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Eurovisão: quando a política canta mais alto

Cultura

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Gleb Garanich / Reuters

Todos querem ganhar. Todos cantam para isso. Mas o festival é muito mais do que música. Recorde 7 casos em que os resultados foram fruto de decisões políticas

Filipa Bulha Pereira

Controvérsias de 2017 - como a proibição da entrada da russa Yulia Samoylova em Kiev – à parte, a Eurovisão é conhecida pelo seu forte cunho político. Sobretudo desde que se acentuaram várias crises em países participantes. A própria Ucrânia teve de organizar o festival deste ano na ressaca de uma das maiores crises económicas do país, ao mesmo tempo que tenta gerir também um conflito que já dura há 3 anos. A poucas horas da entrada em cena de Salvador Sobral na semifinal, recorde aqui alguns dos episódios e polémicas da Eurovisão que ultrapassa, e muito, a música.

1 - Inglês ou...inglês?

Uma das principais críticas às participações tem sido o seu caráter mais comercial, em vez de cultural (afinal, o principal objetivo de cada um devia ser o de representar o próprio país). Os ABBA cantaram – e venceram – em 1974, com uma música cantada em inglês. A banda era sueca. E esta hegemonia da língua inglesa é uma outra grande crítica ao festival. A própria Espanha, cuja língua é particularmente comercial na música, cantou, no ano passado, em inglês.

Apesar de tudo, ainda há países que resistem este fenómeno. E a Itália é um deles. Este ano, concorrem com a música Occidentali's Karma, que fala – entre outras coisas – de materialismo, de superficialidade, mas também da dependência de tudo o que é virtual. Chamam karma ocidental à bizarra evolução dos humanos, daqueles que insistem em bater o pé, que nem crianças, quando não há uma rede wi-fi por perto. Quando a vida se distrai, caem os homens é uma das frases que Francesco Gabbani canta (em italiano, claro).

Portugal é outro dos resistentes, este ano. Aliás, Salvador Sobral é o único artista da primeira semifinal que não canta em inglês.

2 – O surrealismo belga

A questão da língua tem sido um problema para os belgas desde que começaram a competir no festival, no ano da estreia, em 1956. A grande dualidade tem sido a escolha de artistas francófonos ou flamengos. E quando não chegam a um consenso quanto à língua, a solução é simples (e, ao mesmo tempo, surreal): inventam uma. Citado pela BBC, o compositor de tal música em língua que não existe disse tê-lo feito porque lhe fazia lembrar a infância. E ainda acrescentou que sentiu que o público compreendeu sobre o que tratava a música - apesar do "idioma" - e reagiu com a felicidade de uma criança.

E para lá deste pequeno grande obstáculo, os belgas têm sido o centro das atenções devido à escolha de artistas demasiados novos. Na única vez em que venceram, descobriu-se que a artista ainda não tinha idade para participar. A questão já gerou discussões mas isso não parece ser motivo de preocupação para o país, que este ano será representado por um artista de 17 anos.

3 – Votos e mais votos

No que toca a votações, todos os grandes concursos têm os seus quês. E a Eurovisão não é exceção. Por isso mesmo, o sistema de votos foi alterado em 2009, quando passou para as mãos do público, mas também de um júri, sendo anunciados em conjunto no final.

Em 2016, deu-se a maior alteração no sistema. Em primeiro lugar, cada país anuncia os votos dos júris, e só no fim são anunciados os do público. Sem pôr de lado a justiça da votação, cria-se mais suspense e um melhor show televisivo.

Ainda assim, há política à mistura. É que alguns concorrentes de anos anteriores sentem-se injustiçados, como é o caso da Polónia que foi favorita do público em 2014 (para o que pode, ou não, ter contribuído os decotes generosos das artistas), mas que não ganhou porque teve dois votos contra por parte dos júris. Como se costuma dizer, não se pode agradar a gregos e a troianos. Ou a polacos, neste caso.

4 – A extravagância do Azerbaijão

O Azerbaijão foi o vencedor da edição de 2011 e, no ano seguinte, recebeu o concurso em casa. Mas não o fez às três pancadas. Muita extravagância significou, na altura, muito dinheiro gasto e, claro, críticas e discussões políticas.

Entre outras coisas, o país decidiu criar uma arena de raiz, que se assemelhava a um enorme anel de diamantes sob o Mar Cáspio. O espaço tinha 23 mil lugares sentados. E ainda comprou mais de mil táxis londrinos, roxos - o que não foi, com certeza, uma aquisição barata. A mesma arena, criada propositadamente para o evento musical, serviu também de palco aos Jogos Europeus de 2015

5 – Um evento LGBT?

Conchita Wurst: um nome que deu a volta ao mundo e uma das maiores polémicas da Eurovisão. A drag queen austríaca venceu a Eurovisão há dois anos (após ter sido publicamente contestada a sua participação por grupos radicais de países como a Rússia). Recentemente, Tom Neuwirth (o homem que dá vida a Conchita) anunciou o fim da personagem. Mas não o fez de forma leviana. Numa entrevista, usou a expressão "tenho de a matar".

Antes de Conchita representar a Áustria, já o Luxemburgo, em 1961, e Israel, em 1998, tinham sido representados por um homossexual e por uma mulher transsexual, respetivamente.

Este ano, a questão é outra. O apresentador, Ben Goodwin, viajou no ano passado para a Ucrânia com o parceiro. Mas não correu bem. Goodwin conta que, além de homofobia, sentiu que a ideia LGBT não é compreendida naquele país.

Um dos produtores da Eurovisão disse ao jornal Politico que superar as diferenças é uma das peças-chave do concurso. Hoje mais do que nunca. No palco (e fora dele), faz-se um esforço para promover a diversidade e o entendimento cultural. As bandeiras arco-íris que sobressaem no meio da plateia são prova disso mesmo. Este ano, o cenário talvez seja menos colorido.

6 - Ataques

As ofensas não são uma novidade. Na edição do ano passado, a Rússia apontou o dedo (ou vários dedos) ao sistema de voto, quando a Ucrânia venceu o festival. Disseram que 1944, a música vencedora, era ofensiva. Quando estranhos se aproximam/ Esles entram em nossa casa/ Eles matam-nos a todos/ E dizem/ Não somos culpados, é assim que começa a composição. Pelo meio, perguntam algo como "onde está o vosso coração?". E a resposta não tardou em chegar: "Lazarev é o nosso vencedor", disseram, mostrando que o coração russo estava bem perto do cantor em quem tinham apostado. E também aquele que os tinha feito gastar muito dinheiro nos efeitos especiais que acompanharam a sua performance.

Este ano, a Ucrânia diz que leva a palco uma música inofensiva, apesar de acreditar que, como sempre, haverá um conjunto de interpretações políticas ao longo do concurso.

7 - Uma Arménia mudada

Em 2015, o país marcou o centenário do massacre de milhões de arménios nos últimos dias do Império Otomano, ao participar com o grupo Genealogy. Face The Shadow foi a música com que subiram ao palco. Cantaram sobre amor-próprio e o refrão tornou-se viral... menos para o júri.

Este ano, decidiram voltar a falar de amor. A representante será Artsvik, uma cantora com parecenças com Kim Kardashian, cuja canção “Fly With Me” é uma escolha popular nas casas de apostas. Será que, desta vez, a política voará mesmo para longe?