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"Em guerra não sou cobarde, não tenho medo do debate político, mas metem-me numa festa com 200 pessoas e eu morro"

Cultura

António Pedro Ferreira

O pretexto foi Cenas da Vida Americana, o novo livro de Clara Ferreira Alves. Mas as conversas com a jornalista e comentadora são do domínio do imprevisto: sabe-se onde começam e por onde passam – a política internacional e a literatura estão sempre lá –, mas não se consegue imaginar onde vão acabar. Esta revelou a mulher tímida e sensível atrás da durona racional, analítica e libertária

A conversa, regada a chá japonês, foi na sua sala, forrada de livros do chão ao teto. A jornalista Clara Ferreira Alves acaba de lançar nova obra 
– Cenas da Vida Americana –, onde passa em revista anos de escritos, alguns publicados no Expresso, outros inéditos, sobre uma América de Reagan a Trump que ela conhece bem. O primeiro livro depois do romance Pai Nosso, uma história sobre jornalismo, terrorismo e Médio Oriente, no qual trabalhou anos a fio. Esta foi uma conversa sobre a nação mais poderosa do mundo, a literatura, os trolls da internet e a guerra das civilizações que o 11 de Setembro desencadeou, mas também sobre a mulher que está atrás da carapaça impenetrável que muitos veem nela. Uma mulher de fé que chora com as notícias dos atentados terroristas, que tem pesadelos com cabeças cortadas que não a deixam dormir, que é tímida, detesta uma festa e se diz “socialmente cobarde”.

Já consegue não abrir a boca de horror e indignação de cada vez que Donald Trump diz mais um disparate? Está refeita do choque de ter um bully ignorante e misógino no cargo mais poderoso do mundo?

Eu, a certa altura, percebi que ele ia ganhar e portanto já nem estou muito chocada. As pessoas estão a dizer “ah e tal, ele é muito pior do que eu imaginava”. Mas não, ele é exatamente aquilo que eu imaginava. Nada do que está a acontecer me surpreende. 
É evidente que o resultado das eleições foi um choque porque entendi as consequências que ia ter, e percebi o tipo de pessoa que tínhamos na Casa Branca. Do George Washington ao Trump, é preciso ver a evolução… é como aqueles diagramas do macaco para o homo sapiens, mas invertidos. Eu vi O Aprendiz todo como uma espécie de obsessão, de atração pelo abismo e por aquele tipo de personagem e personalidade.

E está lá tudo. O egocentrismo, 
a misoginia.

Tudo. E aquela vaidade insuportável... Este homem é tenebroso, é capaz de tudo, totalmente imprevisível. Ele é um avatar. Subitamente descobriu-se aquela América do operário desempregado da Pensilvânia. Mas aquela América do meio sempre existiu, uma América altamente incivilizada, ignorante, que foi lutar em guerras sem sequer saber onde é que elas eram travadas. É claro que as elites das duas costas – a do entretenimento e da indústria de Hollywood e a dos intelectuais de Nova Iorque –, 
comodamente preferiram esquecer que esta América existe. É como aqueles primos da província que nos visitam durante uns dias e depois preferimos esquecer. E enquanto esta América industrial e rural tinha emprego, tudo bem, depois com a globalização e a crise, tudo veio à tona.

Há várias Américas e não uma América.

António Pedro Ferreira

É como o Connecticut, que as pessoas associam a um sítio com um estilo de vida muito confortável, casinhas brancas, jardinzinhos. Mas anda-se para o lado, vai-se ali a Massachusetts ou a Rhode Island, encontra-se uma pobreza e um analfabetismo impensáveis no século XXI.

Os esquecidos e os rejeitados estão logo ali ao virar da esquina.

Sim, e com um consumo de droga impressionante. Há uma população enorme de toxicodependentes de meia-idade. E entra-se numa destas cidades, onde há aliás muitos lusodescendentes, e parece que se está noutro planeta. Esta América nunca desapareceu. A do “white trash” americano, a dos trailer parks. E de repente apareceu um homem que disse “eu estou aqui por vocês”. Estive naqueles primeiros comícios do Trump e fiquei impressionada. Aquela gente não sabia bem porquê, mas odiava a Hillary. A misoginia era enorme e era muito mais visceral do que o ódio aos gays e aos negros. E ela corporizou, com o seu fatinho e o seu cabelo arranjado, tudo aquilo que detestavam na América das elites.

