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Estamos a regressar a 1984 e isso é bom

Cultura

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© Shannon Stapleton / Reuters

Com Trump no poder, George Orwell voltou a tornar-se um fenómeno mundial de vendas. Em Portugal também. Por que andamos à procura de distopias? Qual a “urgência” de regressarmos a “1984” e como são ensinadas as obras do escritor britânico nas nossas escolas?

Tudo começou com a polémica à volta da multidão – ou da falta dela – que teria presenciado o juramento de Donald Trump como presidente norte-americano. Na versão da Casa Branca, difundida através de Sean Spicer, secretário de Imprensa da nova administração, aquela fora a maior audiência de sempre de uma tomada de posse na História dos EUA.

Num abrir e fechar de olhos, o escrutínio da generalidade dos órgãos de Comunicação Social provou que as afirmações eram falsas. Quando confrontada com esses dados, Kellyanne Conway, assessora de Trump, assegurou que a equipa do novo presidente tinha, simplesmente, apresentado “factos alternativos”. Foi o bastante para que, num ápice, a memória fizesse o seu caminho e acabasse em 1984, a distopia que George Orwell escreveu em 1948. A expressão da assessora do presidente dos EUA remeteu os mais atentos para a narrativa do Ministério da Verdade, que, no livro do escritor nascido na Índia de domínio britânico, se dedica precisamente a esconder e falsificar a realidade.

O rastilho fez subir a procura da obra em quase todo o mundo, com o sítio de compras online Amazon à cabeça, onde na noite desta terça, 31, havia quase cinco mil comentários sobre a obra. O livro teve um incremento de quase 10 mil por cento nas vendas em todo o território norte-americano, segundo o El País. Mas 1984 já figurava na lista dos 50 mais vendidos em Espanha no ano passado, a partir dos dados de 600 livrarias.

Agora, nem Portugal escapou ao frenesim. “Registámos maior procura, sobretudo nas duas últimas semanas e especialmente por parte das grandes cadeias”, reconheceu Luís Oliveira, editor da Antígona, à VISÃO. O efeito contagiou outras distopias que fazem parte do catálogo da editora, tendo-se também registado “maiores vendas” nas obras Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, Nós, de Zamiatine (que inspirou 1984), e, sobretudo, no mais recente volume dado à estampa: Kallocaína, de Karin Boye, publicado no ano passado. “Atribuímos o sucedido ao facto de todos estes livros serem espelhos terrivelmente férteis e tão intemporais como o próprio capitalismo – cujas metamorfoses não passam de máscaras – numa era de Trumps, que apenas prolonga a agonia do sistema”, explica Luís Oliveira. Para o editor da Antígona, estas obras “talvez venham a integrar, num futuro próximo, a categoria de não-ficção no nosso catálogo. Só o tempo o dirá”, ironiza.

A “urgência” de revisitar Orwell

O renovado interesse em 1984 é cíclico.

Em 2013, assistiu-se a idêntico fenómeno quando o analista de sistemas Edward Snowden, ex-funcionário da CIA e da Agência Nacional de Segurança (NSA), denunciou os vários programas de vigilância global de comunicações dos EUA. “O livro de Orwell oferece-nos instrumentos para a compreensão dos tempos em que vivemos”, assume Fátima Vieira, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e especialista em estudos sobre a Utopia. “A descrição de uma sociedade dominada por um líder omnipresente (o Big Brother), de uma estratégia de pensamento paradoxal (o duplipensar), associada a uma língua simplificada (a Novilíngua), bem como de uma instituição cuja função desvirtua o seu nome (o Ministério da Verdade), encontram-se assustadoramente próximos da realidade atual norte-americana”, crê.

A obra 1984 é de leitura obrigatória para a maior parte dos estudantes do ensino secundário nos EUA. No caso português, é normalmente ensinado nas universidades no âmbito das cadeiras de Literatura Inglesa dos cursos de licenciatura e de mestrado na área dos Estudos Anglo-Americanos. “Dependendo do programa”, explica Fátima Vieira, “a análise da obra poderá incluir outros textos de Orwell, sobretudo os seus ensaios. De uma forma geral, a obra assume-se como um bom pretexto para evidenciar a necessidade de promoção do pensamento crítico e granjeia o interesse dos estudantes”, esclarece a coordenadora do polo do Porto do CETAPS (Centre for English, Translation and Anglo-Portuguese Studies), onde dirige uma linha de investigação sobre o utopismo britânico e norte-americano.

