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Festival Literário da Madeira: palavras leva-as o vento?

Cultura

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Depois de uma falsa partida, provocada pela ausência da Nobel bielorrussa Svetlana Alexievich, impedida de aterrar pelos ventos fortes, a sétima edição do Festival Literário da Madeira lá levantou voo. Mais uma vez, muitos mundos se cruzaram no Funchal

O bailarino Telmo Ferreira no palco do Teatro Baltazar Dias, antes do lançamento do livro Pés Alados, sobre a sua vida

O bailarino Telmo Ferreira no palco do Teatro Baltazar Dias, antes do lançamento do livro Pés Alados, sobre a sua vida

CAROLINARODRIGUES

Para Telmo Ferreira, conhecido na infância e adolescência como “feio” e “preto” na sua própria casa em Câmara de Lobos, onde nasceu em 1989, os turistas eram todos iguais. “Quer fossem franceses, alemães ou suecos, no seu entendimento todos os que não falavam português eram ingleses e falavam a mesma língua. Aprendeu: - Hello, money, please.” Quem o conta é a jornalista Sandra Nobre na biografia do bailarino Telmo Ferreira, Pés Alados (Nova Delphi), com prefácio da coreógrafa Clara Andermatt. É uma história improvável, quase impossível, de superação, entusiasmo e descoberta de um caminho a seguir. A infância de Telmo foi passada a mendigar, entre os meninos pobres da comunidade piscatória de Câmara de Lobos, para evitar as tareias da avó quando chegava a casa com menos do que mil escudos. Sobrava tão pouco para uma mínima dedicação à escola, que, sem ter qualquer deficiência, acabaria por ir parar a uma instituição de educação especial (até porque isso permitia à avó receber um subsídio). Foi aí que a sua vida se encontrou com a do brasileiro Henrique Amoedo, coreógrafo que fundou a Companhia Dançando com a Diferença (ligada à Associação dos Amigos da Arte Inclusiva). Juntos no palco do Teatro Baltazar Dias, Funchal, para a apresentação do livro de Sandra Nobre (também presente) protagonizaram, depois de uma breve apresentação de um excerto do espectáculo Bichos, de Rui Lopes Graça, o momento com mais emoções à flor da pele e lágrimas mal contidas, de todo o festival. Foi logo no dia de abertura, quarta-feira, 15 de março, a seguir à sessão inaugural em que um país, Angola, dominou o palco na conversa entre os escritores Pepetela e Ondjaki moderados por um Fernando Alves que convocou as suas próprias memórias angolanas. Antes ainda, o diretor do festival, o italiano Francesco Valentini, leu a breve declaração de Svetlana Alexievich (Nobel da literatura em 2015) que deveria ter aberto o festival no dia anterior mas teve azar com os ventos e voos (não foi por falta de tentativas: três vezes fez uma viagem que não chegou ao destino até acabar por desistir, no próprio dia 14): “Espero que nos possamos encontrar nessa Madeira tão bela e inacessível”, escreveu, deixando uma espécie de promessa no ar.

Ondjaki, Fernando Alves e Pepetela numa sessão inevitavelmente marcada por Angola

Ondjaki, Fernando Alves e Pepetela numa sessão inevitavelmente marcada por Angola

CAROLINARODRIGUES

No palco do belíssimo Teatro Baltazar Dias, e em vários pontos da cidade, em letras bem grandes, estava escrito “Literatura e Web”. Esse era o tema (com o subtítulo “Entre o Medo e a Liberdade”) para esta edição do Festival Literário da Madeira. Mas a sessão de abertura deu o mote para o que quase sempre aconteceria nos dias seguintes: o assunto ficou esquecido. Perdeu-se na coerência com aquelas letras tão impositivas, ganhou-se em liberdade. Até o matrindinde, desengonçado insecto de uma região de Angola, vieram à baila… Sempre à volta de Angola, Pepetela, Ondjaki e Fernando Alves viajaram entre gerações e geografias (com um bem disposto despique entre Luanda e Benguela). Pepetela recordou o aluno que lhe disse que o passado de Angola era tão triste e trágico que mais valia esquecê-lo e começar tudo do zero. O escritor, ex-guerrilheiro, disse-lhe, e disse-nos, que essa era a receita para “partir a cabeça na porta do futuro”. Ondjaki, olhando para lá dessa porta, revelou algum optimismo e garantiu que “desde 2011, o paradigma angolano já mudou”. Os dois concordaram que há já novos protagonistas a entrarem em cena no poder em Angola. E que isso é uma boa notícia.