Esta vitória de Trump é também isso: as ofensas e a menorização da condição feminina ficaram como que legitimadas pelo voto popular. O telhado de vidro não foi quebrado, mas foi mesmo reforçado.

A derrota da Hillary foi sobretudo uma grande derrota para as mulheres. Quando chegou a hora de decidir se uma mulher pode ou não ser Presidente dos EUA, houve uma rejeição.

A questão do género nunca esteve arredada nestas eleições.

De maneira nenhuma. E agora surgiu uma nova teoria da normalização, até aqui no “trumpismo” nacional, de que as elites e os intelectuais têm ódio ao Trump. Não odeiam nada. Aliás, devo dizer, num raciocínio estilo Trump, que para a minha “line of business”, é maravilhoso. Enquanto ele existir, eu tenho emprego, posso escrever textos, posso publicar livros. [Risos.] “He is a gift that keeps on giving”, uma prenda que continua a oferecer. Para nós jornalistas, o Trump, as Le Pens e toda essa rafeirice política são o nosso alimento. Ele é, sim, ridículo e perigoso, para o planeta e para o mundo. Tal como, aliás, gosto da Hillary e não por ser mulher. Mas assisti à campanha mais misógina e odiosa da História, isso para mim foi demolidor! Nunca imaginei que fosse possível ver, em pleno 2016, atacar-se politicamente uma mulher naquela base.

Ele vingou pelo simplismo. 
Dá respostas básicas, quase infantis, a questões altamente complexas. E o povo gosta disso. Mas as respostas simples para questões complexas estão normalmente sempre erradas.

Ele nega tudo. A sua grande especialidade é negar as evidências, as evidências científicas, os factos. Ele diz sempre “isso não existe”. E diz sempre “he’s a great guy!”, não interessa se alguém é um bandalho. Para o Trump, o Sol gira à volta da Terra, sendo ele a Terra. O Sol gira à volta dele. Como disse o Martin Amis sobre o Gore 
Vidal, ele andaria muitos quilómetros no deserto a pé pelo seu próprio sorriso. O Trump a-do-ra-se e sacrificará toda a gente, incluindo a própria família, se não for tratado como o ser mais glorioso alguma vez parido na História da Humanidade.

E isso é muito assustador. 
Ter um egocêntrico narcisista 
aos comandos do mundo.

Eu, basicamente, acho-o um idiota, para pôr as coisas com simplicidade. É que nem bom homem de negócios é. E ele que disse que ia salvar Atlantic City do declínio – basta ver como está hoje Atlantic City com os casinos: tudo em ruínas! É isso que ele vai fazer com a América e com o mundo.

António Pedro Ferreira

Como é que a América e o mundo vão recuperar deste retrocesso civilizacional?

A América já está desesperadamente, por vários meios, a tentar ver-se livre dele, estão todas as instituições e mecanismos de defesa a ser postos à prova. Há os famosos checks and balances... Ele cometeu alguns erros grandes, que não entendeu por ignorância. Um deles foi enfrentar as grandes agências de segurança: a CIA, o FBI, a própria National Security. Outro foi achar que podia enfrentar também a imprensa. Ele não percebe que “those who live by the press die by the press”, quem vive pela imprensa morre pela imprensa. Trump vivia disso – de apresentar uma persona bem-sucedida, rica, satisfeita consigo própria. Agora é-lhe mais difícil.

Como é que se sai disto? 
Impeachment?

Trump versus América democrática… Mas não é fácil o impeachment, nem será fácil eles verem-se livres do Trump. Como disse o Andrew Sullivan, o Trump vai fazer à democracia americana o que o asteroide fez aos dinossauros – é da ordem da extinção. A América vai sair muito danificada disto. Não tenho assim tanta confiança que ele possa ser afastado e até combatido em termos democráticos.

