fizemos este ano. O primeiro público-alvo é o português, mas sabemos que para esgotar temos que promover o festival no estrangeiro. Tem a ver com a dimensão do País e também com a concorrência, claro... Este é um negócio muito particular e de risco muito elevado, não só os festivais mas todos os espetáculos. Para atingir o breakeven [ausência de prejuízo], normalmente, é preciso vender os bilhetes quase todos ou mesmo esgotar... Por alguma razão os grupos económicos e grandes investidores não têm uma divisão de espetáculos.

Houve uma preocupação especial com a segurança nesta edição?

Nunca discutimos segurança na praça pública. Mas posso dizer que esse é um assunto muito importante para nós há anos, não tem a ver com acontecimentos recentes. Os grandes concertos são dos sítios mais seguros no panorama dos grandes eventos em Portugal.

O ambiente em Portugal mudou muito em pouco tempo. Com a vitória no Euro 2016, na Eurovisão, bons indicadores económicos... voltou uma certa euforia. Como olha para isso e, em particular, para esta solução de Governo?

Atenção: bons indicadores... só alguns. Nem todos os números são positivos. Nós devemos ser dos países que mais paga impostos no mundo. Entre impostos e segurança social, chega-se facilmente a uma fatia de 75% do rendimento. É brutal. Nem o Príncipe João do Robin dos Bosques ia tão longe... O povo é soberano? Não é. Só somos soberanos para votar, depois ninguém nos pergunta mais nada. Quanto à “geringonça”... Fiquei muito surpreendido. Nunca pensei que a extrema esquerda em Portugal tivesse coragem de aprovar a descida do IVA da fast food e manter o da cultura. Assim, já não sei bem o que são medidas de direita e de esquerda... Na realidade, parece-me mais do mesmo. Há quarenta e tal anos que há uma receita que funciona sempre: se é preciso mais dinheiro, aumentam--se os impostos. Agora não podemos embebedar-nos na euforia, temos que continuar a trabalhar muito e ter uma estratégia para o País, a dez ou 20 anos, sem recuos nem alterações. 
E, de uma vez por todas, temos que nos organizar.

Tem algumas ambições políticas, imagina-se a candidatar-se a algum cargo?

Não, zero. O salário, por exemplo o dos presidentes de câmara, é ridículo para o nível de responsabilidade que têm e acho que isso até funciona como convite a alguns casos de corrupção. Por outro lado, um político no poder em Portugal está exposto a uma espécie de Pide, toda a gente vai investigá-lo para saber se há 18 anos se portou mal. Não teria paciência para isso... Costumo dizer que “santos só no céu”. E gosto muito de fazer parte da sociedade civil, acredito muito no associativismo. Gostava, por exemplo, de ser presidente da Associação de Turismo de Lisboa, de que faço parte. Isso gostava. Falta uma estratégia para o potencial gigantesco do turismo de Lisboa, do Porto, de todo o País... Mas a verdade é que gosto muito de fazer o que faço na Everything is New.

Continua a achar que as touradas, que têm cada vez mais críticos, deviam fazer parte dessa estratégia turística?

No dia em que a opinião pública fizer algo para acabar com aviários e a agropecuária também podemos discutir o fim das touradas. Se estamos a falar de animais, temos que pôr tudo no mesmo patamar. Mas, atenção, não sou especialmente aficionado e sou contra os touros de morte. No entanto, aprecio a pega, que é uma coisa única. Devíamos mostrar isso ao mundo. Quando as agências financeiras dizem que somos “lixo”, devíamos mostrar-lhes uma pega de caras. Os nossos números podem ser maus, mas eles não podem dizer que os portugueses são uma merda. É bárbaro? Sim, picar o touro pode ser bárbaro... Mas o transporte dos porcos também é, os aviários também são. Quanto às touradas, os espanhóis não brincam em serviço. Aquilo é uma imagem de marca e movimenta milhões.