Os turistas pelas ruas, jardins e hotéis do Funchal nesta época do ano parecem mesmo todos iguais, e é fácil perceber a confusão infantil de Telmo. Quase todos idosos, de pele muito branca, vestidos de cores pálidas, movimentos lentos (mesmo sobre rodas). Tão iguais entre si como aqueles que, às portas dos restaurantes, os tentam chamar de menu na mão, com lapas, espetadas e peixes em fotografias bem grandes para superar barreiras linguísticas. O Festival Literário passa-lhes ao lado, e vice-versa. Mas o Teatro Baltazar Dias, no centro do Funchal, fica bem cheio em praticamente todas as sessões, para ouvir escritores. É uma rotina que se tem espalhado nos últimos anos, multiplicada por festivais literários um pouco por todo o lado. Conversas como espectáculo (e ocasionais diálogos com o público) que funcionam um pouco como a ponta do icebergue, à vista de todos, dos encontros, desencontros e muitas conversas (nem sempre, ou mesmo raramente, sobre literatura) em que estes eventos se tornam durante alguns dias.

O FLM soube evitar o excesso de mesas e intervenientes que muitas vezes se sente nestes festivais (deixando a sensação de que se está sempre a lutar contra o tempo) mas mesmo assim há sessões que pedem para ser prolongadas, para que as conversas possam fluir melhor. No segundo dia do Festival, o brasileiro Marcelino Freire (uma revelação para os portugueses, agora que o seu premiado romance de estreia, Nossos Ossos é editado por cá) e Valter Hugo Mãe, moderados por Maria João Costa, subiram ao palco e, passando de novo ao lado do mote “Literatura e Web”, dedicaram-se mais à sua escrita. “Às vezes as ideias só atrapalham”, disse Marcelino, pernambucano a viver em São Paulo, “guardo-as no esquecimento, o meu processo é o de perder a ideia para ganhar a palavra”, explicou, antes de dizer que, depois de escritos, "rezava" os seus livros, num português muito rápido, para perceber se todas as palavras estão nos sítios certos. Valter confessou que não sente a sua existência legitimada se não estiver “a escrever um romance” e falou da sua relação quase obsessiva com blocos de notas (sonha mesmo com uma utópica estante de cadernos temáticos que o siga para todo o lado…) apesar de raramente essas mesmas notas irem parar aos seus livros.

O estado do mundo entrou, inevitavelmente, no programa. Um pouco como na cerimónia dos Oscars, Trump e demais populistas estiveram muitas vezes presentes nas apresentações, mesmo sem serem nomeados. Diretamente visado por Valter foi o escritor J. Rentes de Carvalho, na sequência do seu apoio declarado a Geert Wilders, candidato de extrema direita nas eleições holandesas. “Rentes sugere que comecemos o abandono do outro, não podia discordar mais…”, disse. Marcelino não perdeu a oportunidade, com a ajuda de Valter, de questionar a legitimidade do actual poder de Michel Temer no Brasil. A pedido de alguém no público, o escritor brasileiro protagonizou um dos momentos altos do Festival ao declamar intensamente o seu Trabalhadores do Brasil, verdadeiro manifesto a denunciar injustiças e desigualdades.