E ele não é um homem que resigne como Nixon.

E até o Reagan sobreviveu a um caso muito mais grave do que o Trump. Mas Reagan não era um idiota, nem estava rodeado de gente idiota. Agora, há toda uma nova ordem mundial que está em causa. A Europa tem de começar a pensar que a Aliança Atlântica não acabou mas está suspensa, como dizia há dias a senhora Merkel. A parte boa é que o Trump pode ser uma vacina para os populismos na Europa, quando o dólar começar a cair e Wall Street a afundar, o que vai acontecer.

Qual foi o papel das redes sociais para a eleição de Trump?

Foi total. Acho o Facebook uma das invenções mais nefastas do mundo 
– Zuckerberg é um tipo muito perigoso, vai candidatar-se à presidência dos Estados Unidos da América um dia, não tenho dúvidas… Tenho uma conta de Facebook com um nome falso, falava com o meu filho quando ele estava em Singapura, gosto de perceber como funciona. Qualquer coisa que eu faça fica ali registado, e não há nada no mundo digital onde eles não estejam metidos – aquilo é o 1984, é um sistema totalitário. Silicon Valley, a Google, esta gente tem planos absolutamente assustadores para a espécie humana. E nós já somos semi-cyborgs porque estas coisas [pega no telemóvel] já são uma extensão de nós.

E a solução para o Trump pode estar nas redes? “Those who live by the social media, dies by the social media”?

Talvez... O fenómeno multiplicador é enorme. Traz ao de cima o pior que há em nós. Aquilo multiplica os piores instintos humanos.

Numa das suas crónicas publicadas neste livro, dizia que fazem falta grandes pensadores que travem Trump. Um Christopher Hitchens, por exemplo. Mas não é inocente pensar que os media tradicionais podem chegar a estes eleitores do Trump?

As subculturas não são, de facto, penetradas pelos medias tradicionais. A coisa vai por derrama, lentamente. Mas há vozes na América, intelectuais que se calaram. Adoraria ler sobre isto o Philip Roth, o Martin Amis, o Christopher Hitchens que foi uma enorme perda… hoje há um grande silêncio. Houve um aburguesamento do escritor americano, tipos como 
Jonathan Franzen estão mais preocupados com os direitos das minorias, mas não se metem em política. Não lhes dá jeito, sequer, no circuito académico americano. É engraçado, acho que a literatura contemporânea passou a deixar de olhar para o mundo que existe e a olhar para a sua própria vida (o que eu chamo a literatura de Facebook, narcísica, que está muito na moda), ou a fazer literaturas do exótico (é o caso do norueguês Knausgård, por exemplo).

São os sinais dos tempos.

E as redes sociais estão a destruir o valor intrínseco da literatura. As pessoas não têm paciência nem cabeça. Estão antes a fazer uma selfie, querem lá saber de um livro. Estão sim preocupadas em construir uma persona, a sua própria narrativa pessoal. Conheço pessoas que são “real bitches” e que nas redes sociais aaah, extraordinário, subitamente temos ali um anjo! A “bitch” afinal é um anjo! [Risos.]

Mas verdadeiramente impressionantes são os trolls. Que vertem o pior que há no ser humano nas caixas de comentários e nas redes.

É o mundo da psicopatologia. Eles sempre existiram, agora têm o espaço e os meios para chegar a muita gente. Os jornais cometeram o erro extraordinário de lhes dar isso, de abrir a porta da interatividade. Como toda a gente tem uma farpa de maledicência, a malta adora ler aquilo. E as mulheres, então, ainda atraem mais os trolls, até por razões sexuais e biológicas. 
É lastimável. Uma vez, há uns anos, eu googlei-me. Foi talvez dos grandes choques da minha vida. A quantidade de pessoas que me odiavam de morte e que eu não sabia quem eram, pessoas que diziam coisas terríveis sobre mim e sobre a minha vida em blogues, os textos falsos que me atribuíam… Não eram insultos, era muito para lá do insulto. Isso chocou-me, andei uns dias assarapantada. Eu fui sempre do combate, eu não sou fácil, eu resisto. Mas isto é demais. Hoje jamais vou à net à minha procura, não quero saber. Hoje essa gente só me causa uma certa pena. A internet tem coisas maravilhosas, mas trouxe esta espuma negra à superfície do pior que há no ser humano.