Outra das obras de Orwell, A Quinta dos Animais (O Triunfo dos Porcos), integra o Plano Nacional de Leitura, enquanto 1984, na versão original, faz parte da lista de “livros em língua inglesa recomendados para leitura orientada na sala de aula e/ou leitura autónoma” no 9º ano. Para Fátima Vieira, há ainda outro livro do escritor britânico a merecer referência: A Política e a Língua Inglesa, (o original é de 1946) onde Orwell explica que a linguagem política “tem como objetivo fazer com que as mentiras pareçam verdade e com que o assassínio pareça respeitável, dando uma aparência de solidez ao puro vento”. Segundo a docente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, ler este curto ensaio à luz dos acontecimentos das últimas décadas “é uma experiência simultaneamente esclarecedora e assustadora”.

Derrotismo e resistência

Embora a tendência seja analisar o pensamento de Orwell de forma derrotista, há outros caminhos para desbravar. Para Fátima Vieira, o apelo do autor de 1984 vai também “no sentido da resistência, de trabalharmos a língua, de a enriquecermos de nuances e ambiguidades, de lutarmos contra qualquer possível tentativa de simplificação que nos conduza a uma representação limitada da realidade e nos retire esse instrumento essencial para a expressão do nosso próprio pensamento”. Ou seja, na verdade a obra de Orwell pode ser lida “como um grito de alerta no pressuposto de que ainda vamos a tempo de evitar a destruição total”.

Ao escrever 1984 em 1948, invertendo os dois últimos números, o escritor quis dizer-nos, no fundo, “que, se ninguém intervier, aquele poderá ser o futuro”, refere Fátima Vieira. Por isso, a investigadora na área dos estudos sobre a Utopia considera “urgente” promover a leitura de textos utópicos e distópicos. “Os primeiros porque nos oferecem horizontes em direção aos quais podemos querer caminhar e os segundos porque nos alertam para os perigos do futuro, motivando-nos à ação”, justifica.

5 distopias de leitura obrigatória

Recomendações com os comentários de Fátima Vieira, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e especialista em estudos sobre a Utopia.*

Nós, de Evegueni Zamiatine (Antígona)

Escrito nos primeiros anos da década de 20 do século passado, mas publicado apenas em 1924, em Nova Iorque. O romance, que descreve uma sociedade totalitária, sujeita a uma vigilância constante, onde os edifícios são transparentes e os indivíduos designados por números, terá inspirado Orwell a escrever Mil Novecentos e Oitenta e Quatro.

Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (Antígona)

Publicado em 1932, alerta para os perigos dos avanços da ciência quando utilizados para servir um governo totalitário (no livro, os indivíduos são submetidos a processos de condicionamento biológico e psicológico).

Isso não pode acontecer aqui (It can not happen here), de Sinclair Lewis

Este livro, que não conheceu mais nenhuma edição após a sua publicação, em 1935, conhecerá agora a sua segunda edição, dada a procura na plataforma Amazon após a tomada de posse de Donald Trump. O livro descreve uma sociedade dominada por um ditador que chega à Presidência dos Estados Unidos com promessas solenes de reformar a economia e a sociedade e repor os valores nacionais.

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (Publicações Europa-América)

Neste romance, publicado pela primeira vez em 1953, os livros são proibidos, cumprindo os bombeiros agora a função paradoxal de atear fogo (aos livros) em vez de o apagar. Existe contudo uma comunidade que resiste, a dos “homem-livro”: cada indivíduo decora um livro de um autor para assegurar a preservação da memória literária e cultural que ele representa.

A História de uma Serva, de Margaret Atwood (Bertrand)

Publicado em 1985, o livro descreve uma sociedade totalitária, em que a Bíblia é utilizada para justificar a posição de subalternidade das mulheres, praticamente relegadas para uma função reprodutora. Atwood questiona, de forma inteligente, o significado de certos vocábulos que parecem adequar-se apenas para descrever uma sociedade patriarcal. Mais um exemplo de como a linguagem molda as práticas sociais.

*Para facilitar indicam-se os títulos e as edições mais recentes em português.