Antes de cada sessão, os participantes eram anunciados por uma voz forte, teatral, quente: a de Juvenal Xavier, figura bem conhecida da rádio na Madeira. A sua voz faria ainda ecoar na sala do teatro os nomes de Daniel Jonas, Inês Fonseca Santos, José Mário Silva e Maria Fernandes (uma mesa à volta da poesia, seus tempos e métodos – “o meu tempo é o da espera”, diria Inês, “a pressa é inimiga da poesia” acrescentaria José Mário); Viriato Soromenho Marques e Frederico Lourenço (e, se literatura e web continuou a não ser assunto, o subtítulo “Entre o Medo e a Liberdade” serviu de base à intervenção de Frederico Lourenço, que terá o segundo volume da tradução direta do grego da Bíblia em breve nas livrarias: “Na Bíblia, a palavra liberdade tem uma carga negativa, e nunca aparece na boca de Jesus, já o medo tem uma carga potencialmente positiva”, disse); a irlandesa Eimear McBride e a brasileira (a viver em Portugal) Tatiana Salem Levy, que tinham como mote a frase de Julio Cortázar “A linguagem é uma das prisões mais terríveis e está sempre à nossa espera”, levaram a conversa para a questão do género (McBride sublinharia como o vocabulário popular para conversas sobre sexo é eminentemente masculino e dificulta às mulheres falarem do assunto sem uma sensação de culpa). E Trump, mais uma vez, mas agora com uma perspectiva diferente do catastrofismo habitual: “Ele é o fim do passado, o último dinossauro, não é o presente, custa-me pensar que vamos ter de voltar a guerras que já travámos”, disse a escritora irlandesa. E quando se levantou a questão, batida, de que momentos de incerteza, muitas dúvidas quanto ao futuro e retrocessos podem ser bons para as artes, Tatiana Salem Levy não hesitou: “Não gosto de pensar que mundos piores fazem literatura melhor”.

Adam Johnson, Paulo Moura e Miguel Sousa Tavares na sessão de encerramento da sétima edição do Festival Literário da Madeira

Adam Johnson, Paulo Moura e Miguel Sousa Tavares na sessão de encerramento da sétima edição do Festival Literário da Madeira

CAROLINARODRIGUES

O mais obscuro, misterioso e, para quase todos, assustador dos países esteve no centro da sessão de encerramento do FLM 2017. Finalmente o moderador, Paulo Moura, tentou, em cima da linha de chegada, trazer o tema das relações entre Literatura e Web para a mesa, sem derivações, mas o assunto rapidamente foi ultrapassado. Falar da Coreia do Norte com o autor de Vida Roubada (Prémio Pulitzer 2013) era muito mais tentador. Na verdade até havia uma ponte bastante direta entre os dois assuntos: “Pude escrever na Califórnia este livro passado na Coreia do Norte graças à internet”, disse Adam Johnson (que também visitou, breve e controladamente, o país mais secreto do mundo a que dedicou esta obra de ficção). Ao lado de Adam estava Miguel Sousa Tavares que, mais uma vez, declarou a sua “alergia às redes sociais” (se estivesse presente nas redes talvez tivesse evitado dizer uma piada básica e sexista, daquelas que as incendiam em menos de um fósforo: “Em breve - uma boa notícia para as senhoras - vai haver automóveis sem condutor”) mostrando ainda grande desconfiança em relações aos smartphones (“o meu telefone acaba-me as frases… Ora, se ele é o inteligente, o estúpido sou eu.”). Mais a sério explicou a sua deriva, em nome da liberdade de escrita, para o território da literatura, afastando-se do jornalismo: “O escritor é um mentiroso autorizado, o jornalista não”.

No fim, as pessoas batem palmas, as pessoas pedem autógrafos, as pessoas trocam breves conversas com os autores. E nestes festivais há sempre algumas palavras, talvez raras, que ficam mais tempo do que as outras. As mais preciosas serão as que, irresistíveis, levam leitores em direção às páginas de um qualquer livro que pode mudar as suas vidas.

O Festival Literário da Madeira volta em 2018 e o seu director, Francesco Valentini, anunciou já o tema do próximo ano: “Literatura e Jornalismo: a Palavra que Prende, a Palavra que Liberta”.