E como é que a Clara resiste a isso, com tantos anos de exposição pública?

Olha, como a Selena Gomez, aquela miúda é a pessoa no mundo inteiro com mais seguidores no Instagram. 
A pobrezinha... Vi-a na Vogue americana em papel e a entrevista era muito reveladora do peso enorme que é ter aqueles seguidores todos – ela esteve com uma depressão terminal, teve de se internar numa clínica. E ela dizia “tudo o que eu gostava era que as pessoas se esquecessem de mim”. Eu às vezes digo o mesmo. Adoro ir para sítios onde ninguém me conhece. Apetecia-me ter assim uma coisa mecânica…

… Um manto de invisibilidade?

Eu percebo a Ferrante. Eu gostava de fazer aquilo, de me transformar noutra pessoa e poder publicar livros com um pseudónimo e poder desaparecer – gostava que as pessoas se esquecessem de mim. Os inimigos, os trolls, é um peso considerável. Sobre mim e sobre quem está comigo. Eu deixei de ir ao cinema, por exemplo. As pessoas querem conversar comigo sobre temas, lá está, querem a interatividade.

Mas conseguiu criar uma carapaça? Tem uma postura dura, agressiva, não teme um confronto.

Não sou nada agressiva. O Hitchens era agressivo? Somos tão brandos em Portugal que qualquer coisa que saia da normalidade é um conflito. E nós temos horror ao conflito verbal. Se temos um problema com alguém, antes de chegarmos ao ponto estamos duas horas com rodeios, a falar do tempo, a falar do vinho. O bom comportamento é uma das características mais repressoras da sociedade portuguesa, sobretudo para as mulheres. Já a Natália Correia dizia isso. Há uma grande tendência para quando se levanta a cabeça levar logo uma grande martelada. Mas há certos traços de caráter aos quais sou implacável: a maldade, por exemplo. Quando encontro pessoas que não prestam, quando percebo a maldade sou brutal, corto simplesmente.

Mas têm de si uma imagem autoritária e distante. Sente que intimida as pessoas?

Isso é um traço de personalidade meu, sim, sinto isso. Mas sou a pessoa menos autoritária que há. Acredito na voz de comando quando se trata de grupos e acredito no respeito. Gosto de ter autoridade sobre os temas sobre os quais escrevo, mas não sou uma pessoa autoritária. Aliás, eu não tenho poder sobre ninguém nem comando ninguém.

E recusou todos os convites para ter poder, à exceção da Casa Fernando Pessoa.

Recusei todos! Incluindo a direção do Expresso para dirigir com o Saraiva, a direção do Diário de Notícias, recusei ser ministra…

Não tem apelo pelo poder?

Não, sou uma freelancer que vive dos seus meios. E é assim que gosto de viver.

E sempre um pouco outsider.

Totalmente outsider.

Ninguém a vê nos círculos de pensadores e de escritores.

Jamais pertencerei a um clube que me aceite como membro [citando Groucho Marx]. E já sabia que, quando publiquei o romance, ia ser punida pelas minhas convicções políticas. Não sou uma autoritária, sou uma libertária. 
O que é muito perigoso para mim.

Se tivesse feito um romance com um pseudónimo, teria tido críticas diferentes?

Ai, algumas não tinham aparecido… Algumas eram tão ferozmente contra mim, para me humilharem, para me baixarem a proa. E há uma dose brutal de misoginia nisto, não tenho dúvidas. Escrevi há pouco tempo uma crónica sobre isso, sobre o PS do Norte contra a Ana Catarina Mendes: aquilo não tinha nada a ver com política, aquilo era uma reação por terem uma mulher a mandar neles. Uma mulher a mandar ainda é uma coisa que chateia muito. E depois há outra coisa: as mulheres não são boas para as mulheres.

Sente isso?

É uma coisa darwinista, é a competição pelo macho, é a sobrevivência, a procriação, é o diabo, mas a verdade é que há muitas mulheres que são umas cabras para as mulheres. Tenho boas amigas mulheres, dou-me muito bem com elas somos muito solidárias…

… mas isso é uma raridade?

Acho que não. As mulheres podem ser assim. Mas fora do seu círculo íntimo por vezes não são, e no meio profissional apoiam-se muito pouco. E um dos desportos favoritos dos homens é porem as mulheres umas contra as outras. Eu assisti a isso.

E assim protegerem-se a eles?

Sim, pois claro. Isso mantém-nos ao comando. Isso liberta-os.

E alguma vez teve pena de não ter nascido homem, como a Marie do seu romance Pai Nosso?

Não. Há muitas vantagens em ser mulher. E eu não sou a Marie, ao contrário do que as pessoas pensam. Bom, talvez na adolescência, durante 5 minutos, tenha tido pena… É preciso ver que na minha adolescência a mulher valia zero, não tínhamos direitos civis, éramos uma subespécie humana até ao 25 de Abril. Nessa fase tive muita consciência de que o facto de ser mulher me retirava a liberdade. Mas nunca desejei ser homem, que diabo!

Mas o mundo da opinião é um território completamente masculino. Aqui e lá fora.

Sim, porque as mulheres não gostam de se meter em sarilhos. Não têm paciência. Tenho muitas mulheres que me dizem “não sei como aguentas fazer o que fazes”. Porque é pesado, tem consequências sobre mim e sobre a minha família. Acontece que eu não sei fazer mais nada, só sei escrever e pensar… Mas recentemente estive a fazer meditação zen num mosteiro.

Precisa de encontrar esses pontos de escape?

Preciso de esvaziar a minha cabeça. Sair deste mundo e entrar noutro. Controlar a minha mente. Sobretudo porque a preparação e a escrita do Pai Nosso foram infernais para mim. Vi muita coisa, li muita coisa. Fiquei com síndrome de stresse pós-traumático. Passei um ano a ver vídeos de decapitação, vi muitas cabeças cortadas antes do James Foley ser decapitado na Síria. Percebi depois que não se consegue escrever sobre estes fenómenos terminais, este ato de violência pura não é abarcado pelos mecanismos da linguagem. Aquilo foi a pior decisão que eu tomei na vida, ficou dentro de mim, não precisava daquela memória na minha vida.

Aquelas cenas e as suas personagens não lhe saem da cabeça? Tem de se despejar delas?

Tenho muitos pesadelos. Tenho ataques de pânico, coisa que eu não tinha, sintomas de alta ansiedade de vez em quando... Quando uma coisa na nossa vida corre mal, o stresse pós-traumático aparece. Há uma situação de pessoas muito próximas a mim que me causa uma profunda tristeza, e a tristeza traz consigo todos aqueles malditos pesadelos que não me largam noites e noites. Tenho dias em que desejaria que não fosse noite… E a meditação é uma técnica complexa que me ajuda a dominar a minha cabeça. É uma consequência da vida que eu tive… mas trocava por outra? Não. É como dizer que queria ser homem – nem pensar.

Mas isso é uma característica muito feminina: pensamos muito, pensamos demais sobre as coisas. Esta é aquela pergunta tramada: há um olhar feminino sobre o mundo?

Vou dizer uma boutade: em muita coisa, as mulheres são muito mais inteligentes do que os homens. Costuma-se dizer que o homem é inteligente e a mulher intuitiva. 
Not true! Em muita coisa, a inteligência das mulheres é brutal. Brutal! E o grau de premonição, e isso não tem a ver com intuição mas com a inteligência, é enorme.

Acredita mesmo que isso existe?

Acredito. Como espécie ameaçada, as mulheres desenvolveram capacidades que os homens não têm. Elas na verdade ordenam o mundo. Imagina-se o que seria o mundo só nas mãos dos homens?! Há uma necessidade de encontrar uma inteligência feminina organizadora em situações de grande trapalhice. Na organização da realidade existencial, e não apenas no recinto doméstico. Elas têm capacidade de organizar o mundo porque tiveram de o fazer a vida toda, enquanto espécie ameaçada e até clandestina.

Uma das coisas que faz é resguardar muitíssimo a sua vida pessoal e privada.

Não é muito, é blackout total.

E o que sugere o algoritmo do Google, tendo em conta o que as pessoas mais querem saber? Clara Ferreira Alves… marido, casamento, família, divorciada, biografia e só depois Mário Soares, de quem foi assessora. Como se lida com esta curiosidade mórbida?

Mário Soares foi um grande amigo que teve sobre mim uma influência enorme. Sobre o resto… ficam na mesma. Nada, zero. Sou uma pessoa reservada, e por isso jamais conseguiria fazer a tal literatura da selfie de Knausgård, que pôs num livro que foi infiel à mulher. Eu já me exponho tanto que só faltava agora dar-me mais, e sei que, se vendesse a minha vida privada, provavelmente até venderia mais livros. Isso já me foi dito. Mas não o farei. Nem os meus amigos eu exponho. O mais longe que eu fui a desvendar o meu mundo pessoal foi no livro que fiz agora com o António Pedro Ferreira sobre Fátima, em que disse que sou católica e que falei da minha religião.

Falar de fé e da relação com a divindade é uma coisa muito íntima.

Muito complexa. Não foi fácil para mim ter feito aquilo. Tenho uma relação com Deus e com a religião, mas gosto de a manter para mim. Sou uma pessoa com grande pudor. E, mais, sou uma pessoa incrivelmente tímida, que é uma coisa que ninguém sabe.

Ninguém imagina. Tímida?

Mas sou, sim. E por isso é que não vou a receções nem a festas. Houve uma altura em que fiz um grande esforço para andar em sociedade… até ia a coisas de embaixada, que é a maior maçada de que há memória. A primeira coisa que fazia era agarrar-me a um copo de champanhe como a uma boia e bebia três copos para me aturdir. 
E de repente tinha-me comprometido com 50 almoços que eu não queria ter com aquela gente toda, era o que Graham Greene chamava do “perigoso terceiro Martini”. Passava não só a divertir-me como a achar graça a certas coisas com as quais me comprometia e que depois tinha imenso trabalho em descomprometer-me [risos].

E acabou com isso?

Sim. Sou incrivelmente tímida, não há nada a fazer. Odeio entrar num sítio e que as pessoas olhem para mim, ou não conhecer ninguém. O Salman Rushdie, por exemplo, ele adora uma festa. Adora, lá anda ele, com o seu copo na mão – adorava ter esta capacidade. Quando foi o lançamento do livro de memórias dele, fez-se uma festa muito grande em Londres. Estive com ele à tarde e disse-me “vais à festa logo!”. Disse que sim, claro que iria. Teria sido importante para a minha carreira ir e fazer o chamado “schmoozing”, conhecer umas pessoas e tal, e não é que eu já estava vestida e pronta e não fui? Acabei por não ir... Não aguento a ideia de entrar ali – vou beber 2 ou 3 champanhes, vou dizer 45 disparates, e para quê? 
E ele curiosamente não percebeu, ficou chateado comigo.

A sério?

Sim. Toda a gente sabe que eu adorava o Graham Greene e cheguei ainda a conceber o projeto de um dia ir à Antibes ter com ele. E depois percebi que teria sido a maior estupidez da minha vida: o que é que ia dizer àquele homem? “Admiro muito o seu trabalho”?! Ele quer lá saber disso! [Risos.]

Mas, ao fim de 5 minutos, a conversa ia rolar, caramba!

Aquele homem, com a vida que teve, ia lá querer saber de mim e das minhas opiniões. Eu ia andar três ou quatro dias em frente ao restaurante, ia beber gins tónicos para ser igual a ele e nunca iria conseguir entrar ali e falar-lhe. Há coisas em que eu sou socialmente cobarde, aí está! Em guerra não sou cobarde, no debate e confronto político não tenho medo, mas socialmente metem-me numa festa com 200 pessoas e eu morro. 
E casamentos? Tenho terror de casamentos.

Mas, fora de brincadeira, isso tem um preço.

Sim, claro. Dizem-me muitas vezes “devias estar nas redes, devias estar no Instagram para venderes mais livros, devias frequentar as capelas literárias”, coisa que eu nunca frequentei, Deus me livre. Não faço nada disso, não sou capaz, não estou interessada, não tenho paciência. Escrever um livro já é muito doloroso, dá muito trabalho, custa-me o diabo.

Era o Hemingway que dizia que escrever não custa nada, basta sentarmo-nos à secretária e sangrar.

Por isso é que ele se embebedava prodigiosamente… Escrever não é uma coisa gloriosa para mim, é uma escravatura, torna-se obsessivo. E ainda ter de construir a persona pública para fazer vender… as pessoas não querem o que escrevemos, as pessoas querem sugar-nos, querem saber tudo sobre a nossa vida.

Com o seu romance Pai Nosso, começou por escrever sobre dois assuntos que conhece muito bem: jornalismo e o Médio Oriente.

O que foi um erro brutal! As pessoas não querem saber do Médio Oriente. No Eixo do Mal, quando se fala no Médio Oriente, o pessoal já está todo com a mão no controlo remoto.

A diferença entre sunitas e xiitas já poucos alcançam.

Não, mas o Médio Oriente rebenta-lhes na porta. Vão acabar por ter de perceber.

O 11 de Setembro mudou o mundo. Vivemos hoje uma guerra civilizacional?

Ninguém quer admitir isso, mas sim. A supremacia ocidental acabou naquele dia – temos de lidar com realidades que nos eram indiferentes e que hoje temos de lidar com elas. Entrou-nos pela casa dentro. Algumas pessoas diziam que a crise financeira é que mudou o mundo, não perceberam nada. O 11 de Setembro foi o grande símbolo do fim de uma era. Dizer que o terrorismo não mudou o nosso estilo de vida… o terrorismo não tem feito outra coisa senão mudar o nosso estilo de vida.

Teria sido diferente se não tivéssemos a invasão do Iraque? 
É esse sobretudo o gigantesco erro histórico?

Sim, foi um erro trágico. Sobretudo a ocupação posterior, que gerou tudo o que hoje conhecemos, desde a Síria ao terrorismo que se seguiu. Esta ideia de que se iria converter o Iraque com as suas tribos sunitas e xiitas à democracia é completamente absurda: são sociedades tribais, não se mudam de um dia para o outro aplicando um modelo do parlamento democrático. É como a ideia de converter o mundo árabe com uma “primavera”? Por favor! 
A democracia não se exporta assim.

O terrorismo já é um modo de vida para os ocidentais? “Morreram mais 20, olha, ainda bem que não fui eu.” O que isto diz sobre nós?

E esta ideia de que existem terroristas melhores e piores do que os outros? Este de Manchester é pior do que os outros porque atacou crianças? E todos os outros que morreram? E não morrem crianças todos os dias? Esta ideia é de uma perversidade… Além disso, não há um tipo de terrorismo, há muitos.

Mas há um normalizar do terror nas nossas vidas. Já lidamos com a morte com uma quase naturalidade. Estamos a desumanizar-nos, como se vivêssemos em cenário de guerra?

Eu não normalizo. Cada ataque terrorista causa-me danos brutais, passo mal, fico toda a noite a ver a BBC e a CNN. Choro, tenho uma enorme empatia com as vítimas, que aliás até é excessiva e me faz mal. Devia-se fazer um fundo de apoio para apoiar as vítimas do terrorismo a lidar com os danos insuperáveis e as sequelas que ficam na vida das pessoas. A bomba explode naquele momento e depois continua a explodir durante anos a fio. Não consigo normalizar as mortes nem a dor.

(Entrevista publicada na VISÃO 1265, de 1 de junho)